sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Tunguska




A trindade de sangue, corpo e alma reúne-se finalmente na destruição de Tunguska, onde o cenário é de violenta revolução, milhões de árvores arrancadas do solo e de novo lá deixadas. Diz-se que o shaman chamou o toque do deus do fogo, e que seu espírito era demasiado grandioso para que qualquer um o visse. Nada que olhos de comuns mortais pudessem experimentar, sentímos apenas a raiva de tal vida energética. Uma explosão mortífera longe de tudo e todos, onde o feiticeiro tocara com seu dedo no dedo da chama sobrenatural, onde o encontro entre os dois mundos não pudera ser compreendido, aniquilando então o tudo e o nada.

Hoje o shaman queima o incenso, a medicina que me irá limpar o sangue e a alma que foge sobre mim carregando o tempo vivido por este corpo na Terra. Este espírito que me guardava, olhando sempre por cima do meu ombro, infectando o meu animal com alegria, dúvida, paz, solidão! Este espírito que me guardava estava doente e longe do corpo, parecendo nunca mais voltar, em direcção ao Sol. E a cada fôlego da cura sou engolido pelo verdadeiro mundo, o dos que não querem que os vejamos. Os que vivem escondidos observando-nos. Aqueles que apenas os sacerdotes da vida podem com sagrados sentidos e fórmulas ver. E agora eu, incompreensivelmente priveligiado...

Do Ocidente maléfico surgem druidas, trazendo suas ervas e foices, fabricando elixires da vida. No misterioso Oriente, o monstro de água Baikal enche-se de todas as peças humanas que fazem parte das minhas memórias, boiando inertes em sangue, de olhos semi-cerrados. Do Norte nada surge senão um vento indomável, em gélidos rodopios ascendentes, qual roda-da-morte toda poderosa. E do Sul, do selvagem Sul, vem o fogo da rebelião que permite aos mais corajosos heróis e ladrões perderem as suas pegadas na grande caminhada, sendo sempre livres de escolher o próximo passo. Num momento tive a beleza do além no brilho dos meus olhos - no momento a seguir tudo voltou para trás.

Enquanto o guru canta, as ervas dos druidas envolvem o meu corpo presente no olho da tempestade, o sangue do Baikal preenche o vento, subindo às nuvens e chovendo de novo na terra! As árvores levantam-se, os semi-mortos afundam, e neste cenário caótico tudo pára de novo - o fogo do Sul sobe também às nuvens e queima os céus vermelhos! No centro do tornado as garras de outros infernos saem da terra revolvida, e como que disformes se esticam às casas dos deuses, agarrando a alma perdida que a meio caminho já ia do Sol! Ao mesmo tempo esta massa orgânica, também inerte, eleva-se nos braços transparentes de tal supra-ser que nos decide juntar: enquanto as colossais mãos me trazem a alma, o sangue em chamas cobre-me o corpo, sangue que descubro então ser meu, voltando às minhas artérias e veias! O fogo presente chega-me ao coração no momento em que este bate pela primeira vez renascido, no mesmo momento em que tudo brilha e a doença explode, na vontade de rebelião, enquanto tudo descia de novo à Terra Mãe! Tudo arde, nada vive, apenas eu.

E acordo no epicentro da solidão, renascido, num novo corpo ainda negro das cinzas, onde cada batimento cardíaco parece o pulsar do ácido mais corrosivo. Mas levanto-me, observando de novo os troncos caídos, agora apontando para mim. Talvez este seja o local da purificação. As plantas jazem aqui como que mostrando que quem se levanta é o animal, na sua curta mas intensa vida. O Baikal intensifica isso quando um lava as cinzas e as feridas, pela sua imensidão, pela sua fauna e flora, pela sua beleza. Um colosso líquido que arrefece o sangue e recompensa de novo a paz num ser endurecido.

Procura o shaman, pede-lhe ajuda. Pede-lhe vida.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Répteis

Ando e ando por este corredor, e nada parece real. As paredes são feitas de caveiras que brilham - dentro de cada uma jaz uma vela acesa. Lagartos rastejam desajeitados, apressados à minha volta, prevêem sempre o meu próximo passo e abrem lugar para que não morram esmagados. Luz, morte, répteis. O é ambiente frio e húmido, apesar de tanto fogo. O tecto está coberto de musgo, do qual caem gotas apenas na minha cabeça e nunca à minha volta. O cheiro é nauseabundo, um fedor a decomposição enche este lugar coberto de mil melodias e gemidos, berros e assobios, num silêncio assustador - e mais uma gota cai na minha cabeça. Como o sino de uma igreja, estas gotas mantêm-me acordado. Há dias, semanas, meses, anos.

Já as devia ter ouvido com atenção há muito. Odeio-as tanto que nem sabia escutá-las. E agora que as escutei sei como me livrar delas. Bastou escutá-las uma vez para saber que não são reais. Amanhã com certeza acordarei fora deste sítio macabro. Esperavas mais? Pesadelos não passam disso mesmo, então quando abres os olhos podes dormir descansado sob a luz de outro fogo menos dourado mas muito mais ardente. Esse que não tem quem o apoie e se pendura por ele mesmo no espaço, esse solitário permite que vejamos.


A Lua? É onde estou. A Terra? Sei lá, provavelmente foi de lá que vieram estes lagartos. E as caveiras? Provavelmente pessoas que vieram à Lua e não aprenderam a respirar sem ar. O fogo das velas ensinou-me a fazê-lo. E quem construiu isto? Não duvido que tenham sido estes lagartos todos que vieram procurar pelos seus amos. O meu lagarto ficará na Terra a transmitir as idéias a quem as quiser ouvir, vivendo por mim na Babilónia.

Só mais um conto de fadas.