Num momento uma dor aguda percorre-me de fora para dentro, concentrando-se no coração e explodindo gloriosamente, levando-me a berrar como um louco e ouvindo os coros que só ouço na Lua! O sangue inflama nas artérias e consome a carne com labaredas negras que ao tocarem infectam e fazem apodrecer o mais puro dos frutos! A decomposição instantânea do corpo espreme o que resta de mim em espírito pelos poros da pele, mas obriga-me a continuar a sentir a dor de um cadáver semi existente!
Passado este instante de desespero físico, dou por mim a mergulhar na minha própria sombra, e como se não passasse de uma pedra na calçada, vejo tudo o que se encontra entre a imensidão dos céus e a podridão das solas intocadas das pessoas mais citadinas. Sucumbido a uma dormência pesada e um ardor torturante, confirmo que me desliguei do corpo - e como se tivessem passado anos, sinto as memórias de há longínquos instantes a voltarem, contando-me uma história sem nexo: corvos voam em todas as direcções uns escassos metros acima do meu cabelo, largando um mar flutuante de penas negras. Um dirige-se a mim e pousa no meu ombro, e enquanto formas e símbolos simples reluzem platinados à minha volta, vejo-me a postrar de dor e a cair morto num único momento fluído - eu e o corvo.
Vejo o mundo contorcido e por uma janela metafísica, de cores e formas misturadas, de caras em constante desfiguração. A luz vai diminuindo e por fim encontro-me a sós comigo, mas nem a mim me vejo. O desespero da situação inexplicável levar-me-ia para a desistência, aceitação - mas sinto a dor e as labaredas, apesar de já não ter corpo. Se penso, ainda não morri. Então não ficarei aqui - caminharei para a porta branca que se faz ver no nigredo, esperando encontrar lá uma qualquer verdade que me retire a mim mesmo para me levar ao meu corpo.