quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Nigredo


Num momento uma dor aguda percorre-me de fora para dentro, concentrando-se no coração e explodindo gloriosamente, levando-me a berrar como um louco e ouvindo os coros que só ouço na Lua! O sangue inflama nas artérias e consome a carne com labaredas negras que ao tocarem infectam e fazem apodrecer o mais puro dos frutos! A decomposição instantânea do corpo espreme o que resta de mim em espírito pelos poros da pele, mas obriga-me a continuar a sentir a dor de um cadáver semi existente!

Passado este instante de desespero físico, dou por mim a mergulhar na minha própria sombra, e como se não passasse de uma pedra na calçada, vejo tudo o que se encontra entre a imensidão dos céus e a podridão das solas intocadas das pessoas mais citadinas. Sucumbido a uma dormência pesada e um ardor torturante, confirmo que me desliguei do corpo - e como se tivessem passado anos, sinto as memórias de há longínquos instantes a voltarem, contando-me uma história sem nexo: corvos voam em todas as direcções uns escassos metros acima do meu cabelo, largando um mar flutuante de penas negras. Um dirige-se a mim e pousa no meu ombro, e enquanto formas e símbolos simples reluzem platinados à minha volta, vejo-me a postrar de dor e a cair morto num único momento fluído - eu e o corvo.

Vejo o mundo contorcido e por uma janela metafísica, de cores e formas misturadas, de caras em constante desfiguração. A luz vai diminuindo e por fim encontro-me a sós comigo, mas nem a mim me vejo. O desespero da situação inexplicável levar-me-ia para a desistência, aceitação - mas sinto a dor e as labaredas, apesar de já não ter corpo. Se penso, ainda não morri. Então não ficarei aqui - caminharei para a porta branca que se faz ver no nigredo, esperando encontrar lá uma qualquer verdade que me retire a mim mesmo para me levar ao meu corpo.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Eclipse

A Lua vagueia na escuridão sem que ninguém tente perceber o que ela faz lá. As pessoas vivem lá em baixo, nunca voaram, nunca caíram, e agarram-se à realidade - a Lua está aqui por acaso, assim como tu, com ela debaixo dos teus pés, fugidia, vadia, mas precisa. Desaparece de dia, e os sonhos dos bonecos caem, esquecidos, trocados por uma realidade vã. E não vêem que a nossa Lua também não está a olhar de volta para eles, mas sim para as estrelas, a dançar sempre de costas para as faces deslumbradas de uma espécie hipnotizada pelo brilho do Sol. Enfeitiçados e enfeitados por vícios e hábitos, também eles vagueiam por aí, sempre o mesmo percurso - mas este astro não tem a órbita típica das pessoas, por mais que ronde a Terra chega sempre um pouco mais longe de quem não deseja, e sempre um pouco mais perto do Sol!

Repara. Sem sombras. Sobre a tua cabeça a luz brilha e tu não te deixas cegar! E debaixo dessa escuridão vês um planeta cheio de cães, ovelhas e porcos tornarem-se de novo em vultos cheios de cor pasmados desta vez com a sombra dos próprios sonhos! E os espíritos saem dos corpos e voam livres, e vêm acompanhar os coros com a arte da orquestra que toca sob o Eclipse! A visão volta a todos quando a luz se reduz a um anel misterioso e cessa de cegar, e todos caem felizes de joelhos ao ver - toda a Lua é negra!