segunda-feira, 29 de abril de 2013

Ártemis M.

Foi-te dada a maldição de cuidadora e caçadora, e por uma longa era escondeste-te desse peso duplicado, do paradoxo de quem dá vida na presença e a tira na ausência. Dás asas, incendeias. Dás membros, decepas. Dás um corpo, perfuras. Dás uma cabeça, decapitas. Mas, nos momentos em que o receptáculo se encontra completo, enche-lo de sangue, ofereces uma alma, enquanto o coração continua acorrentado a ti. E a luz, momentânea luz, a luz que permites ver à criatura é deveras a mais bela e atraente, completa com todas as cores. E com tal luz brilha a estrela da manhã e o astro da noite.

E hoje, caçadora, permites-te abrir um pouco os olhos e ver o fogo que emana de ti, o fogo com que imolas os objectos da tua criação, cujo fumo mistifica ainda mais o espaço e o tempo. Permites-te ver o teu próprio brilho.

Desconheço truques, tudo o que vejo é uma parte pura da realidade. Desconheço metáforas, cada palavra que cai da língua é a peça mais sincera da alma. Desconheço outras vidas, passadas, mas sei que houve uma pelo menos - não é a minha. Desconheço a minha própria morte, o resto da vida, o amanhã, o próximo momento. Tudo o que conheço é a rebeldia de um cadáver que não se quer manter morto, de se tornar o caçador, de se tornar o cuidador. Mas é um cadáver que não anda à caça, toda a maldição é oferecida, mais que conquistada.

sábado, 27 de abril de 2013

Demónios domados e amados, então uma vida mais livre. A cada dia, escravos mais conscientes de si próprios, de fiel serventia a todo o espectro da vida e do ser humano.

Selena, e Dríade, e Terpsícore


quarta-feira, 24 de abril de 2013

Blake


"Without Contraries is no progression. Attraction and Repulsion, Reason and Energy, Love and Hate, are necessary to Human existence.
From these contraries spring what the religious call Good & Evil.
Good is the passive that obeys Reason. Evil is the active springing from Energy. Good is Heaven. Evil is Hell."

"Blake's theory of contraries was not a belief in opposites but rather a belief that each person reflects the contrary nature of God, and that progression in life is impossible without contraries. Moreover he explores the contrary nature of reason and of energy, believing that two types of people existed: the "energetic creators" and the "rational organizers", or as he calls them in The Marriage of Heaven and Hell, the "devils" and "angels". Both are necessary to life according to Blake."
É tão fácil separar demónios e purezas. Deixa a consciência mais limpa, quando se prefere uma visão simplista, em que se ama a luz e se odeia as trevas. Mas é temporário, e em algum momento passamos a viver insatisfeitos com a pureza, e tentados pelos demónios. Estas palavras só são verdadeiramente dignas na metáfora, durante um momento, durante um pensamento. Todos os demónios são puros. Todas as purezas são demoníacas. O que se sente sobre cada uma das partes levita incessantemente, confunde-se, e volta a separar-se.

Como poderia alguém atingir a paz segura e duradoura sem entender a sua guerra pessoal? Sem aprender a amar os demónios, domá-los, e soltá-los, consoante a sua própria necessidade? Não é render-se a eles. É ter uma luta interior justa, um debate com a própria mente. E dessa luta retirar o próximo passo na evolução pessoal. Saimos sempre mais fortes.

(Vago e vão, mas útil para relembrar.)

Arbítrio

Cartas e cartas, nunca escritas, quase sempre lidas, outras escondidas. Outras pairam em molduras num recanto da mente, uma vez escondido, de vez em quando reencontrado. Cartas sobre a corrupção do corrupto, em direcção ao completo. O reconhecimento da força perante a tentação, e a fortificação da tentação a defender-se da força. A vontade é tudo. Na vontade reside a consciência, o medo, a coragem, o desejo, o repúdio - mas nem sempre a vontade é clara. Somos escravos da vontade mais forte, porque sobrevive sempre a mais forte.

Se me observo mau a cumprir promessas de mentira e silêncio, se corrumpo ocasionalmente essas mesmas promessas, talvez seja porque as que verdadeiramente tenho vontade de cumprir são promessas do bem estar, de continuar a ver um certo sorriso sem fim. O diabo que reside em mim tem duas faces - uma associada ao desejo, outra associada à resignação. O demónio do desejo quer-te igual num mundo diferente. O demónio da resignação engloba a fuga, o repúdio à dor, a vida rápida e prazerosa. E sem eles não haveria o shaman que com cânticos e plantas em chamas me faria ver a vida pelo que ela é. Por conhecerem o mal, até os demónios querem o bem.

Mas o shaman que invoca a ajuda da natureza e os demónios que invocam os prazeres da mesma vivem todos dentro de um deus, não maior que ninguém à excepção de si próprio. E esse deus olha com agrado e dor ao demónio do desejo, o qual está convicto num mundo maior, mais belo, mais perfeito. De contrário olha pesaroso para o demónio da resignação, o qual quer apenas a inconsciência, cura que o shaman não pode dar.

Apenas vontades, contraditórias, cuja vencedora é uma mistura - a forma com que lidamos com tudo, a ferramenta com que fazemos a realidade, com que tentamos atingir a paz consciente.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Eva

A maçã do conhecimento. A dentada que subjugou à humanidade à sua própria condição. A dentada que permitiu que nos conhecêssemos, que fossemos nós mesmos, em vez de umas pestilentas conchas vazias aos olhos uns dos outros e dos nossos próprios, uma pintura morta num quadro. Sem medo do medo, correndo o risco de correr riscos, lutar pela luta, viver pela vida, morrer pela morte. Sofrer pela alegria, ter a alegria na liberdade de sofrer.

Sem um Zelador do Não.

Somos deuses de nós próprios, convivemos com outros deuses. Ditamos o nosso destino, mas não o que nos é destinado. Criamos inadvertidos invisíveis influências no que nos rodeia, em quem nos rodeia. Cometemos erros, procuramos redenção. Cometemos proezas, procuramos humildade. Somos egos e egos que tentam viver em conjunto, indivíduos que somados valem mais que cada um sozinho. Somos sonhadores dos abismos e desesperados das nuvens. Criamos, destruimos, queremos, odiamos, tentamos, conseguimos, falhamos. Ganhamos derrotas, sofremos vitórias.

Aprendemos. Tentamos voltar atrás, contorcemo-nos perante a impossibilidade. E apercebemo-nos que tudo o que nos é permitido pelo Universo é caminhar em frente, partir para outras terras, ou reconquistar as terras perdidas. Conhecer os nativos, confrontarmo-nos com a existência de outros que não nós. Reconhecermos novos deuses. Respeitá-los ao invés de venerá-los. Amá-los, odiá-los, ou ignorá-los. Adoptar em vez de repudiar. Comunicar em vez de comungar.

E sob as velas do tempo, e sobre a cera quente por elas largadas, criarmos o nosso caminho por mais voltas que ele dê.

Sem a maçã do conhecimento, tudo isto seria uma palavra: "existirmos".

The Siren

"I still have the demon
Back inside my head.
She must be some Siren,
She is in my dream."

1984

"Under the spreading chestnut tree,
I sold you,
You sold me."

sábado, 20 de abril de 2013

O que seria das palavras se não fossem verdadeiras?
Seriam silêncio?

Álbum Vermelho


Corre, corre, corre, até a vida se esgotar. Corre, para que não tenhas tempo de dizer que te arrependes do que não fizeste. Foge do presente, acaba com tudo numa reacção nuclear do teu corpo no ar, corre até encontrares onde poder descarregar todo o teu ser. Salva a alma que brilha pelos poros da tua pele! Toda a confiança é depositada na possante asa, enquanto te depositas nos cálices dos quais bebes! Abres os olhos para dentro e vês as naus a navegar na tempestade, entre as colossais ondas, qual Armada, preparadas para a guerra! E desejas, desejas, desejas sem parar que venha a batalha na qual dês a vida, na qual possas ser o insano que te queima sem seres o louco que destrói, apenas o suicida que salva, e entregares ao mar o teu último sopro!

Mas sabes que estás longe do fim, aproximas-te apenas do início, e por ele procuras e anseias. Sabes que te diriges a casa apesar de te moveres contra o vento, resignado à mente perigosa. Se para sempre a vida acaba, que acabe em grande! Sentes a Terra quando lhe pousas a mão, as vibrações trepam-te os ossos até ao crânio, e sem som tu ouves os berros gemidos dos soterrados! Sim, deixa-te levar pelos abismos ardentes das masmorras mais profundas do Inferno, sabes que é lá que se encontra o Paraíso, nada fácil para o fraco.

Olha de novo para dentro, até te cegares, até novos olhos surgirem para que possas observar da forma realmente certa a decadência do mundo. Torna-os intemporais, na quente Primavera sê capaz de sentir os ventos uivantes do Inverno! Com mil lâminas te deparas, e contra elas marchas, sozinho, mas em vez de sangue é areia que cai, seca, fina. CAMINHA! Mais um passo, e outro passo, e nada mais importa!

E quando chegas ao fim das searas de metal vês um novo mundo. Os pântanos do fantástico! Crias que neles nada poderia crescer, mas vês agora os borbulhantes pântanos dos confins humanos, os vapores de poder, cada bolha que rebenta é uma potencial epopeia apocalíptica, um renascer, um despertar! Sentes os músculos apertarem num desejo ardente por essas sereias enlameadas, difusas na neblina opiácea! Criatura, como és capaz de tão rapidamente te vingares de ti mesmo, traindo-te, e como nisso te regozijas! És fogo, e queimas, e queimas-te, e és queimado. E uma flecha ardente sai do pântano em direcção ao pôr do sol carmesim, e tu gritas, de raiva, de prazer, de ódio, de amor, de tudo, e gritas, e gritas, até os pulmões secarem!


E abres os olhos para fora, e és apenas tu. A vil criatura continua enjaulada. (...)

sexta-feira, 19 de abril de 2013

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Coisas das quais amanhã não me arrependerei


E quão grande o meu alívio ao te ver ficar ao invés de fugir. Quão grande o peso de acreditar no peso da tua consciência. Mas o que se pode dizer quando sabes tudo? Desejava eu poder dizer o mesmo.

Deveras, não há caminhos limpos.

Dois soros da verdade. Mas apenas uma interrogadora. O álcool, e a tua curiosidade. Mas apenas tu tens acesso a qualquer um deles.

Volta.

Volta.

Volta.

Antes do adeus. 

Volta. Não deveria haver um adeus.

- Volta. Que não chegue a haver um adeus.

Mas, para sempre, poderás confiar na minha coragem e na minha covardia; ambos estão lá para ti. E de nada me arrependerei.

(O sangue ferve. Deveria eu silenciá-lo? Ou deixá-lo jorrar para todo o mundo observar a rubra cascata?)

terça-feira, 16 de abril de 2013

Talvez fosse inevitável, talvez não. Não é orgulho, não é medo; contudo, é certeza, ao lado da ignorância, cada uma nos seus termos. E as sensações são paradoxais, contraditórias, ao atingir uma das epifanias que confirmam como se é por dentro. Não é uma epifania que tenha mudado, pois quem me mudou foste tu, durante a presença e a ausência.

E não é o segredar tão obviamente, esconder-me enquanto te sou transparente e me fazes parecer opaco, não é a mentira verdadeira nem a verdade a querer se sobrepor à realidade; isso é-o, por si só, desde que a locutora sejas tu. Não é o saber que não devia, não é sequer o atirar-me na cascata, sabendo que uma musa me dá a leveza para voltar à tona; isso é-o, por si só, desde que a musa sejas tu. Não é sequer a saudade, trazer de volta o passado, as memórias, reconstruir um mundo antigo, sonhado, que ficou por viver em pleno.

É sim o admitir e aceitar a paradoxalidade, o risco, a dor, a ignorância sobre a inevitabilidade, que me leva à epifania da certeza. De saber que te quero corromper, que te corrompas, por fora e por dentro, para te levar e a mim a um mundo que também não conheço mas existe. Para nos reconstruirmos sem deixarmos de ser quem somos, refazer a realidade, caminhar sobre o caminho sujo, enquanto nos limpamos. Beber cada gota de ti, tornar o meu transparente em cristalino, ser a tua casa.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

domingo, 14 de abril de 2013

Abre-se a caverna dos vocábulos, e de lá sairiam torrentes de versículos, parábolas, poemas em prosa. Mas neste momento apenas silêncio, e uma brisa morna. Senta-te, em paz contigo, em paz comigo. O monstro dorme. E com ele, um fragmento bem tratado, bem guardado.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

"Or else you will dig my grave"

A cada passo corrói-se a vida. Não é eterna, não é repetível. Não é perdoável, apenas compreensível. Incorrigível. E cruel por proibir caminhos limpos. O que ontem parecia uma pincelada no quadro, hoje pode se revelar uma nódoa. O que hoje parece uma nódoa, amanhã pode se revelar uma obra de arte. A dualidade é agressiva e eterna, não há unicidade no valor de algo.

A solução a essa condição humana é jogar entre a entrega e a resistência, tentar discernir entre a casca podre e a protecção do puro. Não é, de todo, uma solução. Vivemos constantemente no presente, trazidos pelo passado, descobrindo o que será o futuro apenas quando ele acontece.

Tentamos manter o caminho limpo, somos levados à loucura pela impossibilidade de divisão, e lutamos para nunca nos arrependermos. E, de vez em quando, conseguimos. Aguentarmos ser atirados entre o fogo e o gelo, sentir o sabor de cada decisão, é estar vivo. 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

E corre, tão forte e frágil, a correnteza dos pesos na consciência, dos pequenos enganos prazerosos, do toque momentâneo noutros mundos. Os nossos corpos flutuam, descendo esse rio em direcção às cascatas. E por vezes nadamos, recuamos perante o perigo iminente, mas não nos afastamos completamente. E de forma repetida colocamo-nos à prova, agarrando-nos a um ramo, olhando para a margem. É assim que provamos (ou tentamos provar) que em qualquer altura podemos regressar à segurança, secar a pele, sermos normais.

Mas o meu corpo pertence à água, fervilhante à tua presença. Não se pode dizer que cairei na cascata; digo antes que nadarei em direcção a ela. Um abismo natural cuja queda, se bem praticada, não matará. Que será um mergulho alto e profundo, mas voltarei à tona, inflado pela tua memória. E, claro, será um mergulho belo - mas apenas para mim, que o sinto, e para quem conhecer a sensação. Outro qualquer dirá, sem dar grande importância, que terá sido um salto triste, enfadonho, desajeitado - a beleza externa nos mergulhos não é o meu forte.

Mas a correnteza do tempo, o fluir de folhas flutuantes, arrancadas de árvores pelo teu sopro...

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Excertos

"...

No centro da colossal flora circular jaz mística uma obra de pedra, um templo ou um pequeno palácio. Pátios e colunas rodeiam as paredes e o tecto aberto do seu interior, uma arca do tesouro. Uma construção cuja origem deixa a suspeita entre a natureza e o homem. Coberta de heras inspira o incrível, qual história encantada. Um mistério atraente, não mais alto que as árvores que a abraçam, e um único riso simpático e inocente faz-se ecoar à sua volta.

..."

O que ganho? Primeiro ponto: outros mundos.
"E de nada me voltarei a arrepender." Espero que tu também não.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Excertos

"...

A brisa voltava, e de novo escutava os risos feéricos!

...

Com uma força reposta subo habilmente o resto dos ramos até ao topo, tarefa facilitada depois de ter conquistado o caminho até ao primeiro. E com meio corpo descoberto das folhas, vi-me finalmente olhar em volta. A visão dessa perspectiva é como que aterrorizante: uma imensidão de árvores rodeia esta clareira, mais depressa encontraria o horizonte repleto de folhas que um sinal de civilização! Vêem-se outras quatro clareiras, com quatro árvores, com outras quatro majestosas copas, e eu no cimo da quinta! A simetria das assimetrias, um círculo pentagonal, uma esfera do incrível!

..."

Excertos

"Na floresta, procurava pelos teus passos. Ouvia sons que não sabia se seriam as tuas gargalhadas trazidas pelo vento, misturadas com o balançar dos ramos nas árvores. Como se estivesse viva e a guiar-me, a floresta deixava folhas caírem apenas num local adjacente aos meus pés. E elas pousavam como que fazendo um tapete amarelo e castanho no meio do verdejante iluminado pela luz do fim de Verão, que se escapava por entre os braços das possantes e estáticas bailarinas. E eu pisava esse tapete inquestionavelmente, onde ele me levasse eu iria. Mas este era por vezes tão perfeito e a aproximar-se desses cálidos murmúrios, como de repente tropeçava numa das inúmeras raízes que povoavam o solo. E comigo caía o volume desses sorrisos cantados, numa floresta serrada em que qualquer um se perderia, tivesse alguém coragem para nela entrar. Levantava-me, e o trilho mágico fazia-me dar voltas sobre mim mesmo, levando-me numa direcção completamente nova.

..."

quarta-feira, 3 de abril de 2013


Não compares. Nunca? Não sou hipócrita a esse ponto. Mas quando fazes uma escolha, porque não ter orgulho nela? Outras mil se deparam perante ti. Orgulha-te de ti. Ama-te. Por mais que te odeies.

(Rum, rum, e outra vez: rum, rum, rum. Faz disto de uma música.)

terça-feira, 2 de abril de 2013

Rasga as cicatrizes, espeta, mais fundo, e roda. A carne arde, todo o som é o seu crepitar, camuflado sob vocábulos vãos. Mil pecados, uma redenção, uma tortura que expia, como sempre, a sanidade. Se Eva tivesse dado este fruto a Adão, este teria devorado a Árvore.