sábado, 25 de abril de 2009

Repouso

Em naus de guerra chegam os filhos bastardos dos semi-deuses que me parasitam o cérebro. Piratas da sanidade, quando passam tudo escurece, todos tremem de frio sem entenderem o porquê. Ninguém os vê, ninguém os ouve, ninguém os conhece. Mas eu vejo. Mas eu ouço. E sinto. E vêm eles, com os seus hinos nas gargantas, celebrando de uma forma rude mais um dia de pilhagem mental, assombrando cada neurónio que ainda sobrevive aos seus ataques.

Querem-me levar à loucura. Seguem-me, berram-me, violam-me o ego, pagam-me com a apatia e o frio das ruínas onde os seus ídolos foram sepultados. Nesses momentos estou literalmente dentro de mim. Preso no meu corpo, amordaçado, amarrado. O olhar vazio invade o exterior e vejo o fogo a queimar-me os pulmões, desfazendo as cordas vocais e matando-me mais um pouco. No fim, é no desolamento fúnebre que encontro o meu corpo, encostado a uma qualquer parede desfeita, tentando criar para compensar o destruído.

Mas até depois do fim os pais desses piratas me conseguem tocar. Os corvos que em mim pousam lêem estas palavras, enquanto me bicam o cérebro através do crânio aberto. Talvez seja a forma que os semi-deuses encontraram para me espancarem a alma quando não se querem mostrar. Quando a perversão lhes é tão alta que apenas me querem observar prostrado em dor enquanto se acariciam e masturbam.

E chove. Chovem penas, uma por cada vítima da insanidade e da necessidade de revidar um espírito interior, por cada músculo queimado no desespero de sentir alguém a querer sair pelos olhos. E chove, chovem penas negras que confortam todos os corpos carbonizados pela luta contra eles próprios. Chovem penas negras caídas dos corvos, e sinto-me finalmente confortável neste mundo onde apenas eu existo. Abandonado por esses coveiros de almas, de ego violado repouso na cama de vítimas, sobre todas elas descanso. Encontro a redenção no fogo, e com uma beata incendeio esta cama, e com ela desapareço.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

A Vala Lunar

O ponto onde todos morrem, afundados na neve, dando o último sopro em desespero como um uivo não ouvido à lua. É aqui que se vêm todos os corpos, uma vala comum despropositada, o ponto onde esta lua gélida te mata. Cadáveres congelados, ainda parecem vivos, dormentes no gelo... E esses cadáveres irão uivar uma vez mais, com os pulmões cheios de alma, com os corpos cheios de neve, sem cara. Marionetas inacabadas de um deus filho da puta. Por isso a lua reconquistou este reino de almas semi-mortas, exércitos de bonecos articulados cegos. Para aqui a lua tudo atrai, para tudo prender, até à morte inevitável - lembro-me que foi aqui que morri eu também.

Mas é a nossa passagem para fora dos mais profundos calabouços do inferno, onde nada é real menos a dor, onde o tempo é dobrado para a eternidade parecer ainda maior. Foi aqui que nossos corpos ficaram, mas as almas vagueantes são nada mais que aleatoridades à deriva, enquanto sofrem aquilo que o corpo não sente. Mas a lua nos irá libertar. Essa gélida lua congelante conserva nossos corpos enquanto as almas não estão prontas. A lua, nossa líder, nossa mestra, a nós, àqueles que não têm rosto. A nós a lua! A lua!

E sinto o sangue correr, começo a sentir meu corpo, sinto o gelo a estalar. A minha alma regressou. Eu regressei! Os lobos uivam ao longe, pressentindo o poder dos que acordam, mas não fogem. Apenas uivam. E os olhos rebentam na cara, o nariz, os lábios descosendo-se com esforço, enquanto a plenos pulmões apenas berro em silêncio. Não mais marionetas, não mais deformadas criaturas esquecidas, corta os fios que te prendem! Com o sangue da cura ainda escorrendo pela face, noto tudo tão vermelho. A neve. Os lobos. As árvores. Até a noite. A lua. Esta lua gelada, prestes a tornar-se sangrenta.

E todos nós caminhamos, passos longos e fundos na neve, nunca mais amedrontados, nunca mais discriminados. E até quem olha para trás, para o gelo, e vê o seu corpo encurralado na transparência, até quem olha para o passado sabe que esses corpos não passam de espelhos esquecidos. Uma realidade alternativa do seu prórprio ego, uma das suas várias facetas. Pois a hora da evolução chegou, com os nossos rostos roubados à sanidade. Pois hoje temos o controlo do que mais precisamos, nós próprios, e nada tememos enquanto deixamos um rasto de almas mortas nas nossas pegadas.

domingo, 19 de abril de 2009

A Carta

Não penses. Fica em casa. Aquece essa massa orgânica que és no lume da tua lareira, com o copo de vinho numa mão, e esta carta na outra. Sim, fica. Digo o mesmo ao meu cão. Fica!

Já pensaste na inércia que és? Não é por seres essa inutilidade, não é por seres vão e oco que não queimas tanto oxigénio como os outros. Se partilhas do mesmo ar, porque não partilhas dos mesmos espíritos? Depende da vontade que temos de receber cada um, a nossa capacidade de dizer sim a algo que não estava planeado - a nossa espontaneidade - a nossa vida interior. E o auto-respeito? Afinal, isto é só um punhado de palavras que notas quererem entrar no teu crânio, instalar a dúvida, instaurar o caos, levando a certas respostas das quais temos medo. Será que estes "tus" são dirigidos a ti? Obviamente isso cabe-te a ti decidir.

Quanto a mim, apetecia-me falar contigo, e assim o faço. Uma carta, um pequeno manifesto em forma de carta. Mas tanto manifesto a agressividade que sinto pelas tuas atitudes incompreensivelmente inertes como o amor que tenho por ti, que é o que em primeiro lugar me traz aqui. Se tudo o que sentisse fosse o desprezo, obviamente que não gastaria o meu tempo com tais palavras. Por isso digo, odeio-te. Odeio-te pelo que és, ao lado do que podias ser. Odeio-te por amares a mediocridade, por veres lá fora um bicho papão que não passa de uma sombra, a sombra da dúvida. E por favor, se tens medo de uma expressão, a sombra de dúvida, como enfrentas tu essa vida que levas? Pensa nisso, quem tem de gostar de ti és tu.

Mas se te trancas numa gaiola dourada és como o cego que não quer ver. Se tirares as palas dos olhos vais ver que o mundo é muito mais luminoso, e com essa luz consegues distinguir melhor as cores, as formas. Vês muito melhor a podridão daqueles a quem tu começas por chamar ídolos, e líderes das nações, e líderes de revoluções. Mas vês que assim como eles tiveram uma escolha, em que a podridão foi o caminho deles, tu também terás sempre escolhas, aquelas que te definirão como pessoa, ou como simples despojos orgânicos saídos do ânus de Deus. Mas tens de começar por sair de casa, encher os pulmões, iluminares o teu interior. Descobrires que há muito por descobrir. Encontrares aquilo de que estavas à procura nesses séculos de História, tu. Sem olhar a um Deus, a um ídolo, a mais um Óscarzito da Academia - tens apenas de te encontrar a ti. Por mais que nos inspiremos no que nos rodeia, todos temos a nossa veia de autenticidade, e encontrá-la e rasgá-la, espalhar o nosso próprio sangue nas paredes do tempo, é a felicidade e prazer dos que verdadeiramente fizeram isso.

Não te incomodarei com mais. Apenas digo, vai à luta, que esta carta é para ti.

Não me sigas. Inspira um pouco do mesmo oxigénio que nós e acolhe o espírito que mais abraçar os teus alvéolos pulmonares. E queima esta carta nessa lareira, inspira o fumo destas palavras, e faz o que achares melhor - não terás ninguém a olhar-te por cima do ombro.

Luta.

14/04/2009

sábado, 18 de abril de 2009

Na Chuva Negra

Uma noite comum para a minha mente, a rotina da noite-a-noite. O hábito de acender um cigarro no cérebro enquanto os olhos vão descrevendo na folha linhas e traços, dando forma a um poema. Mas sem versos, sem tinta. Sem palavras, sem sons.

Uma noite comum também para os meus olhos, que vêem a tinta do que não escreveram a escorrer, borrada pelas macabras gotas que caem do céu. Aí sim, as intenções se tornam em palavras: molho a pena na chuva negra, firo a minha língua, e com a boca e a pena em sangue, transmito as palavras que me iam nas veias mas que a língua não queria soltar.

Mas são estas gotas negras como o alcatrão que me permitem sonhar, que me cegam os olhos para que eu deixe por uns momentos de ver apenas este mundo, e me provocam com o seu silêncio. Vejo mundos e mundos a olharem para mim, sem uma única palavra, sem um som, sem um movimento. Contemplam o momento, literalmente, seguram-no com suas mentes, contemplam este momento em que há mais uma mente a cruzar-se com as deles, e analisam-me... Como consciências mudas, atacam-me com o olhar! Consigo ver nas suas expressões a crítica, a denúncia, comparando-me ao meu alter-ego. E são esses olhos, todos eles verdes, que fazem a raiva e o ódio subir em mim e esguichar palavras como sangue de um coração.

E assim o faço, verborreio para satisfazer os seres que andam descalços, apenas agasalhados por mantas brancas que lhes cobrem o crânio e as costas, mas não as intimidades. Porque andarão assim? Presumo que queiram ser discretos, não envergonhados. Transparentes e protegidos. Destemidos pois nada têm a temer. Irritantemente perfeitos, estes seres que idolatro e odeio, odiosamente bem feitos e bem pensados. Enquanto que eu, na chuva negra, sou nada mais que um espantalho onde os corvos fazem ninhos!

Mas na inocência e frescura desta mente, o que me falta é consciência da realidade, e por isso como sempre deambulo pela noite, arrastando comigo o peso de um fantasma pendurado em mim, os labios da consciência presos ao meu pescoço tentado-me seduzir apenas para me enganar.

Talvez o peso que sinto sejam apenas as minhas vestes encharcadas em chuva negra.