sábado, 28 de dezembro de 2013

"Nem um poema, nem um verso, nem um canto,
Tudo raso de ausência, tudo liso de espanto."

Ary dos Santos

sábado, 21 de dezembro de 2013

Worms. Worms eating through me, drooling acid over my nerves.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Please, just don't let her go.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

E das suas costas escorre o sangue, num fino fio de doce substância. Mas de língua se faz a limpeza da ferida, que teima em se manter aberta e desejosa. Uma mão desce-lhe da cintura, enquanto outra, meio fechada, se arrasta da sua omoplata até ao pescoço, ao maxilar. Os dedos desenrolam-se nos seus lábios, e um beijo molhado capturou de mim a pequena roda azul. O que a distinguia eram os seus três X, dois atrás de um outro, maior, rei entre eles. Mal sabia eu que uma sua gémea viajava já na boca que antes me encontrara as falanges, deitando em mim também esse fruto químico, cuja potência e prazer fica apenas atrás da química dos corpos, mas somando-se-lhe.

E as mãos rolaram no mar orgânico, na massa dançante.

Apodyopsis

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O alçapão fecha-se atrás dela. Sua, mas não treme. Sente-se apertada, mas respira lentamente. O nervosismo estala pelos seus braços, enquanto a penugem se ergue electrificada. Não sabe se voltará a sair por onde entrou. No mundo em que se aventura não sabe sequer se voltará a sair.

Acende-se uma luz vermelha a um canto, mas por culpa das cortinas negras que lhe cobrem o brilho nada é desvendado aos seus olhos, se não a silhueta à sua frente. Recua, com o mesmo medo que lhe dá prazer. A sua cabeça tropeça em algo, aparentemente pendurado no tecto, antes das suas costas encontrarem a pedra estranhamente morna da parede. Os pêndulos invisíveis no escuro chocalham por momentos, com ruídos metálicos.

Os olhos habituam-se vagarosamente ao escuro, sem pressas de por a descoberto os mistérios dos artefactos que se lhe apresentam. Distingue uma mesa, em cujo tampo brilham superfícies decerto metálicas. Mas subitamente são-lhe tapados os olhos por uma venda aveludada, enquanto uma voz, também ela profundamente aveludada, lhe segreda: "sinto o teu sangue correr e as tuas sensações dispararem escorregadias - mas não quero ver os teus olhos revelarem-te o que te está reservado".

Ordenou que levantasse as mãos acima da sua cabeça. Com um leve empurrão da mão nas suas costas, deu um passo em frente e sentiu os seus pulsos serem aprisionados por algemas de novo aveludadas. "Mas será aqui tudo macio e simpático?" Antes que a desilusão lhe descesse pela espinha e revertesse os seus fluídos, a sua coxa sangrava. Em vez de um grito de dor, sentiu a sua coluna vibrar no arrepio do corte. E de novo as sinapses lhe levaram a sensação de algo leve deslizar por ela abaixo e acima na pele, até sentir um outro pequeno corte nas costas. Sem nunca perder contacto com a maciez, o seu corpo viu o misterioso objecto encontrar finalmente o seu nariz: era uma rosa.

"Porque te disse que te poderia fazer cair de prazer com apenas uma flor, e tu não acreditaste." Finalmente era reconhecido.
Pergunto-me se serão os meus pés tão descuidados ou as folhas tão suicidas.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Ulysses

(...)

There lies the port; the vessel puffs her sail:
There gloom the dark, broad seas. My mariners,
Souls that have toil'd, and wrought, and thought with me —
That ever with a frolic welcome took
The thunder and the sunshine, and opposed
Free hearts, free foreheads — you and I are old;
Old age hath yet his honour and his toil;
Death closes all: but something ere the end,
Some work of noble note, may yet be done,
Not unbecoming men that strove with Gods.
The lights begin to twinkle from the rocks:
The long day wanes: the slow moon climbs: the deep
Moans round with many voices. Come, my friends,
'T is not too late to seek a newer world.
Push off, and sitting well in order smite
The sounding furrows; for my purpose holds
To sail beyond the sunset, and the baths
Of all the western stars, until I die.
It may be that the gulfs will wash us down:
It may be we shall touch the Happy Isles,
And see the great Achilles, whom we knew.
Tho' much is taken, much abides; and tho'
We are not now that strength which in old days
Moved earth and heaven, that which we are, we are;
One equal temper of heroic hearts,
Made weak by time and fate, but strong in will
To strive, to seek, to find, and not to yield.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Riso Amargo

Num desafio temerário e forte,
Eu quero rir da Vida, altivamente,
Da Vida que é combate, luta ingente,
Nesta comédia dum viver sem norte.

Quero rir da desgraça e da má-sorte
Que nos fere e persegue tenazmente.
Rir do que é baixo e vil, amargamente,
Do que é soluço e dor… E até da morte!

De tudo rir! Que mais posso fazer?...
Se a podridão de charco jamais volta
À limpidez das fontes a correr…

Quero rir!... E o meu riso é um esgar,
Um grito de impotência e de revolta!
Rir! Quero Rir!!

… E apenas sei chorar!

"The presence of absence."

"Personne. Je resonne. Repersonne. From what depth this re-nonsense? Woof, said the dog. A rush and a shuffle, and woosh-woosh went the door."

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

"What they don't tell ya is that once time starts again, it moves extra fast to catch up with reality."

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013


Que se derrame o ácido sobre a cabeça e o corpo!

Voltem, luzes sombrias, levem-me daqui nas vibrações irresistíveis e nos terramotos que provocam!

domingo, 1 de dezembro de 2013

"The problem was, she didn't exist."

sábado, 30 de novembro de 2013

“She was fascinated with words. To her, words were things of beauty, each like a magical powder or potion that could be combined with other words to create powerful spells.”
Os dedos na tua face, o polegar no teu lábio, húmido... Mas és apenas uma sombra.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Mas há aquelas pessoas que só podem permanecer na mente de outras se escreverem e nunca falarem. Que têm que morrer por fora para poder viver um mínimo por dentro. Que inevitavelmente trocam o real pelo imaginário. Sujando algumas folhas, borratando o que não pode ser borratado, fazendo rabiscos e rascunhos que não chegam a desenhos mas são vistos como pequenas pinturas amadoras. É o máximo a que os escassos meios de alguns podem ambicionar. Emudecer para gritar, congelar para não arrefecer, separar as personas de um só ser.

Mas duas personas num só corpo é ter duas línguas na mesma boca, duas falas na mesma garganta. Dois erros e espaço apenas para um. Não sobra espaço para acertar, sobra? Então vivem errando, erram vivendo, e erram até em tentar mudar de rumo. Cria-se um segundo corpo, plástico, um vasilhame emprestado a uma personalidade de cada vez. E a persona sufoca, mas não há grande opção, há? Quando não se consegue juntar o deprimente cómico e o comicamente depressivo.

Mas é enquanto ambos estão temporariamente mortos que cabem no mesmo corpo, e se revela a piada mais deprimente, que nem o dramático nem o palhaço conseguiram contar: ser-se pessoa nas horas vagas. Com uns tiques de um e as repressões do outro, aparecem diálogos que são apenas balões de oxigénio para se aguentar até recuperar o pé. O mais estranho é que é também aí, com ambos no mesmo corpo, que essas pessoas se sentem maiores, mais largas, mais pesadas. O mundo é expremido pelos olhos e ouvidos até ao cérebro, o ar custa a entrar nos pulmões, e tudo tem um tom sonolento, viscoso, nojento. Convenientemente é quando estão mais conformados, quando as más notícias valem pouco menos que as boas. Penso que é assim também que menos interferem no mundo, e então erram menos.

Mas há coisas que nunca mudam, alguma parte é constante e verdadeira. No caso deste, por exemplo, é escrever para se tentar compreender.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

White Rabbit

One pill makes you larger
And one pill makes you small
And the ones that mother gives you
Don't do anything at all
Go ask Alice
When she's ten feet tall

And if you go chasing rabbits
And you know you're going to fall
Tell 'em a hookah smoking caterpillar
Has given you the call to
Call Alice
When she was just small

When the men on the chessboard
Get up and tell you where to go
And you've just had some kind of mushroom
And your mind is moving low
Go ask Alice
I think she'll know

When logic and proportion
Have fallen sloppy dead
And the White Knight is talking backwards
And the Red Queen's "off with her head!"
Remember what the dormouse said;
Feed your head
Feed your head

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

That's what we do, ain't it?

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Quem és tu, que tento expulsar da minha cabeça? És-me um ódio triste à realidade, uma sensação de que tudo (tudo) acabou. És um vulto estranho que se passeia silenciosa e discretamente, como uma infecção dormente que jura matar antes de morrer. Isto foi o pouco que ainda consegui ver pelas brechas da tua capa, bicho raso. Depois de tantas vezes me teres enganado. Escondes-te à vista de tudo em mim, passaste discreto por entre as minhas multidões, e, travestido, queres ser chamado de "ela". Rodeias-te das minhas memórias, que sem ti são compreendidas (de forma custosa, mas compreendidas). Fazes-te passar por essas mesmas memórias, roças-te nas melhores para que captes o cheiro, e amordaças as piores para que te possas fazer ouvir ventríoloquo, esperando ser confundido pelo perfume que roubaste.

Atrapalhas-me a visão, negro vulto. Atrapalhas-me até a tragédia, retiras-me da dignidade a que posso chamar minha. És-me um ódio triste, e ainda assim nem és Ódio nem és Tristeza. És apenas um ser desprezável, até desprezível, que forçou a entrada em mim enquanto não olhava. Produzes pus e sangue morto, usas as artérias para tentar popular as chagas - é nada longe de um milagre o facto de não triunfares por completo em mim. Não és sequer Degredo, e és no entanto o asqueroso. O coração terá que bater mais lento, os pulmões terão que ser mais calmos, e tanto a pele como espírito terão que sofrer ainda mais, agora que te reconheci, para que te continue a reconhecer. À sua passagem varrer-te-ei das memórias, para que se permaneçam limpas.

Mas ainda me faltam os poderes de observação para saber se poluíste ainda mais de mim. Talvez vivas em mim eternamente descansado e escondido se eu achar que te expulsei. Mas lutarei mais astuto, para que não mais me assedies os sorrisos nem me violes as lágrimas. Bebê-las-ei para mim, sentindo o seu sabor dolorosamente ácido por vezes, pacificamente desolado por outras, e nunca morrerei de sede. Oferecerei os sorrisos para que sejam cuidados por alguém mais habilidoso que eu. Terei ainda assim que descobrir como guardar o meu pequeno tesouro privado, para que não me durmas com os segredos.

Sonhaste ser outras pessoas para me poderes comer por dentro, ainda mastigaste da minha alma e da minha carne. Mas enquanto te conseguir ver, não mais infectarás.

domingo, 24 de novembro de 2013

"But I am but a blind man
In my own crypts and mazes"

sábado, 23 de novembro de 2013

Como poderia alguém reclamar para si o domínio das palavras?
If you had just one chance to take a look through the Looking Glass, to see the truth for one brief instant, would you take it? Would you use it to look at the past, or look at the future? Would you look at yourself, or look at the ones you love? Would you share it with another, or would you keep it a secret?

What if you were the Looking Glass?
What if everyone were just like you?
What if their lies were your lies?
Their loves your loves? What then?
Would you lay aside ignorance and prejudice?
Would you stand up and fight for what you believe in?
Would you pick it up or would you put it down?

The Looking Glass.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

"Olhei para o relógio e faltavam cinco minutos para a eternidade."
Quando desapareces o mundo escurece de novo. Ignoro, e ponho os óculos de ver mais claro. A eficácia é dubiosa, mas dá para desenrascar. Não se trata de viver no passado. Trata-se de não ter interesse num futuro, nada parece fazer grande sentido.

E dizes-me um outro adeus retroactivo. Se te era difícil, espero que isso te tenha tornado tudo mais fácil.

Desejava ter sido melhor, mais justo, para contigo e para comigo mesmo.

Os óculos hão-de se fundir na pele, e hei-de ver um mundo mais claro de uma forma quasi-natural, ver como tu.

Espero que o último momento de estupidez aberrante não te tenha trazido problemas ou preocupações. Mas não consigo mentir, penso nisto como um adeus mas não o consigo aceitar. Talvez quando o nó na garganta se desfizer.

...

Nunca te arrependas. De momentos, de palavras, de escolhas. Por mais que isso possa magoar alguém. A mim ou a outra pessoa. Arrependeres-te faria com que te doesse mais a ti.

Até um dia, imensamente distante, o qual cegamente quero acreditar que exista. Afinal é o mais próximo que consigo de um adeus.

Parvoíces. Mas sem manipulações. Pelo menos olhaste para trás.
Por favor.
Tu sabes.
Eu sei.
Até já.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Abro os olhos, e é céu azul e nuvens negras. Boca seca e salgada, quão irónico é morrer como tantos outros à sede no meio do oceano. A flutuar à deriva em cima de uma qualquer tábua podre, esperando que se desfaça. Tirar à sorte entre a sede e o inundar dos pulmões pela água.

sábado, 16 de novembro de 2013

How could I not explode?

Imploding instead.
Como mensagens rabiscadas em papel amarrotado nas mãos de crianças que só assim conseguem abrir certa parte de si, este balde de correios não entregues serve fielmente o seu propósito. Segredos envergonhados, invioláveis, incompreensíveis a quem não os conhece. Porque por mais rara que possa ser a oportunidade de te descrever algum pensamento, alguma sensação, roubas-me os pensamentos e os estendes no chão. Abertos e mudos, para serem levemente pisados por conversas profundas ou fúteis, agradáveis, tão... Naturais. De longe é tão mais fácil concentrar, de perto tiras-me dos meus caminhos.

E vi-te, e mal te vi recomeçaram os soluços, e a sensação de estar em casa apesar de estar banido dela. Como ter uma muralha e tu do outro lado, mas de alguma forma escalá-lo e ver os cantos da tua boca levitarem em sorrisos. Sentado lá em cima, tão longe e tão perto, sabendo que acabaria por bater de novo de costas no chão após a Terra rodar para me fazer cair. Maldita gravidade! Como o que te rodeia, tão leve e grave ao mesmo tempo. Como as mesmas conversas, profundas ou fúteis, agradáveis, tão... Naturais.

E quão difícil é descrevê-lo, como com esse verde me tiras o cinzento do dia-a-dia, a amargura defensiva, o orgulho protectivo, a razão fria, os pontos finais, a fatalidade conformada. A tua voz faz com que esses meus pequenos monstros se calem, te ouçam. Tiras-me da seriedade para a parvoíce bem intencionada. Um pequeno oásis com pernas e cabelo longo, diferente de um mundo agreste. E a cada um dos soluços que a tua visão provoca sai um desses monstros, agora mudos, agora inócuos.

Mas que digo eu? Soubesse-o. Quando o sei, não o consigo dizer. Quando o consigo dizer, não o sei. Houvesse um gravador de almas e transformasse-se a semi-amnésia do bem-estar num registo escrito. Porque merecia a sua própria placa, escondida do mundo, presente em algum jardim que partilhava contigo, mesmo que na verdade pudesse ser apenas pouco visitado. Com fontes de ti, uma Lua sempre presente, palavras em papéis que não se desfazem na chuva que trazes. Pudesse ler-te algum desses papeis, na minha voz para ti. O jardim também é teu, visita-o sempre que precisares.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Há uma hora, passada num momento, que merece ser descrita. Ainda não encontrei as palavras, mas elas existem. As que não existirem, hei-de criá-las.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013


Não é mentira que preferia a pessoa segredosa e subversiva que podias ser. Não é mentira que vendia a alma de quem fosse preciso para ficar iludido como já estive (quanto mais o que faria por outras vontades do meu corpo, mente e coração). Mas admiro a tua integridade sem igual, saber que abres tão seguramente a mão dos teus desejos mesmo quando são tão pequenos e, na verdade, irrelevantes coisas. Com todos os demónios que tens em ti, consegues dominá-los sem dificuldade, és pura.

Antes fiz um voto de não invasão, de não persuasão, de não intromissão no teu mundo, e eventualmente falhei tal voto. E tu, segura. E já depois de tudo deixar de importar, continuas a mesma, não mudei um milímetro o teu lugar.

Tens as rédeas do mundo e pareces não saber. Admiro-te pela tua perversão e inocência, obedientes à mesma integridade.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Midnight Black Earth

É como alcatrão no qual o corpo se afunda, em pé, de pé, pelo pé. Como uma esponja absorve todo o calor, toda a vida, todo o sangue, lenta e pacientemente sufoca as vítimas impotentes. Os metais e as madeiras fazem-se ouvir irmãos, acompanhados das cordas e das peles. E rendes-te, mais uma vez, mais vagarosamente que antes, mais calmo. Até que a rendição seja existência, até que a existência esgote a vida, até tudo secar por dentro, murchar sem morrer. Sem dor, alguma pena. Sem medo, aceitação. Sem objectivo, liberdade. Na doce amargura do alcatrão à meia noite. Quão hipócrita consegue ser a paz interior.

http://www.youtube.com/watch?v=RErmfXDMbvo

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

"Dear fatal name! rest ever unreveal'd"
Lust and pain, blood and mud.

sábado, 2 de novembro de 2013

Chet Baker - Almost Blue

Almost blue
Flirting with this disaster became me
It named me as the fool who only aimed to be

Almost blue
Almost touching it will always do
There's a part of me that's always true... Always

http://www.youtube.com/watch?v=z4PKzz81m5c

Death and a glass of Port.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

“We die. That may be the meaning of life. But we do language. That may be the measure of our lives.”

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

I met a traveller from an antique land
Who said: "Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them on the sand,
Half sunk, a shattered visage lies, whose frown
And wrinkled lip and sneer of cold command
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamped on these lifeless things,
The hand that mocked them and the heart that fed.
And on the pedestal these words appear:
`My name is Ozymandias, King of Kings:
Look on my works, ye mighty, and despair!'
Nothing beside remains. Round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away".


































































segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Afinal não são cores, mas negrume, o que vejo. Não elfos e fadas em pós e incensos, mas demónios com chagas, feridas abertas e infectadas, a agarrar os tornozelos enquanto passo nas margens dos lagos onde um dia se afogaram. Mas puxo-os um pouco acima e rapidamente pontapeio-lhes a cabeça, prossiguindo o meu caminho, sabendo que acabarei como eles.
No magic, no covens and terror
I walk among you as one of you
Don't be another brick in the wall.

sábado, 19 de outubro de 2013

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

"It's too bad you won't live! But then again, who does?"
10000 anos são comprimidos numa noite, e 10000 vultos vagueiam durante os 10000 anos dentro da mente. Toda ela é pisada, batida, amansada. Exércitos de vagabundos desnorteados enfraquecem o crânio e fazem inchar o cérebro com imagens de desconhecidos, desaparecidos, vespas, metais, sangue, raiva, dor, prazer. O síndrome de Estocolmo entra e quer-se continuar com os 10000 raptores que possibilitam algo forte, por mais que excruciante.
A morte não vem, continue a tortura.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

sábado, 12 de outubro de 2013

"Save all my lovin' for someone who can give it back!"

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

"Assim principiou o declínio de Zaratustra."
A Lua, num quarto minguante fino, cortante, impossívelmente grande e amarela, por trás da neblina. E ao alto as estrelas, na noite cerrada. Dezenas - não, centenas - de pontos brilham entre um ponto e outro, como se as estrelas chovessem do paraíso no firmamento ao inferno na Terra. E, entre o desespero e as lâminas enferrujadas, um último suspiro abençoado pela paz conformada do sonho dentro do sonho. Uma paisagem bela. E um vermelho cai, tintando a visão lentamente, e tudo se esbate e desfoca, e tudo desvanece.

Trinta e quatro falsos anjos em pé nas dunas de areia negra cantam a perdição das almas sujas. Vozes dissonantes contra as ondas perfuram a água e chamam-nos, para ao amanhecer nos descobrirmos afogados. E as ondas não voltam para nos retornar a terra. E assim permanecemos entre eles nas dunas, na costa, à espera, sempre à espera.

Estranhas visões invadem-me as noites.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013


Half-empty deadness
In peace I rust
Though I do not rest.


E a tinta, que ficou a meio?


Suspenso dentro do corpo do demónio, nada faço mais que a meio. Só o consigo meio fazer, meio pensar, meio ver, meio ser. Sinto meio bafo flamejante sair das minhas narinas, sinto meio peso carregado pelo demónio, peso meio da minha meia consciência. Meio vivo, meio morto. Meio eu, meio rendido. Meio de olhos para a frente, meio para trás. E na média só vejo meio; à minha frente vejo uma imensidão repleta de vazio, atrás um espaço vazio de nada se não arrependimentos de meias acções. Metade de mim sobe puxado pela cabeça, como balão; metade de mim enterra-se na terra, e parto meio para cada lado.

Não duas metades que se completam, apenas duas colecções incompletas de meios sonhos e meios objectivos. Tanto começa que nunca acaba, tanto meio que é no início, tanto fim que fica a meio. O meio-dia do deserto, a meia-noite da alma. De meio ego, metades se fazem. De meio sopro um saxofone meio triste. Meio poético, meio nada.

Afinal, apenas meio suspenso dentro do corpo do demónio, meio demónio, meio morto, meio vivo. De meia tinta, meio texto, meia ideia. Meio minha, meio vazia.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Where did the night go?

Long ago the clock washed midnight away
Bringing the dawn
Oh God, I must be dreaming
Time to get up again
And time to start up again
Pulling on my socks again
Should have been asleep
When I was sitting there drinking beer
And trying to start another letter to you
Don't know how many times I dreamed to write again last night
Should've been asleep when I turned the stack of records over and over
So I wouldn't be up by myself
Where did the night go?
Should go to sleep now
And say fuck a job and money
Because I spend it all on unlined paper and can't get past
"Dear baby, how are you?"
Brush my teeth and shave
Look outside, sky is dark
Think it may rain
Where did
Where did
Where did
Marla's philosophy of life was that she might die at any moment. The tragedy, she said, was that she didn't.

sábado, 5 de outubro de 2013

Desliga-se a mente para arrefecimento e vive-se até-se morrer. Para quê pensar?

Guia para mentes temporariamente decadentes

Na metalurgia e instrumentalização da mente aponta-se para um objectivo central: imunizar a mente contra as condições agrestes do exterior, enquanto permitindo o seu bom funcionamento e comunicação. Consiste em envolver a consciência numa membrana de aço, sendo este composto por um conjunto de metais ainda no processo de descobrimento, assim como as suas fracções no total. Deve ser também uma tecnologia limpa, que não deixe marcas no ambiente, enquanto que deve permitir a comunicação da mente com o exterior.

Enquanto que o processo da composição do aço se submete a um desenvolvimento contínuo, a sua actualização perante a aprendizagem de qualquer tema melhora o produto final - é um trabalho sem fim. No entanto a disposição das vias de comunicação entre a entidade central e o universo (composto por pessoas, os seus produtos, a natureza, e as variadas relações entre estes três) é calculável. Não apresentando as equações, ainda também a serem estudadas nesta tecnologia emergente, devem obedecer ao seu próprio conjunto de requisitos.

Os orifícios de entrada devem ser precisamente espaçados, de abertura suficiente (mas não mais que suficiente) para adquirir novos conhecimentos sobre o ambiente que rodeia, permitir a passagem de estímulos do exterior (como visuais, sonoros, olfactivos, entre outros) para os sensores da entidade observadora; a precisão destes parâmetros é essencial para minimizar o risco de contaminação e maximizar o fluxo de informação para o interior.

Após as sensações serem obtidas, devem ser processadas num ambiente estéril, sem contaminação de dados, percepcionadas separadamente. Com o processamento dos dados gera-se informação, sendo esta do primeiro nível (i.e. o nível mais básico). Dado que cada sensor processa os mesmos dados separadamente, a informação gerada deve ser compilada numa fase seguinte. O ambiente deve ser analisado tendo em conta todas as variáveis, falhas e atributos do mesmo, permitindo gerar de ante-mão o erro máximo, a partir do qual se obtém pré-processamento nível 2 o grau de confiança das conclusões a serem inferidas, minimizando uma vez mais os erros.

No segundo nível de processamento pretende-se que seja gerado o pensamento interno, a primeira fase de processamento consciente. Neste nível é de especial importância a aplicação do conceito de caixa-negra, sendo que o pensamento deve ser objectivo e independente de factores como os locutores, o estado de espírito, a massa da consciência (que quando submetida a uma influência gravitacional de personalidade se torna em peso de consciência). Apenas deste modo é possível garantir o correcto processamento da informação e resistir às falácias comuns ao ser humano, sendo que esta tecnologia é direccionada à espécie referida.

Este nível pode ser executado de uma forma recursiva ou iterativa (respectivamente), dependendo de se se dispõe as equações da lógica proposicional antes ou depois (respectivamente) das conclusões. Na execução recursiva acede-se de ante-mão ao banco de dados (B.D. doravante) de hipóteses formuladas, seleccionando as relevantes ao tema; procede-se então ao processamento da informação mais básica e ao preenchimento das variáveis das equações lógicas, repetindo o processamento com a adição dos valores lógicos das sub-equações obtidos em cada execução. Pelo método iterativo observa-se primeiro a informação, e pesquisa-se na B.D. as equações que podem ser trabalhadas com a informação presente; após o preenchimento e obtenção de valores lógicos das sub-equações, repete-se o processo a partir da observação da informação inferida, tendo agora esta presente para a pesquisa seguinte na B.D. de equações, descartando as que se revelaram inadequadas e possivelmente adicionando novas, não reparando antes.

As duas principais diferenças entre estes dois métodos são a dificuldade de cálculo das funções associadas e a qualidade da informação final. Enquanto que o método recursivo é mais fácil (i.e. exige menor esforço, tempo e memória) de calcular e executar, as conclusões são quase invariavelmente frias e absortas a possíveis comunicações subentendidas. No entanto é mais resistente a falhas dada a facilidade da prova de correcção.

[Em construção]

...

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

E como idiota, quando com sorte itermitente, apercebes-te de quão idiota é o que escreves.

Dança com os idiotas

Danças como um idiota, e idioticamente pisas quem dança contigo. Danças como um idiota e cais idiota, no chão. Danças como um idiota e não te sentes como um idiota. Sentes-te bem. Mas isso é idiota, e acabas por aperceber-te disso. E passas a não te sentir, nem a sentir ninguém. E ninguém te sente, ninguém pisas, e quando danças não estás lá, para não fazer estragos.

Quero droga, tenho de ir procurar os outros idiotas.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

What One Deserves

Como é preciso um exército de sonhadores para manter um abrigo sob a tempestade, e apenas que um deles seja idiota para o destruir.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Disability Revisited

Houvesse alguém que dita o mundo.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Vês de vez em quando as minhas vestes flutuarem, trazidas pelo fumo do cigarro? Decerto vejo as tuas.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Pale Blue Dot


"From this distant vantage point, the Earth might not seem of any particular interest. But for us, it's different. Consider again that dot. That's here. That's home. That's us. On it everyone you love, everyone you know, everyone you ever heard of, every human being who ever was, lived out their lives. The aggregate of our joy and suffering, thousands of confident religions, ideologies, and economic doctrines, every hunter and forager, every hero and coward, every creator and destroyer of civilization, every king and peasant, every young couple in love, every mother and father, hopeful child, inventor and explorer, every teacher of morals, every corrupt politician, every "superstar," every "supreme leader," every saint and sinner in the history of our species lived there – on a mote of dust suspended in a sunbeam.

The Earth is a very small stage in a vast cosmic arena. Think of the rivers of blood spilled by all those generals and emperors so that in glory and triumph they could become the momentary masters of a fraction of a dot. Think of the endless cruelties visited by the inhabitants of one corner of this pixel on the scarcely distinguishable inhabitants of some other corner. How frequent their misunderstandings, how eager they are to kill one another, how fervent their hatreds. Our posturings, our imagined self-importance, the delusion that we have some privileged position in the universe, are challenged by this point of pale light. Our planet is a lonely speck in the great enveloping cosmic dark. In our obscurity – in all this vastness – there is no hint that help will come from elsewhere to save us from ourselves.

The Earth is the only world known, so far, to harbor life. There is nowhere else, at least in the near future, to which our species could migrate. Visit, yes. Settle, not yet. Like it or not, for the moment, the Earth is where we make our stand. It has been said that astronomy is a humbling and character-building experience. There is perhaps no better demonstration of the folly of human conceits than this distant image of our tiny world. To me, it underscores our responsibility to deal more kindly with one another and to preserve and cherish the pale blue dot, the only home we've ever known."

— Carl Sagan, Pale Blue Dot: A Vision of the Human Future in Space, 1997 reprint, pp. xv–xvi

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Amigos Imaginários

É de pé a olhar para o mar, semi-sozinho, que vejo as tuas vestes pairarem sobre a água como que sustentadas pelo vento, de onde saem palavras talvez inexistentes, talvez apenas assobiadas, contigo longe. E de pé espero que voltes às vestes, que as tuas palavras não sejam tão frias como o mesmo vento que as parece transportar. E espero, sem saber quando irei parar de esperar - e espero, apesar do vento me cofidenciar que queres que eu também parta. Não. Para cada canto onde vou, para cada costa, montanha ou floresta que vá, a cada passo nas ruas da cidade deserta levo o teu fantasma comigo, em silêncio, apenas lá. E se um dia o vento levar até as tuas vestes, o teu fantasma continuará lá. Cúmplice, puro, para sempre minha adversária e minha companheira silenciosa. Mesmo que não espere um retorno, ninguém me pode roubar a memória e um segredo.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Molten

"When the morning comes it doesn't seem to say an awful lot to me."

sábado, 7 de setembro de 2013

Curse

Tonight I mourn the loss of heart and soul.

The path is taken, the curse received.
Dark and barren in the winter night.
Shadows move along the tree line.

A life is cleansed in blood.
Cleansed by these guilt hands.
Purged in a hollow soul.
Scorched and punished.

At the harbor I waited.
Kept an eye on the Baltic Sea.
Across these eastern waters a country of filth and dirt.
He emerged from the forest, how did he know? I damn this forsaken land.
Still the moon is looming low.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Quite Interesting

“We live, they say, in The Information Age, yet almost none of the information we think we possess is true. Eskimos do not rub noses. The rickshaw was invented by an American. Joan of Arc was not French. Lenin was not Russian. The world is not solid, it is made of empty space and energy, and neither haggis, whisky, porridge, clan tartans or kilts are Scottish. So we stand, silent, on a peak in Darien a vast, rolling, teeming, untrodden territory before us. QI country. Whatever is interesting we are interested in. Whatever is not interesting, we are even more interested in. Everything is interesting if looked at in the right way."

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Luna



We were the ones who marched and fell.

domingo, 1 de setembro de 2013

Painkiller Colours

The moon has now risen
The cold darkness takes over my mind
The spiders they keep leaving me under
I'm just getting to high to climb

quinta-feira, 29 de agosto de 2013


"Why say goodbye?
We are born again
When we die."

quarta-feira, 28 de agosto de 2013


O pior não é perdermo-nos. É sabermos onde estamos, encontrarmo-nos, e não nos reconhecermos. "O homem planeia e deus ri-se". Se não fizermos as pazes connosco mesmos, quem podemos nós ser? Como podemos mudar se não nos queremos conhecer primeiro?

Reconhece o que queres no momento. Distingue entre o que queres e o que desejas querer.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O teu murmúrio no meu ouvido, a lembrar-me de quão trágico é o tempo... E a tua adaga fervente nas minhas costas marca a tua presença... E sufoco, enquanto respiro melhor. Queima-me.

Nevermore

Once again

sábado, 24 de agosto de 2013

Silhuetas brancas caminham translúcidas, como quem afinal estava apenas na mente. Seres imaginários que fazem companhia, as sombras brancas, inexistentes. O palpável e o real querem desvanecer, o som é cada vez mais ténue, sobram lábios vagueantes e sobrancelhas expressivas que parecem não dizer nem ver nada. As cores são mais escuras, o tempo parece passar mais lentamente mas discreto, não dando pelos dias e pelas semanas a esconderem-se umas por trás das outras. Sensação funerária para quem já não ouve, mas disfarça lendo os lábios, pela surdez fala absurdamente alto. Como quem se vai embora mas não se pode despedir. Como quem está nu mas completamente pintado. Ninguém vê nada, mas ainda assim a vergonha existe.
Convulsions for those who can't move.

Losing It

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

segunda-feira, 19 de agosto de 2013


O céu ardeu. Vi dragões cuspirem fogo e entrarem no coração das mesmas chamas, para desaparecerem nas nuvens tóxicas desse queimar de almas, vi a Lua a ficar negra e explodir poderosa, com o impacto que pára o coração e a respiração por um momento de medo e impotência perante o céu. Vi a vida a desvanecer, diluída na pólvora dos fugazes brilhos coloridos. Toda a vontade havia desaparecido, para se tornar um com o envolvente. Toda a importância havia sufocado, todo o vazio se fez ver belo.

Nada, nada importa. Apenas passos em direcção ao fim de tudo, somos mortos em tempo emprestado caminhando preocupados com o mal-estar - mas somos apenas mortos enganados. Todos acabamos eventualmente.

Apenas mais um momento, apenas outro... O próximo pode sempre ser o último. Mas teima em se manter longe.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

"In the right circumstances, even the meekest..."

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Kashmir

"All I see turns to brown, as the sun burns the ground
And my eyes fill with sand, as I scan this wasted land
Trying to find, trying to find where I've been

(...)

Oh, father of the four winds, fill my sails
Across the sea of years
With no provision but an open face
Along the straits of fear"

terça-feira, 13 de agosto de 2013

"Watch my world dissolve."

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Mas o demónio está sempre lá, no ombro, a sussurrar-me que também eu devia ser um demónio sussurrante... Corta-me a língua. Mas cose-me também os lábios.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

"When death sleeps it dreams of you."

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

As narinas expiram vapor perfurado por um fogo fétido. Pois ele dorme, uma montanha lhe pesa nas costas. Mas no rachar da rocha e no sentir do ar gelado do Norte, os olhos abrirão, as pupilas fitarão a luz intrusa na sua cobardia milenar, e toda a cordilheira ouvirá o seu rugido e sentirá o vento das suas asas.

domingo, 4 de agosto de 2013

Amputando a alma, o corpo cede à gravidade. Mas torna-se livre na última queda.

sábado, 3 de agosto de 2013

"As formas da tua pele e os cantos do teu sorriso deram corpo e alma às palavras de um inapto analfabeto."
"When I die, bury me in smoke."

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Prohibited

E dançam, e dançam, e cantam, magos e bruxas à volta do caldeirão, sob a Lua, de vestes negras seguras nos esqueléticos corpos por cordas de ervas enfeitiçadas! Como riem, macabros, enquanto proferem imperceptíveis parábolas! Fumos verdes escapam do negrume do caldeirão, apenas para pairarem até serem capturados pelas narinas de um deles, enrubescendo-lhes os olhos, tornando mais roucos os seus cânticos e mais obscuros os seus risos.

E levantam a voz, e levantam as mãos ossudas e feridas, e com as suas línguas púrpura declaram o seu amor às chamas da natureza feita de árvores que ardem sem se consumir! E debaixo da luz da Vénus do início da noite, rogam à beleza destruidora que lhes mantenha os olhos abertos, enquanto outra Vénus mais terrestre se contorce em gemidos, nua no altar de rocha lisa. Desembrulham os seus amuletos, pequenas figuras feitas de folhas e flores secas da planta encantada, e lançam-nas para o caldeirão. O seu encantamento espalha-se, os cânticos passam a murmúrios, e as gargantas secam-se-lhes.

Pois chega o momento de beber algumas gotas do sangue da santa. Das feiticeiras é a mais bela que retira uma faca das suas vestes, dos feiticeiros o mais velho. A voluntária oferenda de carne, tatuada com as marcas da natureza, ajoelha-se no altar, e deixa cair as costas para trás, como dita o ritual. A Lua brilha sobre si, para que os deuses possam ver a luxúria benigna que transpira. O velho mago aproxima-se do seu pescoço, e executa um pequeno e momentaneamente doloroso corte hábil, que verte sangue de imediato. A bruxa, de cabelos longos brancos e lisos, faz o mesmo, com menos habilidade mais mais sensualidade no interior coxa do sacrifício. E ambos encostam os lábios à Vénus que se lhes dispõe, prazerosa, de olhos vermelhos e gemidos lentos. E as suas mãos agarram nos cabelos de ambos os feiticeiros, querendo mais ainda ser consumida. Mas sofre de desejo, enquanto, dois a dois, os feiticeiros vão sorvendo o seu sangue do pescoço e da perna.

Os fumos verdes dos amuletos continuam a levantar do caldeirão, adensando-se, e tomando forma lentamente, mudando de cor, tornando-se negros e vermelhos. Sobem, até formarem um corpo demoníaco, pairando sobre o caldeirão enquanto a sua transparência gasosa é substituída pelas cores sólidas e a textura de uma pele áspera, queimada pelas chamas da mesma natureza. Pousa levemente no chão, e os cânticos recomeçam, arrastados, com as vozes inebriadas pelo encantamento. O demónio trazido à terra pela magia negra dos anciãos caminha, com os olhos na frágil beldade que se lhe apresenta. A terra debaixo dos seus pés floresce e arde com os seus passos. Os lábios molhados da bela de cabelos negros e pele branca fecham-se ao reconhecer o ser do outro mundo. E enquanto estes se fecham, ela própria se oferece, como se um cordeiro reconhecesse a sua morte, e a aceitasse, e a quisesse. E unem-se os mundos na luxúria da carne e do fumo, do organismo e da droga, do ar e das plantas, sempre em cima do altar. Mas esse belo cordeiro é a contraparte do demónio, e como tal roda sobre ele enquanto crava os dentes na sua pele e o inspira, ficando sozinha de joelhos na rocha. E quando expira o fumo envolve-a, queimando-lhe a pele, e fazendo-a gritar suavemente, agradada pela dor. E o materialismo do seu corpo ressuscita, começando por dentro dela, entre as suas coxas (uma delas cortada), e estendendo-se de costas num manto de si mesmo, até para fora do altar. E grita ele pois a vida dela o queima, com a mão no seu pescoço, e as dele no seu peito.

É essa a melodia sadomasoquista, de amor e batalha, que preenche as veias desses magos. E para todo o mal, e para toda a dor, e para toda a natureza, eles vivem. E que até a morte seja vida, e que até o celibato seja luxúria, e que até o sofrimento seja prazer. Que até as palavras acariciem. Porque há correntes inquebráveis entre eles e as suas almas.

Isadora

terça-feira, 30 de julho de 2013

Devil in my tongue, Satan in my fingers, Belial in my eyes.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O próprio rei élfico, cujos olhos estavam habituados a coisas maravilhosas e belas, se levantou, estupefacto. E até Bard olhou maravilhado, em silêncio. Era como se um globo tivesse sido cheio de luar e suspenso diante deles numa rede tecida de cintilações de estrelas geladas.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Elizabeth

Dos dedos de onde antes jorrava a verborreia metafórica cuja tradução era guardada por uma chave segurada por duas mãos diferentes, hoje pingam vocábulos, escorrem pela palma, pulso, braço, e são reabsorvidos. Sentes-te de novo, pesado, ao mesmo tempo que deslizante num pairar sereno, arrastado. A capa que trazes varre o chão atrás de ti, guarda a terra das tuas pegadas. E a cada passo se torna mais pesada, como é inevitável no tempo. Mas recuperas o fôlego, puxas de novo a capa a ti, trazes de volta a alma à terra, e vês a paz no caos.

Não fazes ideia do que se aproxima, não sabes quando serás capaz de devolver ao papel a tinta que é dele, com a marca da tua floresta, escrita em doce veneno. Vês a curva contínua à tua frente e perguntas-te se será o teu caminho um círculo ou uma espiral. Se é um círculo, queres chegar onde começaste, e levar o caminho a rebolar para outros mundos. Se é uma espiral, dirigir-te-ás para dentro, em busca de ti próprio, ou para fora, tomando posse do mundo? Mas queres, em qualquer dos casos, abandonar a Terra, colonizar as terras que nunca foram tuas, aprender as línguas do além, pintar os quadros do invisível, esculpir estátuas de ninguém, escrever epopeias sem povos, tocar acompanhado de Terpsícore.

Mas sentes-te conscientemente relutante contra ti mesmo. Tentas-te ignorar mas não consegues. Será o círculo inquebrável? Esperas que sim. Esperas que não. Lanças-te aos remos ouvindo as melodias das sereias, e, fútil tolo, deixas o destino ao destino, abandonas toda a luta que não por ti.

Que apareçam novas fechaduras, novas chaves, e que a dourada permaneça o coração da floresta e do rio e da Lua, guardados pela ninfa.

E talvez um dia te encontres de novo na torre alada.

"Oh, it's a sad and beautiful world, a sad and beautiful world..."

domingo, 21 de julho de 2013

It's an empty house full of people.

"You were stolen as black across the sun."

sexta-feira, 19 de julho de 2013

"Self improvement is masturbation. Now self destruction..."

quinta-feira, 18 de julho de 2013

"... One must do the wrong thing."

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Moon Dust


I shall find again the way to lose myself in the dusty trails of colour and sound. But, whenever I look up to the night sky, the Moon will be hanging there, shining through the dust. Far away, silent, complete.

terça-feira, 16 de julho de 2013

- Human beings are terrible messes, Andrew.
- I'll grant you that!
Como um acordar pode ser tão vazio?

segunda-feira, 15 de julho de 2013

sábado, 13 de julho de 2013

And I'm wailing at the moon, dreaming of her face... In silence, in secret, in me, in her.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Mas não! Ao invés da loucura ou da morte renasce o espírito da sobrevivência pelos princípios. Se nada vale a pena? Nada, nada vale a pena. E no entanto o fazemos. Pela mesma fé que é traída vezes sem conta. Condenados a errar perante nós, mas a acertar perante o mundo, perante a integridade. Apenas não podemos esperar nada, pois, mais uma vez, estamos sozinhos.

A re-morte do ego, da esperança, o renascimento da luta vazia de fins, de meios, de conquistas, de cruéis homicídios da alma. A dedicação a um mundo em que já só se espera viver sozinho, sem recompensa se não a simpatia de quem o reconhece, e das ocasionais amáveis palavras de quem realmente nos importa. A morte do instinto, o renascimento do nado-morto, o óbito fettal que dará lugar à infinita paciência.

A desistência do próprio, para uma labuta do bem-estar.

--

O meu único medo? Voltar a precisar de me banquetear na morte dos outros. Medo? Certeza. O veneno como propulsor do amor. O mel que permeia o lado negro da Lua. O mel que permeia o lado negro da Terra. O adeus de um, as boas vindas de outro.

Tudo, tudo muda.

Apenas nada podemos esperar.

Nada.

Nem a compreensão do mais próximo.

... Mas quando a temos, o mundo parece o mais belo.

Mas não é. Apenas uma ilusão de agradecimento.

E que se viva sozinho, se não se pode viver em verdade em comunhão. A meditação é o único verdadeiro meio.
Mas estamos todos completamente sozinhos! Um grande bem-haja para os que podem ter sustentada a ilusão de que isto é mentira! Porque são esses o que estão mais perto de transformar em verdade. A compreensão mútua, ou pelo menos sempre o benifício da dúvida, a confiança, a fé em algo em que não há razão para acreditar, e ainda assim se acredita, e se prova correcto.

Mas aqueles cuja fé é traída descem ao poço absoluto da solidão, e morrem, morrem vezes sem conta. As cores desapareceram. Tudo o que sobra é um pequeno inferno de lama. Afundado, um ser mal se consegue mover. Apenas o nariz de fora, e os olhos intermitentemente conseguem ver o tecto das masmorras do demónio do desprezo; pois o ser afunda e volta com o nariz e olhos à superfície, numa tortura, em milhares de funerais simulados.

E o ser que havia pensado ter quebrado as barreiras do organismo volta ao fundo. E com a morte do artista, vem a morte da arte. E tudo passará a ser o pesadelo daqueles cujos espíritos dançam. E passará a ser o que acha os outros loucos por não ouvir a música. Isto, ou invariavelmente enlouquecerá para se morfar noutro monumento vivo da cidade, a espalhar a paz pelas palavras, de roupa rasgada e hálito a veneno.


Espero, velho, que a tua loucura será a de veres uma musa, na verdade ausente, através da qual expressarás quase secretamente todos os teus pecados contra a vida vivida. Não perderes o fantasma constante. Porque do outro lado não há razão; apenas subjugação.

This is the end,
My only friend,
The end.
Nem a salvação é salvação. Nem o degredo é salvação. Nada é salvação. Apenas ilusões em cima de ilusões, umas mais inocentes, outras menos.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

How happy is the blameless vestal's lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray'r accepted, and each wish resign'd...

segunda-feira, 8 de julho de 2013

sexta-feira, 5 de julho de 2013


A descrição da apatia é normalmente tudo menos apática. Ou é "a salvadora", ou é "um ácido corrosivo", ou alguma metáfora adolescente, parva. O que é, deveras, engraçado. Mas será que algum de nós conhece realmente a apatia? Presumo que não.

Num registo mais sincero e auto-destrutivo, "que se foda".

A Varanda

E quantas ideias e filosofias nascem no topo, conjecturam as hipóteses, especulam as reacções, descem pela espinal medula, sobem na pele arrepiada e trémula, num jacto que embate de novo no topo e faz dar um salto! Salto assustador, salto perigoso, salto inadvertido, que por sua vez despoleta a reacção dos músculos a segurarem o pouco que têm para segurar! Quantas ideias, quantas filosofias, aquelas que nascem e morrem numa varanda do terceiro andar com os membros pendentes para o lado errado, com o sol a nascer laranja.

Depois dos elixires e dos vultos violentos esvoaçantes e cânticos incomumente comuns e palavras vãs interessantes - depois disto todo o movimento parece tão inconsequente, tão fácil de aceitar. Quão reles é o cérebro que se sente bem por não se sentir mal? Depois de ver os pés balançantes no ar, no meio de tantas verdades e tantas mentiras, ser um mutável por dentro e dez constantes por fora... Num breve momento alerta e consciente os sorrisos parecem suportar a teoria de que o mundo está a desabar. O que o segura? As palavras? Não, de todo - essas são apenas testemunhas vocais ou pintadas. Então?

Mas o dito momento de clarividência desaparece antes de uma resposta, e volta-se ao baixo QI de um animal ferido por correr contra espetos. Será que eram espetos? Já é tarde para tentar perceber isso.

Bom dia, boa noite.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Abandone-se a gravidade, pois os vermes emergem e, carnívoros, devoram os perdidos! Abandone-se o corpo, pois apodrece o casco e todas as entranhas escondidas sujarão as amargas ruas da cidade! Abandone-se a visão, pois a luz é dilacerante na retina! Abandone-se a razão, pois a mente arde e qualquer presente será náufrago!

quarta-feira, 3 de julho de 2013

terça-feira, 2 de julho de 2013

Mas não há nada que eu possa dizer que não seja uma mentira ou uma tristeza. Nada, para além do silêncio morto que me toma nalguns momentos, naqueles mais descansados. Um vácuo imenso, no qual o Sol não existe, a Lua não brilha, e o espírito não respira. Uma morte temporária, fria, confortável, desumana. Sem o peso de uma consciência, sem o peso de uma existência. E, apenas nesses momentos, me acho em paz. Nada importa, nada é verdadeiro, nada sinto, nada ouço, nada vejo, nada digo; apenas isso mesmo, o nada. Não há uma aceitação, pois não há nada a aceitar. Não há uma dor pois não há nada que magoe. Apenas a cidade, o andar, uma sensação ludibriada de consciência plena. Tudo cinzento. Tudo morto. E, no entanto, tudo pacífico.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

"Though I stand in mire,
I will speak distant fire.
Though I'm laid to ground,
I will walk through age and sound."

Doce Veneno Lunar

Uma paisagem de gigantes cinzentos cortados pelos tornozelos, sobram apenas ruínas onde a natureza força a sua reentrada, cobrindo a pedra de heras e plantas sobreviventes como guerreiras. O céu é também todo ele cinzento, mas o Sol tão mortífero, forte, que atropela as nuvens e bate violentamente nas paredes destruídas, passando no vão de portas e janelas. Nos raios que se fazem poderosos brilha o pó que nunca assentou e nunca assentará, à espera de ser reaproveitado para reconstruir o lar da tribo que um dia foi aqui abrigada.

Há uma grande avenida principal, pavimentada com o negro de alguma pedra vulcânica, lava fria, outrora magma que transportara as superfícies do mundo, umas contra as outras, originando outros vulcões, terramotos, destruindo outras tribos. Uma prova de que o planeta vive, e vive para matar. No fim da avenida há uma praça, que nem a lava se atreveu a desonrar. Pois no seu centro está a personificação da Natureza, imortalizada em pedra, o único ídolo feito por mãos de homens, em feminino, sob uma túnica o seu pequeno corpo, perfeito, tão forte e frágil, coroada por um aro de flores perpétuas. Aos seus pés uma folha gigante e côncava, de pedra, abraçava no seu colo um líquido, uma água temida mas amada, protegida dos próprios que se protegiam dela. A água negra da memória, o fim de uma vida e o nascimento de um símbolo, ou o fim do sofrimento e a cobardia da escapatória, essa sim esquecida. Transformaria outros em pedra, por uma luta, por uma palavra decisiva, ou pela dor da morte do pródigo filho, ou pela dor do decaimento do sonho. Ou pelo desprezo de uma igualdade vã e desconexa de um sentido, um suicídio póstumo.

À noite vem a Lua, e a sua magia afasta as nuvens para que possa brilhar sobre a alma dos esquecidos. E brilha, brilha sobre a água da memória, e banha a face da sua guardiã. E durante Lua cheia o vento sopra levemente nos limites da praça, onde foram erguidas as Paredes do Universo, com pequenas ranhuras, viradas para a estátua... E toda a praça se torna branca no escuro. Acorda o fantasma da estátua, noutra côr de pérola brilhante e translúcida, do espírito da tribo, a Natureza, leve e deslizante. E enquanto essa alma errante vagueia pela praça com os pés envoltos numa nuvem, o vento assobia a melodia do seu lamento. E a sua face humana revela-se, ao voltar copiosamente as costas ao mundo e olhando de frente para a estátua que a guarda, e o triste momento mais belo repete-se, como nestas noites de sublime magia gemida: as mãos brancas daquele espírito acariciam a face da sua estátua, enquanto regressa por um momento a memória do seu escultor, e aproxima-se da pedra fria. Um beijo enternecido acontece, procurando como sempre entender, a morte da tribo, o peso de se ser o Universo, a solidão nas ruínas, a prisão numa estátua. E de joelhos cai levemente, abraçando a taça aos pés da sua imagem, enquanto a brisa continua a cantar levemente a sua dor, as suas lágrimas. Estas caem negras na taça, e nunca evaporam. Pois são apenas as dela, as Lágrimas da Memória, ou o Doce Veneno Lunar.

domingo, 30 de junho de 2013

"Doce Veneno Lunar"
"Voiceless it cries,
Wingless flutters,
Toothless bites,
Mouthless mutters..."

sábado, 29 de junho de 2013

"But always he remembered the mountain smoke beneath the moon, the trees like torches blazing bright. For he had seen dragon fire in the sky, and a city turned to ash... And he never forgave, and he never forgot."

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Um convite ao meu assassínio.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

"The spiders, they keep leaving me under."

terça-feira, 25 de junho de 2013

Entropia

O mundo gira sobre o vazio, feito peão rodopiante à volta de uma luz, gigante, distante. Contamos abertamente cada volta que dá sobre si mesmo, contamos abertamente cada volta que dá a esse pirilampo espacial. O que não tendemos a pensar é quão intimimamente desprezamos essas contagens homologadas, pois uma volta não é igual a outra. É o que se passa à superfície do planeta que dita a passagem do nosso tempo. É a idiossincrasia dos símbolos que nos rodeiam, das pessoas, dos hábitos, da Lua.

Só há uma direcção para a entropia, e é essa a direcção ao caos, à irreversibilidade. Mas vemos os sóis, os planetas, a vida tão delicadamente organizada a contrariar as leis do universo, a tentar manter coeso o ecossistema de relações pessoais. Por vezes, a tendência é tão forte que o difícil se torna voltar ao caos, obter a desorganização, liquefazer a realidade para a tornar mutável. Como se certos pontos da realidade tivessem cristalizado no tempo, e tudo o resto nadasse em sua volta, e por mais que queiramos fugir acabamos por reconhecer a mentira. Ou acabo, eu, na minha experiência pessoal. Solto os cristais, e eles não quebram. Tentara formar outros, mas não foram senão líquidos viscosos. Tentar abandoná-los matar-me-ia com eles. O que sobra é aceitá-los, se nem a negligência parece enfraquecê-los. E ver quantas voltas sobre si mesmos dão, e ver quantas vezes girarei em seu torno. E à noite brilham, translúcidos, perfeitos como diamantes, cortantes, mortíferos, dadores de vida, ácidos, belos. E à noite brilham, à luz da Lua.

Viraste a minha entropia ao contrário.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

"Narrar é viver, pois viver é apenas ser vivido."
Por isso eu tomo ópio. É um remédio
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.

sábado, 22 de junho de 2013

Desorientado, à deriva. Sei para onde tenho que olhar, mas cego não encontro a direcção.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

À procura daquele em quem me tornei.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

E não há o aroma, não há o paladar da despedida. E o tacto, muito curto para o ser, apesar de ser também o menos intencionado. Há, no entanto, um olhar fugido. Há sim vontade de dizer as palavras erradas, as palavras tão verdadeiras quanto erradas. Mas antes que pudesse errar o momento passa, fugido em pânico pelos dedos do momento passado inocentemente.

Mas talvez não tenha cheirado e sabido (por mais que sentido) a despedida por não a ter sido, não ainda... Ou talvez porque tenha visto uma partida em paz, sorridente, sincera, definitiva.

E os demónios morrerão de livre vontade, afogados na melancolia da ausência e das boas atitudes.

Que dedos teus ficariam marcados nas faces?

segunda-feira, 17 de junho de 2013


E as outras almas que se derretem nas cordas da guitarra, nos metais da harmónica, de nada significam quando caminhas sozinho no deserto, à procura, à procura. Julgam essas almas poder-se afeiçoar ao doce som da dor solitária. A solidão não tem afeição. Dás meia volta perante as transeuntes deleitadas, e caminhas com os lábios na harmónica, de guitarra às costas, com as botas cheias de areia.

sábado, 15 de junho de 2013

Tornaste-te boa talhante espadachim. Com as lâminas em brasa esquartejaste o meu ser. O calor cauterizou as feridas, e não me mataste. Mas havias aquecido as lâminas no teu próprio fogo, negro e púrpura, com o teu veneno natural. E por isso, a cada corte, sentiste um corte mais pequeno em ti. E o meu sangue vaporizou em contacto com com as adagas, e respiraste os seus fumos. Mas nada disso te doeu. O que te doeu foi teres o metal infectado pelo meu ser, e virares o gume para ti, e satisfazeres o teu próprio gosto pela dor. E assim inadvertidamente me levaste para ti.

Mas, na tua virtude da multiplicidade de criaturas, pegaste no teu coração de elfo, o teu cabelo de ninfa rodou no ar atrás do teu corpo, e voaste com as tuas asas feéricas.

A tua passageira presença será cantada, mesmo que em silêncio.

E o esquartejado olhará para o céu todas as noites, esperando ver o teu reflexo na Lua.

Até um dia, pequena ninfa dos rios.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

E quão bom é ver que não é preciso o dramatismo todo, que antes disso me agarro a uma rede cinzenta que na tristeza me permitirá, qual tarântula suicida, sentir as vibrações que estiveres disposta a enviar.

(07/07/2013) 

...

E apercebo-me. Estive mais vezes dentro da tua mente a explorar os recantos os quais abriste à minha passagem, os que me quiseste deixar ver. Estive mais vezes do que teria alguma vez assumido. Num presente semi-silencioso, em conversas que nem sempre precisaram de palavras. Mas escutei-te, e pensei ter ouvido vozes. Escutei-te, e pensei não o ter feito.

E apercebo-me, sempre tiveste razão. Talvez nunca devêssemos ter voltado a trocar um olhar, talvez nos devêssemos ter ficado pelas palavras inócuas, falsas, vazias se não de vontade de as encher.

Apenas dois actos não consegui fazer por ti, e talvez fosse um desses aquele de que mais precisavas. E talvez nunca o venha a saber.

Para tal, viro este espelho ao contrário, e o entrar nele torna-se sair. E não há um trilho atrás dele. Viveria para sempre contigo. Mas é a memória de ti que nele vive, não tu. Ainda mais apreço tenho por ti, rendido à realidade, do que pelo fantasma que te representa. Porque tu existes, o passado não. É o passado que me ama, é o passado em quem eu posso segurar contra mim.

Mas por ti, devo sair. Ir embora.

Saio do espelho.

Saio da cascata.

E a gravidade rapta-me para as profundezas do precipício.

E nem na morte vigilante o consigo aceitar.

Volta, olha para trás.


"Agarra-me se me vires a tempo..."

segunda-feira, 10 de junho de 2013

"Why did I laugh tonight? No voice will tell:
No God, no Demon of severe response,
Deigns to reply from Heaven or from Hell.
Then to my human heart I turn at once.
Heart! Thou and I are here, sad and alone;
I say, why did I laugh? O mortal pain!
O Darkness! Darkness! ever must I moan,
To question Heaven and Hell and Heart in vain.
Why did I laugh? I know this Being's lease,
My fancy to its utmost blisses spreads;
Yet would I on this very midnight cease,
And the world's gaudy ensigns see in shreds;
Verse, Fame, and Beauty are intense indeed,
But Death intenser -Death is Life's high meed."

sábado, 8 de junho de 2013

Hoje o Sol nasce negro.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

É um espelho revoltante, carinhoso, ébrio, bastardo, saudasoso, escuro, iluminador. As memórias que traz, a maioria desfocadas. Tinha em si fechado o peso do tempo estático, impassível à mudança que não a sua própria. Há uma vontade gigante de o atravessar, e a meio do salto, é o melhor que pode acontecer. Por isso a cascata parecia tão reluzente; encorpava nela um espelho que reflectia a luz que escapa dos picos da montanha, se dispersa nas nuvens, e atravessava a água passada. Mas, vendo a mesma cascata de dentro, apercebo-me do que provavelmente era óbvio aos olhos externos. Estava preparado para imenso, mas não para ver o mundo a cair comigo. Para sempre, sem um embate, sem uma morte, mas uma queda permanente de retirar o fôlego, roubá-lo para sempre. Mas é uma suposição. Pressinto a queda, e pressinto antes dela a anestesia que me vai proteger.

Ainda mal entrei nesta cascata de Pandora, mas reconheço-lhe tão bem os cantos... E ainda assim, é como se visse fantasmas à minha frente, comigo não existente, rever a palavra e a acção, rever a certeza e o erro, a raiva e o arrependimento. Mas, acima de tudo, vejo parte da referida anestesia: o êxtase, a loucura desmedida, o voar contra paredes e continuar, qual ave desorientada, cega. Inebriado pela tua presença distante.

Palmo a palmo, o meu corpo penetra no espelho. A água invade os pulmões, e respiro-te como um dia te respirei sem o saber tão bem, como um dia me respiraste. Todos os meus frascos de memórias me escapam das vestes, e são levados para o fundo, enquanto eu, surpreendentemente, me mantenho à mesma altura. Talvez seja já a anestesia, talvez esteja eu a caminhar para a morte sem me aperceber, talvez a tortura tenha despoletado em mim a droga interna que nos protege da dor quando nos amputam uma parte de nós mesmos. Talvez não. Talvez compreenda mesmo o futuro que o futuro me guardou. Mil mãos no meu corpo, mil mãos no meu pescoço, mil olhos me observam, mil ouvidos escutam o meu silêncio. Mil de ti me rodeiam.

...

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Fosse eu capaz de descrever o resto da história...

terça-feira, 4 de junho de 2013

E no teu caminho pelo trilho na montanha atravessa-se de repente uma fenda, extremamente funda, e do outro lado o trilho passa por trás de uma cascata, cuja fonte não imaginas pois o seu topo está tapado pelas nuvens. Mas consegues saltar para dentro da cascata, e continuar o teu caminho molhado - isto é, se o trilho realmente continua do outro lado, se não fores atirado para o fundo pelo peso da cascata, se aguentares cada memória trazida por ela.

Foi este o caminho que pediste, contudo. Algo que te testasse, e que te pudesse banhar um pouco na sensação de uma existência priveligiada. Dás uns passos atrás, e receias. E depois de uns passos de novo à frente saltas, e tudo em ti se apercebe do que acabas de fazer. Entregaste toda a tua vida, estás suspenso no espaço, no tempo, e quando essa suspensão acabar o próprio tempo em ti será decidido, talvez derradeiramente.

Estás pronto para mergulhar a cara no espelho de Pandora?

domingo, 2 de junho de 2013


E todas as almas inconsoláveis parecem despejar sobre mim o peso douradamente macabro: "o teu nome foi a última palavra que ele proferiu". Não consigo, por nada, por tudo, se não apenas por ele, aguentar essa sentença.

Nada fiz para que esse lobo me tivesse como último nome. Mas deverei aguentar para todos os peões deste intrigado tabuleiro de xadrez poderem descansar.

Lobo do mar, conseguiste ir embora e deixar-me algo. As saudades da tua presença, tão desvalorizada por mim mesmo, serão gigantemente esclarecedoras.

Digo adeus, mas não o consigo sentir.

E nada poderei fazer para que voltes. Nenhuma daquelas lágrimas, nenhum daqueles lamentos te pode fazer voltar. Aquelas rezas revelam que te querem num mundo melhor, e o meu objectivismo fere-me como nunca antes. Rezas nas quais não consegui participar, rezas nas quais não acreditei. Escrevo na segunda pessoa para ti, que nunca irás poder ler. Quáo inconsequentes podem ser as palavras? Coitados dos vivos. Não de mim, que mal possuo sentimentos. Mas as lágrimas que escorrem dos outros ferem-me tanto quanto as minhas próprias, nunca largadas mas presentes.


Não faço ideia do que quero dizer.

Reconheceste-me, velho lobo. A cada passo olharei para ti, para a tua filha, e para aquele que para sempre amou a tua filha. E é esse o meu legado, o amor pela família que possibilitaste.

Avô, lobo do mar, que presenciaste Auroras Borealis, que presenciaste a guerra, que presenciaste a ditadura. Para sempre, estarás aqui. No local menos óbvio e menos declarado, mas também aqui estarás.

sábado, 1 de junho de 2013

It all fades to black

Deitado, ofegante, de sangue na boca, esquelético, braços negros, ligados, fracos, trémulos. Tiveste uma vida forte. E no meio do teu silêncio agonizado, disseste o meu nome, apesar do tempo desde a última vez. Apesar da distância constante, prestes a ser uma distância permanente. As lágrimas rolam, embrulhando memórias nas faces da tua prole. Segurei-te na mão, e apertaste. E reconheceste-me, de olhos fechados, em dor.

Não estou preparado. Mas ninguém espera pela preparação dos outros.

Aguenta-te, que os teus últimos sonos induzidos pelos químicos sejam preenchidos de sonhos, revive todos os teus bons tempos.

Ver-te-ei de novo antes de atravessares o derradeiro rio? Bem o espero.

(E antes que eu pudesse sequer publicar os meus pensamentos, foste. Adeus, lobo do mar.)

Parecem faróis suspensos. Falamos de olhar para o passado, mas olhar o céu com atenção é um descortinar da história do Universo em milhares de milhões dos nossos próprios anos. Somos a nossa própria unidade de medida de tempo. Pequenos pontos de luz e outras radiações permitem-nos deduzir mais do que pensámos os deuses pensarem. Somos nós agora os deuses, estudamos o passado, conhecemos o presente, adivinhamos o futuro. Mas em tudo isso esquecemo-nos de nós próprios, pois seria impossível adivinhar o nosso próprio percurso, deuses-formigas, numa selva em que cada árvore e cada arbusto são separados pela imensidão do nada.

E olhamos o céu nocturno, para as bolas de fogo cuja luz demorou tanto a chegar-nos aos olhos. E olhamos o céu nocturno, e vemos químicos em reacções nucleares a produzirem o pó do qual nós mesmos fomos formados. E olhamos o céu nocturno, e não mais achamos ver magia e intenção. Mas o mistério, esse, nunca desaparecerá.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Seta do Tempo

A percepção do infinito,
um mito.
O tempo é tão opaco, a visão
não ultrapassa, apenas
um véu de desgraça.
Num futuro? Não acredito.
Mas lanças uma moeda.
Qual a face, qual o ganho,
qual a perda?
Seja esse o teu espanto,
quando a moeda cai a um canto,
mas não declara a sua queda.
Equilibra no meio,
como os teus sonhos,
desilusão.
Um jogo perdido,
mas não um jogo vão.
Como as faces da moeda
(sem queda, sem queda!)
a tua alma não enxerga,
não há cara, não há coroa,
que te ajude na visão.

Mas uma vidente aparece

para atender a tua prece, e te diz:
"Jovem acrobata do tempo,
tens de libertar o teu pensamento,
hás-de ser meu aprendiz.
Queres ver o amanhã,
mas apenas porque lhe tens medo.
Não tens confiança no tempo,
traiçoeiro, p'ra teu lamento,
e a esperança, uma má actriz.
Mas feliz de ignorante!
Levarás a tua avante
se considerares ser navegante,
saberás a tua fortuna,
numa runa no naufrágio."
"Mas terra firme pisarei
independentemente do sufrágio.
O destino não é eleito,
mas pensado, moldado, feito,
resultante no imprevisto.
Talvez seja melhor
nunca ver o amanhã
se não amanhã mesmo."

E a moeda afinal cai,
mas não há cara, não há coroa.
As faces por preencher,
desenhar o futuro, escolher,
e nos ecos do tempo
a tua escolha
ressoa.

Nada será esquecido.
Mas recordamos o passado,
não o futuro.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Que sorvas de cada palavra toda a lealdade. Que de cada gota de inspiração que delas pingue vejas o reflexo da musa que as inspirou.
"Nothing's ever for sure, John. It's the only sure thing I know."

domingo, 26 de maio de 2013

Por tão irrelevante que cada palavra seja.

Five Finger Death Grasp

O tempo abranda ao som dos passos dela. Vê-la a chegar, os momentos demoram cada vez mais a passar, eternas eternidades à medida que a distância diminui. Ela olha-te como olha tudo em volta, está apenas a reconhecer o ambiente. E tu finges, praticamente todas as vezes finges que não reparaste na sua chegada, esperando que ela se aproxime de ti em detrimento de tudo o resto. Esperas sentado, não querendo afastar a criatura com o susto ou a impaciência. Tudo demora. Pois sabes que tudo depende dela, e que apenas sem ela o tempo é mestre. Voltas à tua posição, de costas, obviamente mentindo o teu aspecto de despercebido. É preciso um pouco de arte, no teu caso, pois ocupa-te o cérebro por completo, e tens de lutar por um pouco de espaço e dedicação para manteres em cena o acto de irrelevância ignoradora do que te rodeia.

Enquanto o tempo fica mais lento, tens que forçar um pensamento mais rápido para acompanhar aqueles que esperam de ti uma resposta, uma pergunta, uma fala, um olhar - para que ninguém se aperceba do fantasma que te invade. Olhas de novo, tentando parecer desinteressado - mas ela ainda avalia o seu ambiente. Demora tanto, tanto, quando chegará ela ao teu lado? Será que já reparou na tua presença? Será que deu alguma importância? Será que viu um outro interesse prioritário? Não, não penses tanto: ela acabará por se aproximar. E olhas de novo as tuas companhias, como se nada tivesses visto e apenas um barulho te tivesse chamado a atenção - e as companhias continuam inadvertidas da tua mudança repentina de estado.

Não, tira a cabeça desse poço; não te levantarás, vais resistir, nada mais vais fazer para além desse sobrepensamento sobre a entrada de alguém na tua esfera. Os teus instintos dispararam mas tens que controlá-los, enquanto o pelo na tua nuca se arrepia debaixo da farta cabeleira que esconde o teu pensamento. Repetes os movimentos anteriores aos que executaste antes da sua chegada, pois são os únicos que te lembras durante esses intermináveis instantes. E passas despercebido, quieto no teu lugar.

Mas o canto do olho começa a ver a sua luz, e sabes que está praticamente atrás de ti. Não escapas agora, doente servo. Olhas, ainda a tentar transmitir que de nada sabes, e os teus olhos passam por ela. A sua mão está levantada, vem de encontro ao teu pescoço, enquanto continua a caminhar sem te olhar; haver-te-á visto, sem nunca o seu olhar se ter cruzado com o teu. O teu coração aquece-se e o gelo derrete enquanto levantas a tua mão. Pegas no seu pulso suave, leve, e conduze-lo na tua direcção, o antebraço por cima do ombro, e enquanto os teus lábios tocam a sua pele, a tua mão desliza para os dedos, e agarra-os. Enternecido pela seda branca, sentes-te renascido, pronto para enfrentar o universo, para mudá-lo e protegê-lo como necessário, metade como um amante, metade paternalista, sempre guerreiro.

Mas o seu pulso roda um pouco, os seus dedos esticam, enquanto já sentes os seus olhos na tua direcção apesar de fora da tua visão. E de novo os dedos perfeitos se fecham levemente, agarrando por um único momento nos teus. Agarram-te, sugam toda a tua alma e lembras-te de quão pequeno ficas ao saber que te olha mas nada te diz. E quando a última gota de ti é consumida e esse momento não se prolonga mais, a pele dela afasta-se, e com ela, a tua sensação de poder. Tornas-te consciente de que mais uma vez agarraste a morte pelo pulso, pela palma, pelos dedos. Tornas-te consciente do que é ser agarrado pela morte.

E és de volta entregue ao forçoso fingimento: nada disto pode ser observado no teu exterior. Mas com uma supervisora assim a tarefa torna-se fácil. Obrigas os neurónios a dedicarem um pouco de tempo a controlar os músculos da face e da língua, e proferes algo tão estúpido e irrelevante como um "olá", alguma expressão contemporânea como "e quê?", tentando não mostrar todo esse mundo que passa por ti aquando da sua chegada. Afinal, foram apenas uns segundos, os quais resististe heroicamente a ti mesmo. Resististe a algo inexplicável que ela te dá, e resististe por ela que to dá. E ela olha-te, sem importância. As lâminas rodam no teu corpo. Tudo por uns meros segundos. Mas sentiste a morte, resististe-lhe, rendeste-te, e ainda assim estás vivo. E estás em frente a ela por outros momentos, esses sim, demasiadamente rápidos momentos.