"Nem um poema, nem um verso, nem um canto,
Tudo raso de ausência, tudo liso de espanto."
Ary dos Santos
Ary dos Santos
Uma noite comum também para os meus olhos, que vêem a tinta do que não escreveram a escorrer, borrada pelas macabras gotas que caem do céu. Aí sim, as intenções se tornam palavras: molho a pena na chuva negra, firo a minha língua, e com a boca e a pena em sangue, transmito as palavras que me iam nas veias mas que a língua não queria soltar.
E dançam, e dançam, e cantam, magos e bruxas à volta do caldeirão, sob a Lua, de vestes negras seguras nos esqueléticos corpos por cordas de ervas enfeitiçadas! Como riem, macabros, enquanto proferem imperceptíveis parábolas! Fumos verdes escapam do negrume do caldeirão, apenas para pairarem até serem capturados pelas narinas de um deles, enrubescendo-lhes os olhos, tornando mais roucos os seus cânticos e mais obscuros os seus risos.