A trindade de sangue, corpo e alma reúne-se finalmente na destruição de Tunguska, onde o cenário é de violenta revolução, milhões de árvores arrancadas do solo e de novo lá deixadas. Diz-se que o shaman chamou o toque do deus do fogo, e que seu espírito era demasiado grandioso para que qualquer um o visse. Nada que olhos de comuns mortais pudessem experimentar, sentímos apenas a raiva de tal vida energética. Uma explosão mortífera longe de tudo e todos, onde o feiticeiro tocara com seu dedo no dedo da chama sobrenatural, onde o encontro entre os dois mundos não pudera ser compreendido, aniquilando então o tudo e o nada.
Hoje o shaman queima o incenso, a medicina que me irá limpar o sangue e a alma que foge sobre mim carregando o tempo vivido por este corpo na Terra. Este espírito que me guardava, olhando sempre por cima do meu ombro, infectando o meu animal com alegria, dúvida, paz, solidão! Este espírito que me guardava estava doente e longe do corpo, parecendo nunca mais voltar, em direcção ao Sol. E a cada fôlego da cura sou engolido pelo verdadeiro mundo, o dos que não querem que os vejamos. Os que vivem escondidos observando-nos. Aqueles que apenas os sacerdotes da vida podem com sagrados sentidos e fórmulas ver. E agora eu, incompreensivelmente priveligiado...
Do Ocidente maléfico surgem druidas, trazendo suas ervas e foices, fabricando elixires da vida. No misterioso Oriente, o monstro de água Baikal enche-se de todas as peças humanas que fazem parte das minhas memórias, boiando inertes em sangue, de olhos semi-cerrados. Do Norte nada surge senão um vento indomável, em gélidos rodopios ascendentes, qual roda-da-morte toda poderosa. E do Sul, do selvagem Sul, vem o fogo da rebelião que permite aos mais corajosos heróis e ladrões perderem as suas pegadas na grande caminhada, sendo sempre livres de escolher o próximo passo. Num momento tive a beleza do além no brilho dos meus olhos - no momento a seguir tudo voltou para trás.
Enquanto o guru canta, as ervas dos druidas envolvem o meu corpo presente no olho da tempestade, o sangue do Baikal preenche o vento, subindo às nuvens e chovendo de novo na terra! As árvores levantam-se, os semi-mortos afundam, e neste cenário caótico tudo pára de novo - o fogo do Sul sobe também às nuvens e queima os céus vermelhos! No centro do tornado as garras de outros infernos saem da terra revolvida, e como que disformes se esticam às casas dos deuses, agarrando a alma perdida que a meio caminho já ia do Sol! Ao mesmo tempo esta massa orgânica, também inerte, eleva-se nos braços transparentes de tal supra-ser que nos decide juntar: enquanto as colossais mãos me trazem a alma, o sangue em chamas cobre-me o corpo, sangue que descubro então ser meu, voltando às minhas artérias e veias! O fogo presente chega-me ao coração no momento em que este bate pela primeira vez renascido, no mesmo momento em que tudo brilha e a doença explode, na vontade de rebelião, enquanto tudo descia de novo à Terra Mãe! Tudo arde, nada vive, apenas eu.
E acordo no epicentro da solidão, renascido, num novo corpo ainda negro das cinzas, onde cada batimento cardíaco parece o pulsar do ácido mais corrosivo. Mas levanto-me, observando de novo os troncos caídos, agora apontando para mim. Talvez este seja o local da purificação. As plantas jazem aqui como que mostrando que quem se levanta é o animal, na sua curta mas intensa vida. O Baikal intensifica isso quando um lava as cinzas e as feridas, pela sua imensidão, pela sua fauna e flora, pela sua beleza. Um colosso líquido que arrefece o sangue e recompensa de novo a paz num ser endurecido.
Procura o shaman, pede-lhe ajuda. Pede-lhe vida.
