quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Nigredo


Num momento uma dor aguda percorre-me de fora para dentro, concentrando-se no coração e explodindo gloriosamente, levando-me a berrar como um louco e ouvindo os coros que só ouço na Lua! O sangue inflama nas artérias e consome a carne com labaredas negras que ao tocarem infectam e fazem apodrecer o mais puro dos frutos! A decomposição instantânea do corpo espreme o que resta de mim em espírito pelos poros da pele, mas obriga-me a continuar a sentir a dor de um cadáver semi existente!

Passado este instante de desespero físico, dou por mim a mergulhar na minha própria sombra, e como se não passasse de uma pedra na calçada, vejo tudo o que se encontra entre a imensidão dos céus e a podridão das solas intocadas das pessoas mais citadinas. Sucumbido a uma dormência pesada e um ardor torturante, confirmo que me desliguei do corpo - e como se tivessem passado anos, sinto as memórias de há longínquos instantes a voltarem, contando-me uma história sem nexo: corvos voam em todas as direcções uns escassos metros acima do meu cabelo, largando um mar flutuante de penas negras. Um dirige-se a mim e pousa no meu ombro, e enquanto formas e símbolos simples reluzem platinados à minha volta, vejo-me a postrar de dor e a cair morto num único momento fluído - eu e o corvo.

Vejo o mundo contorcido e por uma janela metafísica, de cores e formas misturadas, de caras em constante desfiguração. A luz vai diminuindo e por fim encontro-me a sós comigo, mas nem a mim me vejo. O desespero da situação inexplicável levar-me-ia para a desistência, aceitação - mas sinto a dor e as labaredas, apesar de já não ter corpo. Se penso, ainda não morri. Então não ficarei aqui - caminharei para a porta branca que se faz ver no nigredo, esperando encontrar lá uma qualquer verdade que me retire a mim mesmo para me levar ao meu corpo.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Eclipse

A Lua vagueia na escuridão sem que ninguém tente perceber o que ela faz lá. As pessoas vivem lá em baixo, nunca voaram, nunca caíram, e agarram-se à realidade - a Lua está aqui por acaso, assim como tu, com ela debaixo dos teus pés, fugidia, vadia, mas precisa. Desaparece de dia, e os sonhos dos bonecos caem, esquecidos, trocados por uma realidade vã. E não vêem que a nossa Lua também não está a olhar de volta para eles, mas sim para as estrelas, a dançar sempre de costas para as faces deslumbradas de uma espécie hipnotizada pelo brilho do Sol. Enfeitiçados e enfeitados por vícios e hábitos, também eles vagueiam por aí, sempre o mesmo percurso - mas este astro não tem a órbita típica das pessoas, por mais que ronde a Terra chega sempre um pouco mais longe de quem não deseja, e sempre um pouco mais perto do Sol!

Repara. Sem sombras. Sobre a tua cabeça a luz brilha e tu não te deixas cegar! E debaixo dessa escuridão vês um planeta cheio de cães, ovelhas e porcos tornarem-se de novo em vultos cheios de cor pasmados desta vez com a sombra dos próprios sonhos! E os espíritos saem dos corpos e voam livres, e vêm acompanhar os coros com a arte da orquestra que toca sob o Eclipse! A visão volta a todos quando a luz se reduz a um anel misterioso e cessa de cegar, e todos caem felizes de joelhos ao ver - toda a Lua é negra!

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O Lado Negro

E como se a gravidade desaparecesse, flutuas na imensidão negra, vendo o fundo branco em que te esperas segurar. É a Lua. Relaxa, estás a sonhar. Olhas à tua volta e reparas na jóia azul envolta em nuvens a desaparecer no horizonte lunar... Escapa-te entre os dedos o rasto dos humanos, enquanto estás tão perto do paraíso que ouves coros. Quando vives, perdes todos os cantos onde antes descansavas, e agora vens para aqui, onde o silêncio não passa de um mito e toda a gente canta na tua cabeça, um colossal grito que descreve absolutamente tudo o que apenas tu poderias descrever - um grito de loucos inocentes, lunáticos verdadeiros próprios apenas do teu cérebro. A tua longa caminhada pairada acaba contigo a contemplar os últimos momentos em que o mundo é algo na tua nova casa, era isto que procuravas.

Bem vindo à morte da morte, ao nascimento da alma, ao metafísico.
O pôr da Terra, o pôr da Humanidade. Bem vindo ao lado negro da Lua.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Insónia

 A insónia impele-me a escrever de novo neste antro de ilusões alusentes à desilusão que tenho no mundo. E o descontentamento, a par com a vã esperança, até a própria tristeza dá a mão à felicidade e me faz voltar aqui - tudo isto comandado ainda pela inspiração de alguém que defende a criação de valores. Tudo isso me comanda a que vos venha falar hoje noutro tom e noutras palavras.

 Mas não é da criação de valores ou da tristeza ou da esperança que quero falar. Nem sei bem o que sairá daqui, mas pouco importa, mais umas linhas de verborreia às quais no fim e apenas no fim darei um título.

 Os meus pensamentos mudaram, sobre as mesmas bases, mas com colunas que suportam objectivos mais altos. Em primeiro, sinto-me à vontade em dizer que onde antes via igualdade, hoje afirmo que vejo apenas igualdade de direitos. As pessoas não são iguais. São poucas as que aspiram a algo mais que uma profissão, uma vida, uma família, um bem-estar seguro. E os que de coração sabem ser bons e justos não o são por mais que a auto-satisfação. Não o censuro, apenas retirei de um autor o seu íntimo quanto a tal pensamento: porquê ficar tão baixo? Não é por o mar descer incansavelmente na sua profundidade que nos devemos conservar à superfície. É certo que ilhas são montanhas que souberam sair de tais profundezas; mas e as montanhas que tiveram a sorte de nascer num continente? Porque não escalá-las, elevarmo-nos ao longo não da nossa vida mas ao longo dos tempos, como espécie inteligente, como animal único possuidor de um instrumento chamado mente?

 Talvez afinal fale um pouco de criar: a alegria que talvez imaturamente vejo na paternidade é criar um filho que nos ultrapasse. Mas para tal temos que nos ultrapassar a nós próprios, apenas dessa forma poderemos entender porque sermos ultrapassados não é mau, mas útil e construtivo. E ainda para nos ultrapassarmos devemos esquecer (não de todo) o nosso passado, destruir o nosso presente, e não mais que sonhar um sonho mutável quanto ao futuro. Apenas dessa forma conseguiremos aspirar a entender o que e quem somos, qual o nosso verdadeiro poder, qual a nossa grande virtude, e sim, quais os nossos verdadeiros valores.

 Mas não é algo que aconteça por acontecer, a não ser a uma mão cheia de espíritos afortunados que duvidaram da luz que lhes dão quando esta os cega. Exige vontade - que todos temos. Exige força - que todos temos. Exige coragem - que é preciso descobrir em primeiro lugar para que possamos descobrir as outras duas. Enfrentar o medo, pensar o êxtase, e nada deixar que seja julgado à sombra destas duas reacções para que o nosso corpo tende. Afinal, a mente pode ser um instrumento do corpo; mas o que é a mente senão a conquista do nosso corpo sobre si próprio? Não devemos desprezar nenhum dos dois, pois sem um, o outro não é nada.

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 Talvez alguns dos poucos que poderão ler isto reconhecerão a personalidade que me influencia maioritariamente de momento. Mas tanto a esses como aos outros tenho algo a dizer. Não que necessite da vossa aprovação para me sentir bem quanto às idéias que profiro. Mas vos asseguro que por mais inspiração que as palavras possam ter no pouco trabalho que conheço de Nietzsche, o que elas dizem ja antes residida em mim. E com isto não quero dizer que o sigo ou idolatro. Vejo-o acima de mim, mas com tantos defeitos quanto qualidades que também não vejo em mim. E muito do que penso ainda não o sei expressar da forma que mais quero. Mas tenho a agradecer-lhe a inspiração e a facilidade que me deu ao escrever estes parágrafos. Apesar de tudo nenhum título mais certo encontrei que o que vêem.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

O cálice da vida

Levanta-te de novo, anjo da unidade e perfeição, levanta-te de novo e torna o mundo perfeito. Levas todas as células ao suicídio, os corpos em que tocas liquefazem-se. Enchem esse teu cálice de uma nova ascensão, alimentada pelo pecado humano da existência, catalizado pela desistência das pessoas nas pessoas, como pessoas. Ergue-te da terra e recolhe o ovo humano, sente a ira entrar em ti enquanto nos comes, sente o teu interior a explodir, e a tua pele a resistir: o teu corpo, nossa casa, um novo universo de sangue para que as guerras sejam travadas mentalmente e a morte seja uma única, a da humanidade a lutar contra si própria.

Morre, mundo. Que raça é esta que corrói tanto o espírito como o corpo, usando água benta para afogar, liberdade para prender, verdades para enganar, e riqueza para empobrecer? Hoje capitalizas o valor humano. Não matas menos que eu só por não seres tu quem tem a faca. Se deixas morrer, declaras a tua vontade perante o mundo - o problema não é teu. Tu também não és problema do mundo, por isso matar-te-ei aqui, e ninguém te virá ajudar. Desta forma o mundo será sangrado, virando costas a hipocrisias.

Este anjo será a nossa salvação, o fim dos nossos pecados, o regresso à terra e às plantas. Somos o nosso próprio deus, nós próprios comandamos o destino da humanidade, e quem vive controla a forma como morrem todos os que morrem injustamente. Somos omnipotentes. Mas teremos que tirar a pele aos omniscientes para que possamos ver o que vai dentro deles, os conhecimentos que não partilham, a comida que recusam aos esfomeados, o abrigo que recusam a quem dorme ao relento, a vida que recusam a quem está a morrer. A ti, intlectual: os trocos que te caem dos bolsos representam as famílias que matas com a tua preguiça e apatia.

E a humanidade decide o seu destino. Se o tempo mostrar que o rumo é constante, a morte será épica, afogados nos oceanos, fulminados por relâmpagos, esmagados pela nossa própria ignorância, enquanto o sangue sobe às gotas enchendo o cálice da vida com o sabor da nossa morte, e sendo bebido pela representação abstracta da nossa própria decisão de morrer. Um monumento mental, que morrerá connosco, servindo apenas para nos reconfortar no caminho até às portas do inferno, dando-nos a ilusão de sermos grandes. Se fossemos grandes não morreríamos. Se fossemos grandes não mataríamos. Se fossemos grandes ninguém imaginaria um anjo bebendo o sangue da humanidade para representar os erros ridiculamente grandes do excesso de poder, do dogmatismo, das religiões - em suma do egoísmo, do egocentrismo, do medo e da apatia. Dos meus erros, e dos teus. O cálice da vida cairá, sem ninguém que se importe o suficiente para o apanhar. E assim a terra será tingida de sangue, de morte.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Não há equilíbrio sem extremos

É humilhante olhar para trás e ver meses inteiros perdidos em lutas vãs, das quais não retiras experiência, apesar de ser a experiência de tal perda que te retira de ti e deita-te abaixo. Mas lá vais acordando, aos poucos, pensando sempre "é desta", não reparando que o pensamento não sai da cabeça. Mesmo que já sinceramente o queiras expelir do teu dia a dia, ele está presente em todos os momentos, quer queiras quer não. Consequência de depois de um extremo tentar chegar ao ponto de equilíbrio, sem antes o contrabalançar com o outro extremo. Ficamos num meio do meio, num meio morto de sono e apatia. E sabes que quando realmente estiveres livre desse fardo, nem te vais aperceber. Mesmo que de coração estejas, as ondas chocam no cérebro, até que este pare de controlar e deixe ir.

sábado, 20 de junho de 2009

Aqui Não Diz Nada

Sem mais planícies místicas, árvores sapientes, corvos nos ombros, nem ninguém que vista as teias de aranha. Quando pousas a pena e olhas em volta, a luz reflecte no asfalto e até este te parece branco. As palavras deixadas fazem o mesmo, reflectem no papel as figuras que um cérebro ofuscado tem dificuldade em decifrar. O branco do papel não deixa ver as figuras rudemente rabiscadas por trás de cada palavra.

É assim que olhas em volta e em dolorosos mas breves momentos acordas, vendo os prédios e as pessoas, vendo um céu completamente normal, nuvens cinzentas ou sol escaldante. Vês que a chuva não é negra, que é na verdade transparente. Ainda estranho um pouco, mas hei-de me conformar de que as megalomanias que descrevo não passam de sonhos conscientes frustrados. Como ao nosso amigo Álvaro, "até os meus exércitos sonhados sofreram derrota".

Acordas, com agulhas luminosas picando-te os olhos, beliscando-te os neurónios desafiando-te à sobriedade do dia, aliciando-te a andar na bebedeira de covardia comum à raça humana. Odiando por não poder mudar, cobiçando por não poder conquistar, roubando por não poder pedir, pedindo por não poder recuar. Vês estes olhares na rua, cada vez menos introspectivos e mais explosivos. Mais deprimidos na pele, destruidos por dentro vestindo a apatia de um sorriso maquilhado por álcool e drogas. Conformando-se com a derradeira solução, a atenção emigra para os outros, e a sua aplicação torna-se um tanto o quanto aleatória, sem interesse na hipocrisia, nem na queixa fundamentada de gestos frustrados. Os trauseuntes agradecem e aproveitam, transcendendo-lhes de vez em quando a simplicidade de um movimento mais próximo do que eles próprios imaginam. Outros fecham-se, retirando por completo todas as vantagens dessas bocas e ouvidos, esmagando-lhes um pouco o ego, arrastando-os para onde eles sabem ser as portas do Inferno por uma noite. E aí o fogo ofusca, a arrogância sobe pela defesa, e somos incapazes de ver quem lá dentro arde apenas para não nos queimarmos.

Parecemos burros de carga, carregamos merda no interior dos nossos crânios, não reconhecemos o valor das atitudes uns dos outros, impingimo-nos ódio a nós mesmos quando estamos um pouco mais cansados, e não resistimos aos comodismos do orgulho. Cada um no seu canto, alguns cantos coincidem, outros existem apenas no vazio de mais um comum olhar de desilusão. Egos esmagados por egos, alter-egos que ridiculamente vêm à tona e se tentam impingir como uma medida de defesa contra aqueles que não nos consideram mais que ninguém. A necessidade de aprovação pelos mais próximos e nunca pelos outros revela-se útil, e afastarmo-nos das pessoas erradas ainda mais. É bem mais confortável viver num mundo que não existe apenas para sonharmos que somos maiores. Uns fazem esse mundo na sua voz, outros na sua pena, e muitos mais. Todos eles acompanhados por uma pequena orquestra de sopros cerebrais. E quando no meio dessa criatividade se encontram, o conforto sobe.

Vou em meia garrafa de rum de neurónios e a pena já treme. Ainda bem que não passa de uma nota mental apontada num espaço abstractamente físico, usando a matemática para o representar e o deixar pousado naquilo que funciona como uma mesa de café.

Um velho senta-se, bebe a sua meia de leite e lê. Resmunga.
"Aqui não diz nada."

sábado, 6 de junho de 2009

O Uivo das Aranhas

Entro numa floresta tropical da quinta dimensão cada vez que me vens ao pensamento. A chuva cai naturalmente, pesada e negra, escorrendo de cada folha, memórias que me ocorrem sem como nem porquê. Sinto a saudade a mordiscar pedaços de mim, como se me comesse às migalhas. Do simpático chilrear destas águias parece que saem palavras duras e mortíferas, como as tuas. Atraentes, melodiosas, fatais.

O intenso cheiro a pele molhada pela chuva e as belas carcaças andantes movidas por uma alma animal... Lembram-me os teus passos lentos, calmos, a tua classe inocentemente sensual. Uma pantera passa com um cigarro na boca, e és tu. A arma letal que ronronava nas minhas pernas, pedindo por atenção. Quando não a conseguias ronronando, vinhas nesses passos leves com os dentes prontos a tirar-me a vida atacando-me no pescoço. E que saída tinha eu se não render-me ao poder de dar e tirar vidas? E rendia-me com orgulho.

As teias de aranha estendem-se pelas árvores, e as gotas de chuva nelas presas reflectem a lua. Teias das quais as nossas roupas foram tecidas ao longo do tempo. E tudo deixo à guarda dessa longa teia que te veste. E as aranhas que me povoam, em coro uivam uma serenata à lua, interrompendo em todo o lado o ruído das gotas que caem. A floresta pára para ouvir o som da tua chegada, e espera em silêncio sob a chuva a oportunidade de te cheirar de novo. Mas limitas-te a ver a água a escorrer na tua janela, vendo do outro lado do vidro a floresta onde sonhas viver mas tens medo. E de vez em quando, em silêncio, ficas a noite inteira a apreciar o uivar destas aranhas por entre a chuva.

Numa floresta em que as aranhas uivam, as panteras fumam, e as águias cantam belas melodias, tu existes, e usas as teias das nossas palavras encostadas à tua pele. Nunca comigo, mas sempre em ti. Afinal, nem sequer existes. És apenas a alucinação que vai e volta à cabeça de um esquizofrénico, o escape para um céptico de vez em quando acreditar que há algo que muda todas as regras da física, toda a lógica que rege o dia a dia. Mas nada mais que um desejo tão forte que leva ao delírio.

Um dia, se decidires passear por entre esta floresta, traz o vestido das teias que foram tecidas, arrasta-o pela chuva e pela lama. Verás que não rasga nem suja.

terça-feira, 2 de junho de 2009

O Fim

Hoje encontro a ingenuidade passada a arder em chamas, no meio das ruínas, reflectindo sua luz vermelha no céu. Criaturas moribundas arrastam-se entre um e outro monte de destroços. As disformidades nas suas cabeças são corcundas mentais, adquiridas muito depois da nascença, fazendo pesar a consciência nesses homens que não são pessoas. Vivem na arrogância de quem não se arrepende dos seus erros conscientes, de joelhos no chão, puxando-se com os braços. Juntos em volta de fogueiras, deixam as suas últimas palavras arder, acabando a transacção bíblica em que vendem a alma uns aos outros, cada um pensando que está a enganar o resto do grupo.

Mas as montanhas levantam-se, os mares sobem aos céus, e a terra revolta-se numa lenta explosão, esmagando todas as fundações, fazendo cair os últimos edifícios que existiam. As florestas cerram-se em volta dos animais, protegendo a fauna na resistência épica da flora.

A terra volta a recuar, abrindo infinitas fendas no chão de onde o magma jorra, cobrindo de vermelho incandescente aquelas montanhas, transformando-as em colossos de pedra e fogo. O mar desce de novo a este paraíso para psicopatas megalómanos. Os gigantes fumegam, sem deixarem nunca de arder, com correntes de lava à sua volta. Acaba de se erguer um exército de natureza consciente, não para combater, mas para matar.

E tudo corre na melhor das formas. Cabeças são esmagadas, desfeitas em merda e sangue, os ossos espalham-se pelo planeta, mas não tão ruidosamente como seria de esperar. O vento passa nos gigantes de pedra, aquecido pela lava, fazendo uma melodia de uma nota só, contínua, grave, solene, e natural como um sopro numa garrafa vazia. É este o som de tudo, o som da natureza. O da nascença, o da vida, o da morte. E o da eternidade. O som continuará nos planetas, haja ou não alguém para o presenciar.

E ao último corcunda ocorre um pensamento, uma memória. Em criança, brincava com uma qualquer garrafa de vidro, soprando e dizendo aos amigos que estava viva - até que um relâmpago lhe fulmina os olhos.

A última memória da Humanidade.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Nada atormenta o Adamastor pois ele não existe.

No fim da luta vem a morte, no fim da morte acaba a esperança, no fim da esperança começa a vida.

sábado, 16 de maio de 2009

Mais uma noite ao frio

E tu, lutavas por algo que não podes ganhar mas podes perder ao lutar?

sábado, 25 de abril de 2009

Repouso

Em naus de guerra chegam os filhos bastardos dos semi-deuses que me parasitam o cérebro. Piratas da sanidade, quando passam tudo escurece, todos tremem de frio sem entenderem o porquê. Ninguém os vê, ninguém os ouve, ninguém os conhece. Mas eu vejo. Mas eu ouço. E sinto. E vêm eles, com os seus hinos nas gargantas, celebrando de uma forma rude mais um dia de pilhagem mental, assombrando cada neurónio que ainda sobrevive aos seus ataques.

Querem-me levar à loucura. Seguem-me, berram-me, violam-me o ego, pagam-me com a apatia e o frio das ruínas onde os seus ídolos foram sepultados. Nesses momentos estou literalmente dentro de mim. Preso no meu corpo, amordaçado, amarrado. O olhar vazio invade o exterior e vejo o fogo a queimar-me os pulmões, desfazendo as cordas vocais e matando-me mais um pouco. No fim, é no desolamento fúnebre que encontro o meu corpo, encostado a uma qualquer parede desfeita, tentando criar para compensar o destruído.

Mas até depois do fim os pais desses piratas me conseguem tocar. Os corvos que em mim pousam lêem estas palavras, enquanto me bicam o cérebro através do crânio aberto. Talvez seja a forma que os semi-deuses encontraram para me espancarem a alma quando não se querem mostrar. Quando a perversão lhes é tão alta que apenas me querem observar prostrado em dor enquanto se acariciam e masturbam.

E chove. Chovem penas, uma por cada vítima da insanidade e da necessidade de revidar um espírito interior, por cada músculo queimado no desespero de sentir alguém a querer sair pelos olhos. E chove, chovem penas negras que confortam todos os corpos carbonizados pela luta contra eles próprios. Chovem penas negras caídas dos corvos, e sinto-me finalmente confortável neste mundo onde apenas eu existo. Abandonado por esses coveiros de almas, de ego violado repouso na cama de vítimas, sobre todas elas descanso. Encontro a redenção no fogo, e com uma beata incendeio esta cama, e com ela desapareço.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

A Vala Lunar

O ponto onde todos morrem, afundados na neve, dando o último sopro em desespero como um uivo não ouvido à lua. É aqui que se vêm todos os corpos, uma vala comum despropositada, o ponto onde esta lua gélida te mata. Cadáveres congelados, ainda parecem vivos, dormentes no gelo... E esses cadáveres irão uivar uma vez mais, com os pulmões cheios de alma, com os corpos cheios de neve, sem cara. Marionetas inacabadas de um deus filho da puta. Por isso a lua reconquistou este reino de almas semi-mortas, exércitos de bonecos articulados cegos. Para aqui a lua tudo atrai, para tudo prender, até à morte inevitável - lembro-me que foi aqui que morri eu também.

Mas é a nossa passagem para fora dos mais profundos calabouços do inferno, onde nada é real menos a dor, onde o tempo é dobrado para a eternidade parecer ainda maior. Foi aqui que nossos corpos ficaram, mas as almas vagueantes são nada mais que aleatoridades à deriva, enquanto sofrem aquilo que o corpo não sente. Mas a lua nos irá libertar. Essa gélida lua congelante conserva nossos corpos enquanto as almas não estão prontas. A lua, nossa líder, nossa mestra, a nós, àqueles que não têm rosto. A nós a lua! A lua!

E sinto o sangue correr, começo a sentir meu corpo, sinto o gelo a estalar. A minha alma regressou. Eu regressei! Os lobos uivam ao longe, pressentindo o poder dos que acordam, mas não fogem. Apenas uivam. E os olhos rebentam na cara, o nariz, os lábios descosendo-se com esforço, enquanto a plenos pulmões apenas berro em silêncio. Não mais marionetas, não mais deformadas criaturas esquecidas, corta os fios que te prendem! Com o sangue da cura ainda escorrendo pela face, noto tudo tão vermelho. A neve. Os lobos. As árvores. Até a noite. A lua. Esta lua gelada, prestes a tornar-se sangrenta.

E todos nós caminhamos, passos longos e fundos na neve, nunca mais amedrontados, nunca mais discriminados. E até quem olha para trás, para o gelo, e vê o seu corpo encurralado na transparência, até quem olha para o passado sabe que esses corpos não passam de espelhos esquecidos. Uma realidade alternativa do seu prórprio ego, uma das suas várias facetas. Pois a hora da evolução chegou, com os nossos rostos roubados à sanidade. Pois hoje temos o controlo do que mais precisamos, nós próprios, e nada tememos enquanto deixamos um rasto de almas mortas nas nossas pegadas.

domingo, 19 de abril de 2009

A Carta

Não penses. Fica em casa. Aquece essa massa orgânica que és no lume da tua lareira, com o copo de vinho numa mão, e esta carta na outra. Sim, fica. Digo o mesmo ao meu cão. Fica!

Já pensaste na inércia que és? Não é por seres essa inutilidade, não é por seres vão e oco que não queimas tanto oxigénio como os outros. Se partilhas do mesmo ar, porque não partilhas dos mesmos espíritos? Depende da vontade que temos de receber cada um, a nossa capacidade de dizer sim a algo que não estava planeado - a nossa espontaneidade - a nossa vida interior. E o auto-respeito? Afinal, isto é só um punhado de palavras que notas quererem entrar no teu crânio, instalar a dúvida, instaurar o caos, levando a certas respostas das quais temos medo. Será que estes "tus" são dirigidos a ti? Obviamente isso cabe-te a ti decidir.

Quanto a mim, apetecia-me falar contigo, e assim o faço. Uma carta, um pequeno manifesto em forma de carta. Mas tanto manifesto a agressividade que sinto pelas tuas atitudes incompreensivelmente inertes como o amor que tenho por ti, que é o que em primeiro lugar me traz aqui. Se tudo o que sentisse fosse o desprezo, obviamente que não gastaria o meu tempo com tais palavras. Por isso digo, odeio-te. Odeio-te pelo que és, ao lado do que podias ser. Odeio-te por amares a mediocridade, por veres lá fora um bicho papão que não passa de uma sombra, a sombra da dúvida. E por favor, se tens medo de uma expressão, a sombra de dúvida, como enfrentas tu essa vida que levas? Pensa nisso, quem tem de gostar de ti és tu.

Mas se te trancas numa gaiola dourada és como o cego que não quer ver. Se tirares as palas dos olhos vais ver que o mundo é muito mais luminoso, e com essa luz consegues distinguir melhor as cores, as formas. Vês muito melhor a podridão daqueles a quem tu começas por chamar ídolos, e líderes das nações, e líderes de revoluções. Mas vês que assim como eles tiveram uma escolha, em que a podridão foi o caminho deles, tu também terás sempre escolhas, aquelas que te definirão como pessoa, ou como simples despojos orgânicos saídos do ânus de Deus. Mas tens de começar por sair de casa, encher os pulmões, iluminares o teu interior. Descobrires que há muito por descobrir. Encontrares aquilo de que estavas à procura nesses séculos de História, tu. Sem olhar a um Deus, a um ídolo, a mais um Óscarzito da Academia - tens apenas de te encontrar a ti. Por mais que nos inspiremos no que nos rodeia, todos temos a nossa veia de autenticidade, e encontrá-la e rasgá-la, espalhar o nosso próprio sangue nas paredes do tempo, é a felicidade e prazer dos que verdadeiramente fizeram isso.

Não te incomodarei com mais. Apenas digo, vai à luta, que esta carta é para ti.

Não me sigas. Inspira um pouco do mesmo oxigénio que nós e acolhe o espírito que mais abraçar os teus alvéolos pulmonares. E queima esta carta nessa lareira, inspira o fumo destas palavras, e faz o que achares melhor - não terás ninguém a olhar-te por cima do ombro.

Luta.

14/04/2009

sábado, 18 de abril de 2009

Na Chuva Negra

Uma noite comum para a minha mente, a rotina da noite-a-noite. O hábito de acender um cigarro no cérebro enquanto os olhos vão descrevendo na folha linhas e traços, dando forma a um poema. Mas sem versos, sem tinta. Sem palavras, sem sons.

Uma noite comum também para os meus olhos, que vêem a tinta do que não escreveram a escorrer, borrada pelas macabras gotas que caem do céu. Aí sim, as intenções se tornam em palavras: molho a pena na chuva negra, firo a minha língua, e com a boca e a pena em sangue, transmito as palavras que me iam nas veias mas que a língua não queria soltar.

Mas são estas gotas negras como o alcatrão que me permitem sonhar, que me cegam os olhos para que eu deixe por uns momentos de ver apenas este mundo, e me provocam com o seu silêncio. Vejo mundos e mundos a olharem para mim, sem uma única palavra, sem um som, sem um movimento. Contemplam o momento, literalmente, seguram-no com suas mentes, contemplam este momento em que há mais uma mente a cruzar-se com as deles, e analisam-me... Como consciências mudas, atacam-me com o olhar! Consigo ver nas suas expressões a crítica, a denúncia, comparando-me ao meu alter-ego. E são esses olhos, todos eles verdes, que fazem a raiva e o ódio subir em mim e esguichar palavras como sangue de um coração.

E assim o faço, verborreio para satisfazer os seres que andam descalços, apenas agasalhados por mantas brancas que lhes cobrem o crânio e as costas, mas não as intimidades. Porque andarão assim? Presumo que queiram ser discretos, não envergonhados. Transparentes e protegidos. Destemidos pois nada têm a temer. Irritantemente perfeitos, estes seres que idolatro e odeio, odiosamente bem feitos e bem pensados. Enquanto que eu, na chuva negra, sou nada mais que um espantalho onde os corvos fazem ninhos!

Mas na inocência e frescura desta mente, o que me falta é consciência da realidade, e por isso como sempre deambulo pela noite, arrastando comigo o peso de um fantasma pendurado em mim, os labios da consciência presos ao meu pescoço tentado-me seduzir apenas para me enganar.

Talvez o peso que sinto sejam apenas as minhas vestes encharcadas em chuva negra.