quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Obsessão Lunar


18/05/2012
Um frasco de memórias, das quais nunca se saberá quais delas foram violadas e violentadas. Mas foram, evidentemente. Um frasco cheio de almas, espíritos, fantasmas, aranhas. Luas e sóis, planetas e cometas. Inexplicável a explosão serena, despercebida, adimensional, essa explosão ainda assim massiva do abrir do mesmo frasco!

Guardei lá mitos e lendas, todas elas verdadeiras! O fogo de demónios e anjos, de fadas e guerreiros! Era grande o fogo que ardia, e crescia em labaredas em todas as direcções. Servia de faról a navios que navegavam os céus, de energia que derretia gelo em água e aquecia a água em vida - mas que da mesma forma cegava, queimava e destruía.

Quando fechaste a tampa prendeste todo um universo num pequeno frasco. E do fogo, que era gigante e imortal, sobrou apenas fumo que cegava doutra forma, acinzentou o vidro, não mais guiava alguém, e que em vez de destruir, era sacudido com a tosse seca que ele mesmo provocava. Era um fumo de cheiro mórbido, tóxico, mortal se não fosse tão fácil de afastar.

De fora apenas se viam nébulas, berços de futuros sóis que nunca o chegaram a ser - às vezes sangue arrastava-se contra as paredes de vidro, desvanecendo-se a seguir no turbilhão contínuo, parado no tempo. E o momento infinitamente longínquo eventualmente chegou, em que as nébulas se diluíram, os sóis morreram, os planetas gelaram. As almas deitaram-se, os espíritos calaram-se, os fantasmas dançaram como nunca haviam dançado. As aranhas? Encheram o frasco de teias, cobriram as luas que antes foram Luas.

Tudo levava a querer que a morte enchera o frasco, que o gelo era eterno. E a escuridão que de lá saía remoeu, escavou, comeu o seu caminho até inundar todo o mundo, enquanto que o frasco se mantinha pequeno e eu não sabia de que lado do vidro me encontrava. Mais que isso, não me encontrava.

Eras passaram até que o fumo desaparecesse, até que faíscas se soltassem do bater de dois seixos rolados no velho turbilhão. Eras passaram até que se respirasse ar fresco no escuro, e que das faíscas e cartas velhas saíssem pequenas chamas, e cartas velhas foram queimadas uma vez e de novo. Mas estas pequenas chamas sempre tardaram a consumir a escuridão. Sabia então que estava fora do frasco, não fosse o papel e a tinta o rascunho dos mitos e lendas que lá dentro tinham morrido.

E tinha o frasco na mão, para sempre fechado, para sempre morto. E tinha a obsessão nas mãos de o abrir, procurar por uma chama escondida, um soldado silenciado, um anjo caído, um sinal de vida. Tinha a obsessão na cabeça, numa eternidade que acabou com o chegar de uma carta nova. Li nela as palavras que poderiam ter aberto o frasco por um momento. O fumo já tinha sido dissipado pelo vento, mas era o fumo que estava cá fora quando a realidade fora trancada no frasco. Continuava cinzento e aterrador. Concerteza tóxico, e concerteza morto.

E a obsessão foi embora. A obsessão fora finalmente embora. Sobrara a dúvida entre a saudade e o orgulho, qual delas a razão para a obsessão? A esperança de reconhecer uma voz antiga, ou o poder de abrir uma fechadura tão resistente e valiosa? Mas a obsessão havia ido embora. Sobraram as memórias, os momentos, as sensações. A recordação da espada e das amarras, da euforia e do desespero, da existência de uma luz com uma cor que não existe cá fora, e de um fumo impossivelmente podre. Tudo isso atravessará eternamente as paredes do frasco.

Até que, contrastando com as falsas eternidades, num ápice o acaso te põe o frasco na mão, e instantaneamente o abres comigo. Não foi fumo que saiu, as flores à volta não murcharam, apenas eu tossi entre soluços de um candeeiro a álcool. Por um momento vi um faról gigantesco no céu, naus à deriva a rumarem para o mesmo ponto, ferreiros a trabalharem o metal dos guerreiros, deuses e fadas rodeados de labaredas da vida, e a chuva mais bela de um céu gelado a derreter! E no alto mais alto, uma Lua de cor sem nome, diferente da que eu me lembrava, desconhecida, mais brilhante que tudo. Fora do frasco, mas dentro de mim, a alucinação guardei-a, pois nem metade podia partilhar. Nem fora do frasco nem dentro de mim estava o orgulho do meu medo, nem mais o medo de ter orgulho. Fora do frasco e dentro de mim estavas tu, a matar saudades e pesadelos com uma adaga que forjaste, e pensava teres largado há muito pelo teu caminho.

Fora do meu frasco e dentro de ti estava outro frasco comigo lá dentro. Vi perdão e alegria, respeito e saudade, num frasco bem fechado e bem escondido, mas também bem guardado. 

terça-feira, 3 de abril de 2012

Abismo

O abismo chama-te. Não tivesses tu ficado preso nos escombros naturais, ainda não saberias que era a voz do abismo. Não tivesses tu caído vezes sem conta no mesmo sítio, pensando que se tratava de alguém, pensando que apenas tinhas ficado pelo caminho. Já não olhas tanto em frente, não ergues tão lunaticamente essa cabeça pesada, apercebeste-te, aprendeste: quem caminha nos precipícios do deserto nunca pode perder o passo. Observa os teus pés que tanto andam e te levam a lado nenhum. Ao som da música caminhas, percorres o mundo, persegues o sol, para o descobrir atrás de ti a cada dia. A tua pele escama na secura, pensas-te um réptil endurecido, mas assemelhas-te mais a um lagarto que se esconde na areia das dunas.

O vento assobia de novo e ouves o abismo. Uma e outra vez, olhas o negro do seu fundo sem fundo, uma e outra vez pensas quão fundo será. No fundo poderias caminhar sem medo de cair, até que a força do desfiladeiro fatalmente desabasse sobre ti. Mas é a mesma força que mantém os precipícios separados, e prova-se resistente, só o tempo lhe faz ameaça. E o abismo chama, o abismo quer, o abismo exige! Dás por ti a gritar-lhe, um lagarto contra o deserto! Viras costas, calas-te, frustrado.

Nesse momento o abismo cala-se. Nada mais, apenas o sibilar das dunas no vento. É na serenidade interior que te apercebes momentaneamente da hipótese que mais te feriria o orgulho... Existe um abismo? Gritas-lhe, e ele grita-te de volta. E pensas, quem terá começado esta discussão? Quem terá dado o primeiro grito? O abismo chama, o abismo quer, o abismo exige!... O abismo não existe, não mais que na sua quietude milenar. É a tua própria voz, o teu eco, tu mesmo. Tu queres-te e não te encontras, estás num mundo inacessível, preso numa indimensão perdida, um grão de areia inerte à deriva no espaço, com órbita apenas sobre si próprio. Rodas à volta de ti enquanto passas pelos outros, sem um plano, sem uma solução, até que te apercebes que tu próprio és o problema. Antes do camelo ser leão passa por réptil, convenceste-te que és livre e que tanto enquanto houver um sol que te aqueça não precisas de mais nada. Pois descobres agora que precisas de ti antes de tudo o resto, e que por mais perto que tenhas chegado nunca tocaste realmente na tua alma. É preciso ser-se um leão para se ser leão. Sê um.

É por isso que os teus pés andam e tu ficas parado, a tua voz grita e tu continuas silenciado, o teu cérebro sabe mas tu duvidas, tu és mas não existes. Preso em ti mesmo sem te chegares, num mundo que viaja pelo mundo, com uma inércia cada vez mais forte. Tal labirinto não pode existir, é impossível, e apercebes-te que tu não és tu. Mata-te para te salvares, salta para voares, pára a inércia. É tudo o que queres, e é tudo o que não fizeste. Matar o impostor, abrir os olhos para a luz ofuscante, para o ruído ensurdecedor dos pensamentos alheios perante o teu rugido. Mas se ainda não sabes quem és também não sabes quem é o impostor. Estás disposto a arriscar atirar o corpo errado?

A noite chega, a lua alta, o vento calado, e nem um uivo. Nessas escamas não poderás fazer nada enquanto durar a noite fria. Espera pelo sol, encontra o leão. O sangue frio de nada te tem servido, caminhas de dia e escondes-te à noite. Esse isolamento levou-te à loucura, e só o sangue quente te trará de volta.