Ando e ando por este corredor, e nada parece real. As paredes são feitas de caveiras que brilham - dentro de cada uma jaz uma vela acesa. Lagartos rastejam desajeitados, apressados à minha volta, prevêem sempre o meu próximo passo e abrem lugar para que não morram esmagados. Luz, morte, répteis. O é ambiente frio e húmido, apesar de tanto fogo. O tecto está coberto de musgo, do qual caem gotas apenas na minha cabeça e nunca à minha volta. O cheiro é nauseabundo, um fedor a decomposição enche este lugar coberto de mil melodias e gemidos, berros e assobios, num silêncio assustador - e mais uma gota cai na minha cabeça. Como o sino de uma igreja, estas gotas mantêm-me acordado. Há dias, semanas, meses, anos.
Já as devia ter ouvido com atenção há muito. Odeio-as tanto que nem sabia escutá-las. E agora que as escutei sei como me livrar delas. Bastou escutá-las uma vez para saber que não são reais. Amanhã com certeza acordarei fora deste sítio macabro. Esperavas mais? Pesadelos não passam disso mesmo, então quando abres os olhos podes dormir descansado sob a luz de outro fogo menos dourado mas muito mais ardente. Esse que não tem quem o apoie e se pendura por ele mesmo no espaço, esse solitário permite que vejamos.
A Lua? É onde estou. A Terra? Sei lá, provavelmente foi de lá que vieram estes lagartos. E as caveiras? Provavelmente pessoas que vieram à Lua e não aprenderam a respirar sem ar. O fogo das velas ensinou-me a fazê-lo. E quem construiu isto? Não duvido que tenham sido estes lagartos todos que vieram procurar pelos seus amos. O meu lagarto ficará na Terra a transmitir as idéias a quem as quiser ouvir, vivendo por mim na Babilónia.
Só mais um conto de fadas.