É humilhante olhar para trás e ver meses inteiros perdidos em lutas vãs, das quais não retiras experiência, apesar de ser a experiência de tal perda que te retira de ti e deita-te abaixo. Mas lá vais acordando, aos poucos, pensando sempre "é desta", não reparando que o pensamento não sai da cabeça. Mesmo que já sinceramente o queiras expelir do teu dia a dia, ele está presente em todos os momentos, quer queiras quer não. Consequência de depois de um extremo tentar chegar ao ponto de equilíbrio, sem antes o contrabalançar com o outro extremo. Ficamos num meio do meio, num meio morto de sono e apatia. E sabes que quando realmente estiveres livre desse fardo, nem te vais aperceber. Mesmo que de coração estejas, as ondas chocam no cérebro, até que este pare de controlar e deixe ir.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
sábado, 20 de junho de 2009
Aqui Não Diz Nada
Sem mais planícies místicas, árvores sapientes, corvos nos ombros, nem ninguém que vista as teias de aranha. Quando pousas a pena e olhas em volta, a luz reflecte no asfalto e até este te parece branco. As palavras deixadas fazem o mesmo, reflectem no papel as figuras que um cérebro ofuscado tem dificuldade em decifrar. O branco do papel não deixa ver as figuras rudemente rabiscadas por trás de cada palavra.É assim que olhas em volta e em dolorosos mas breves momentos acordas, vendo os prédios e as pessoas, vendo um céu completamente normal, nuvens cinzentas ou sol escaldante. Vês que a chuva não é negra, que é na verdade transparente. Ainda estranho um pouco, mas hei-de me conformar de que as megalomanias que descrevo não passam de sonhos conscientes frustrados. Como ao nosso amigo Álvaro, "até os meus exércitos sonhados sofreram derrota".
Acordas, com agulhas luminosas picando-te os olhos, beliscando-te os neurónios desafiando-te à sobriedade do dia, aliciando-te a andar na bebedeira de covardia comum à raça humana. Odiando por não poder mudar, cobiçando por não poder conquistar, roubando por não poder pedir, pedindo por não poder recuar. Vês estes olhares na rua, cada vez menos introspectivos e mais explosivos. Mais deprimidos na pele, destruidos por dentro vestindo a apatia de um sorriso maquilhado por álcool e drogas. Conformando-se com a derradeira solução, a atenção emigra para os outros, e a sua aplicação torna-se um tanto o quanto aleatória, sem interesse na hipocrisia, nem na queixa fundamentada de gestos frustrados. Os trauseuntes agradecem e aproveitam, transcendendo-lhes de vez em quando a simplicidade de um movimento mais próximo do que eles próprios imaginam. Outros fecham-se, retirando por completo todas as vantagens dessas bocas e ouvidos, esmagando-lhes um pouco o ego, arrastando-os para onde eles sabem ser as portas do Inferno por uma noite. E aí o fogo ofusca, a arrogância sobe pela defesa, e somos incapazes de ver quem lá dentro arde apenas para não nos queimarmos.
Parecemos burros de carga, carregamos merda no interior dos nossos crânios, não reconhecemos o valor das atitudes uns dos outros, impingimo-nos ódio a nós mesmos quando estamos um pouco mais cansados, e não resistimos aos comodismos do orgulho. Cada um no seu canto, alguns cantos coincidem, outros existem apenas no vazio de mais um comum olhar de desilusão. Egos esmagados por egos, alter-egos que ridiculamente vêm à tona e se tentam impingir como uma medida de defesa contra aqueles que não nos consideram mais que ninguém. A necessidade de aprovação pelos mais próximos e nunca pelos outros revela-se útil, e afastarmo-nos das pessoas erradas ainda mais. É bem mais confortável viver num mundo que não existe apenas para sonharmos que somos maiores. Uns fazem esse mundo na sua voz, outros na sua pena, e muitos mais. Todos eles acompanhados por uma pequena orquestra de sopros cerebrais. E quando no meio dessa criatividade se encontram, o conforto sobe.
Vou em meia garrafa de rum de neurónios e a pena já treme. Ainda bem que não passa de uma nota mental apontada num espaço abstractamente físico, usando a matemática para o representar e o deixar pousado naquilo que funciona como uma mesa de café.
Um velho senta-se, bebe a sua meia de leite e lê. Resmunga.
"Aqui não diz nada."
sábado, 6 de junho de 2009
O Uivo das Aranhas
Entro numa floresta tropical da quinta dimensão cada vez que me vens ao pensamento. A chuva cai naturalmente, pesada e negra, escorrendo de cada folha, memórias que me ocorrem sem como nem porquê. Sinto a saudade a mordiscar pedaços de mim, como se me comesse às migalhas. Do simpático chilrear destas águias parece que saem palavras duras e mortíferas, como as tuas. Atraentes, melodiosas, fatais.O intenso cheiro a pele molhada pela chuva e as belas carcaças andantes movidas por uma alma animal... Lembram-me os teus passos lentos, calmos, a tua classe inocentemente sensual. Uma pantera passa com um cigarro na boca, e és tu. A arma letal que ronronava nas minhas pernas, pedindo por atenção. Quando não a conseguias ronronando, vinhas nesses passos leves com os dentes prontos a tirar-me a vida atacando-me no pescoço. E que saída tinha eu se não render-me ao poder de dar e tirar vidas? E rendia-me com orgulho.
As teias de aranha estendem-se pelas árvores, e as gotas de chuva nelas presas reflectem a lua. Teias das quais as nossas roupas foram tecidas ao longo do tempo. E tudo deixo à guarda dessa longa teia que te veste. E as aranhas que me povoam, em coro uivam uma serenata à lua, interrompendo em todo o lado o ruído das gotas que caem. A floresta pára para ouvir o som da tua chegada, e espera em silêncio sob a chuva a oportunidade de te cheirar de novo. Mas limitas-te a ver a água a escorrer na tua janela, vendo do outro lado do vidro a floresta onde sonhas viver mas tens medo. E de vez em quando, em silêncio, ficas a noite inteira a apreciar o uivar destas aranhas por entre a chuva.
Numa floresta em que as aranhas uivam, as panteras fumam, e as águias cantam belas melodias, tu existes, e usas as teias das nossas palavras encostadas à tua pele. Nunca comigo, mas sempre em ti. Afinal, nem sequer existes. És apenas a alucinação que vai e volta à cabeça de um esquizofrénico, o escape para um céptico de vez em quando acreditar que há algo que muda todas as regras da física, toda a lógica que rege o dia a dia. Mas nada mais que um desejo tão forte que leva ao delírio.
Um dia, se decidires passear por entre esta floresta, traz o vestido das teias que foram tecidas, arrasta-o pela chuva e pela lama. Verás que não rasga nem suja.
As teias de aranha estendem-se pelas árvores, e as gotas de chuva nelas presas reflectem a lua. Teias das quais as nossas roupas foram tecidas ao longo do tempo. E tudo deixo à guarda dessa longa teia que te veste. E as aranhas que me povoam, em coro uivam uma serenata à lua, interrompendo em todo o lado o ruído das gotas que caem. A floresta pára para ouvir o som da tua chegada, e espera em silêncio sob a chuva a oportunidade de te cheirar de novo. Mas limitas-te a ver a água a escorrer na tua janela, vendo do outro lado do vidro a floresta onde sonhas viver mas tens medo. E de vez em quando, em silêncio, ficas a noite inteira a apreciar o uivar destas aranhas por entre a chuva.
Numa floresta em que as aranhas uivam, as panteras fumam, e as águias cantam belas melodias, tu existes, e usas as teias das nossas palavras encostadas à tua pele. Nunca comigo, mas sempre em ti. Afinal, nem sequer existes. És apenas a alucinação que vai e volta à cabeça de um esquizofrénico, o escape para um céptico de vez em quando acreditar que há algo que muda todas as regras da física, toda a lógica que rege o dia a dia. Mas nada mais que um desejo tão forte que leva ao delírio.
Um dia, se decidires passear por entre esta floresta, traz o vestido das teias que foram tecidas, arrasta-o pela chuva e pela lama. Verás que não rasga nem suja.
terça-feira, 2 de junho de 2009
O Fim
Hoje encontro a ingenuidade passada a arder em chamas, no meio das ruínas, reflectindo sua luz vermelha no céu. Criaturas moribundas arrastam-se entre um e outro monte de destroços. As disformidades nas suas cabeças são corcundas mentais, adquiridas muito depois da nascença, fazendo pesar a consciência nesses homens que não são pessoas. Vivem na arrogância de quem não se arrepende dos seus erros conscientes, de joelhos no chão, puxando-se com os braços. Juntos em volta de fogueiras, deixam as suas últimas palavras arder, acabando a transacção bíblica em que vendem a alma uns aos outros, cada um pensando que está a enganar o resto do grupo.Mas as montanhas levantam-se, os mares sobem aos céus, e a terra revolta-se numa lenta explosão, esmagando todas as fundações, fazendo cair os últimos edifícios que existiam. As florestas cerram-se em volta dos animais, protegendo a fauna na resistência épica da flora.
A terra volta a recuar, abrindo infinitas fendas no chão de onde o magma jorra, cobrindo de vermelho incandescente aquelas montanhas, transformando-as em colossos de pedra e fogo. O mar desce de novo a este paraíso para psicopatas megalómanos. Os gigantes fumegam, sem deixarem nunca de arder, com correntes de lava à sua volta. Acaba de se erguer um exército de natureza consciente, não para combater, mas para matar.
E tudo corre na melhor das formas. Cabeças são esmagadas, desfeitas em merda e sangue, os ossos espalham-se pelo planeta, mas não tão ruidosamente como seria de esperar. O vento passa nos gigantes de pedra, aquecido pela lava, fazendo uma melodia de uma nota só, contínua, grave, solene, e natural como um sopro numa garrafa vazia. É este o som de tudo, o som da natureza. O da nascença, o da vida, o da morte. E o da eternidade. O som continuará nos planetas, haja ou não alguém para o presenciar.
E ao último corcunda ocorre um pensamento, uma memória. Em criança, brincava com uma qualquer garrafa de vidro, soprando e dizendo aos amigos que estava viva - até que um relâmpago lhe fulmina os olhos.
A última memória da Humanidade.
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