sábado, 18 de abril de 2009

Na Chuva Negra

Uma noite comum para a minha mente, a rotina da noite-a-noite. O hábito de acender um cigarro no cérebro enquanto os olhos vão descrevendo na folha linhas e traços, dando forma a um poema. Mas sem versos, sem tinta. Sem palavras, sem sons.

Uma noite comum também para os meus olhos, que vêem a tinta do que não escreveram a escorrer, borrada pelas macabras gotas que caem do céu. Aí sim, as intenções se tornam em palavras: molho a pena na chuva negra, firo a minha língua, e com a boca e a pena em sangue, transmito as palavras que me iam nas veias mas que a língua não queria soltar.

Mas são estas gotas negras como o alcatrão que me permitem sonhar, que me cegam os olhos para que eu deixe por uns momentos de ver apenas este mundo, e me provocam com o seu silêncio. Vejo mundos e mundos a olharem para mim, sem uma única palavra, sem um som, sem um movimento. Contemplam o momento, literalmente, seguram-no com suas mentes, contemplam este momento em que há mais uma mente a cruzar-se com as deles, e analisam-me... Como consciências mudas, atacam-me com o olhar! Consigo ver nas suas expressões a crítica, a denúncia, comparando-me ao meu alter-ego. E são esses olhos, todos eles verdes, que fazem a raiva e o ódio subir em mim e esguichar palavras como sangue de um coração.

E assim o faço, verborreio para satisfazer os seres que andam descalços, apenas agasalhados por mantas brancas que lhes cobrem o crânio e as costas, mas não as intimidades. Porque andarão assim? Presumo que queiram ser discretos, não envergonhados. Transparentes e protegidos. Destemidos pois nada têm a temer. Irritantemente perfeitos, estes seres que idolatro e odeio, odiosamente bem feitos e bem pensados. Enquanto que eu, na chuva negra, sou nada mais que um espantalho onde os corvos fazem ninhos!

Mas na inocência e frescura desta mente, o que me falta é consciência da realidade, e por isso como sempre deambulo pela noite, arrastando comigo o peso de um fantasma pendurado em mim, os labios da consciência presos ao meu pescoço tentado-me seduzir apenas para me enganar.

Talvez o peso que sinto sejam apenas as minhas vestes encharcadas em chuva negra.

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