terça-feira, 3 de abril de 2012

Abismo

O abismo chama-te. Não tivesses tu ficado preso nos escombros naturais, ainda não saberias que era a voz do abismo. Não tivesses tu caído vezes sem conta no mesmo sítio, pensando que se tratava de alguém, pensando que apenas tinhas ficado pelo caminho. Já não olhas tanto em frente, não ergues tão lunaticamente essa cabeça pesada, apercebeste-te, aprendeste: quem caminha nos precipícios do deserto nunca pode perder o passo. Observa os teus pés que tanto andam e te levam a lado nenhum. Ao som da música caminhas, percorres o mundo, persegues o sol, para o descobrir atrás de ti a cada dia. A tua pele escama na secura, pensas-te um réptil endurecido, mas assemelhas-te mais a um lagarto que se esconde na areia das dunas.

O vento assobia de novo e ouves o abismo. Uma e outra vez, olhas o negro do seu fundo sem fundo, uma e outra vez pensas quão fundo será. No fundo poderias caminhar sem medo de cair, até que a força do desfiladeiro fatalmente desabasse sobre ti. Mas é a mesma força que mantém os precipícios separados, e prova-se resistente, só o tempo lhe faz ameaça. E o abismo chama, o abismo quer, o abismo exige! Dás por ti a gritar-lhe, um lagarto contra o deserto! Viras costas, calas-te, frustrado.

Nesse momento o abismo cala-se. Nada mais, apenas o sibilar das dunas no vento. É na serenidade interior que te apercebes momentaneamente da hipótese que mais te feriria o orgulho... Existe um abismo? Gritas-lhe, e ele grita-te de volta. E pensas, quem terá começado esta discussão? Quem terá dado o primeiro grito? O abismo chama, o abismo quer, o abismo exige!... O abismo não existe, não mais que na sua quietude milenar. É a tua própria voz, o teu eco, tu mesmo. Tu queres-te e não te encontras, estás num mundo inacessível, preso numa indimensão perdida, um grão de areia inerte à deriva no espaço, com órbita apenas sobre si próprio. Rodas à volta de ti enquanto passas pelos outros, sem um plano, sem uma solução, até que te apercebes que tu próprio és o problema. Antes do camelo ser leão passa por réptil, convenceste-te que és livre e que tanto enquanto houver um sol que te aqueça não precisas de mais nada. Pois descobres agora que precisas de ti antes de tudo o resto, e que por mais perto que tenhas chegado nunca tocaste realmente na tua alma. É preciso ser-se um leão para se ser leão. Sê um.

É por isso que os teus pés andam e tu ficas parado, a tua voz grita e tu continuas silenciado, o teu cérebro sabe mas tu duvidas, tu és mas não existes. Preso em ti mesmo sem te chegares, num mundo que viaja pelo mundo, com uma inércia cada vez mais forte. Tal labirinto não pode existir, é impossível, e apercebes-te que tu não és tu. Mata-te para te salvares, salta para voares, pára a inércia. É tudo o que queres, e é tudo o que não fizeste. Matar o impostor, abrir os olhos para a luz ofuscante, para o ruído ensurdecedor dos pensamentos alheios perante o teu rugido. Mas se ainda não sabes quem és também não sabes quem é o impostor. Estás disposto a arriscar atirar o corpo errado?

A noite chega, a lua alta, o vento calado, e nem um uivo. Nessas escamas não poderás fazer nada enquanto durar a noite fria. Espera pelo sol, encontra o leão. O sangue frio de nada te tem servido, caminhas de dia e escondes-te à noite. Esse isolamento levou-te à loucura, e só o sangue quente te trará de volta.

1 comentário:

  1. "O abismo não existe, não mais que na sua quietude milenar. É a tua própria voz, o teu eco, tu mesmo. Tu queres-te e não te encontras, estás num mundo inacessível, preso numa indimensão perdida, um grão de areia inerte à deriva no espaço, com órbita apenas sobre si próprio. Rodas à volta de ti enquanto passas pelos outros, sem um plano, sem uma solução, até que te apercebes que tu próprio és o problema."

    Em todo o texto, só posso afirmar que é principalmente neste excerto que me encontro verdadeiramente. Mas é algo demasiado complexo e estar nesta "situação" é das mais deprimentes que se pode estar,na minha opinião. Como sair dessa teia? A eterna questão, a teoria sabe-se mas...
    Gostei bastante da forma como escreves, parabéns por este texto em particular.

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