sábado, 15 de novembro de 2014

Tristemente hilariante, a forma como me devolveste o dom da escrita, e não o sou capaz de segurar. Os meus dedos sabem as ranhuras de cor, de tecla em tecla, sentem o relevo do caractére; poisam o suor no fatídico premir de palavras de ordem e cálculo, e cálculos, e ordens. Mas o sangue, esse, perco-o em mim, fraco e passivo, que mal percorre as artérias e veias o suficiente para que consiga escrever sequer esta reflexão. Um espelho baço, embaciado pela recorrente decadência do ser.
Tu devolveste-me o palpitar das palavras, e não o fui capaz de segurar. Que vergonha. Ele sim, segura-me, quando se propõe a ser materializado na mais pura das abstracções realizadas: a palavra, para além do vento, para além da sensação, da idéia. Depreendo que seja este o mesmo palpitar a gritar por socorro, abusando das minhas mãos para se fazer ouvir, abusando dos meus olhos para se fazer ler. Não grita para que o salvem e o cuidem. Não grita sequer para que o acudam de todo. Mas para que não caia no vazio da memória. Porque se não o sou capaz de segurar, quem há-de ser capaz de o lembrar.

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