segunda-feira, 20 de abril de 2009

A Vala Lunar

O ponto onde todos morrem, afundados na neve, dando o último sopro em desespero como um uivo não ouvido à lua. É aqui que se vêm todos os corpos, uma vala comum despropositada, o ponto onde esta lua gélida te mata. Cadáveres congelados, ainda parecem vivos, dormentes no gelo... E esses cadáveres irão uivar uma vez mais, com os pulmões cheios de alma, com os corpos cheios de neve, sem cara. Marionetas inacabadas de um deus filho da puta. Por isso a lua reconquistou este reino de almas semi-mortas, exércitos de bonecos articulados cegos. Para aqui a lua tudo atrai, para tudo prender, até à morte inevitável - lembro-me que foi aqui que morri eu também.

Mas é a nossa passagem para fora dos mais profundos calabouços do inferno, onde nada é real menos a dor, onde o tempo é dobrado para a eternidade parecer ainda maior. Foi aqui que nossos corpos ficaram, mas as almas vagueantes são nada mais que aleatoridades à deriva, enquanto sofrem aquilo que o corpo não sente. Mas a lua nos irá libertar. Essa gélida lua congelante conserva nossos corpos enquanto as almas não estão prontas. A lua, nossa líder, nossa mestra, a nós, àqueles que não têm rosto. A nós a lua! A lua!

E sinto o sangue correr, começo a sentir meu corpo, sinto o gelo a estalar. A minha alma regressou. Eu regressei! Os lobos uivam ao longe, pressentindo o poder dos que acordam, mas não fogem. Apenas uivam. E os olhos rebentam na cara, o nariz, os lábios descosendo-se com esforço, enquanto a plenos pulmões apenas berro em silêncio. Não mais marionetas, não mais deformadas criaturas esquecidas, corta os fios que te prendem! Com o sangue da cura ainda escorrendo pela face, noto tudo tão vermelho. A neve. Os lobos. As árvores. Até a noite. A lua. Esta lua gelada, prestes a tornar-se sangrenta.

E todos nós caminhamos, passos longos e fundos na neve, nunca mais amedrontados, nunca mais discriminados. E até quem olha para trás, para o gelo, e vê o seu corpo encurralado na transparência, até quem olha para o passado sabe que esses corpos não passam de espelhos esquecidos. Uma realidade alternativa do seu prórprio ego, uma das suas várias facetas. Pois a hora da evolução chegou, com os nossos rostos roubados à sanidade. Pois hoje temos o controlo do que mais precisamos, nós próprios, e nada tememos enquanto deixamos um rasto de almas mortas nas nossas pegadas.

2 comentários:

  1. Ehe eu já posso comentar.. anonimamente...
    Já agora gotas de álcool? a não ser que te refiras a extremamente grandes gotas.. não é aceitável serem gotas.
    Cumprimentos,
    "Anónimo"

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  2. Aqui está o verdadeiro que faz comentários sobre a designação dos comentários!
    Go, anónimo, go go go!

    Cumprimentos,
    "Fett?"

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