O som dos seus passos firmes apresentou a sua vinda. Encostado à parede, tabaco inutilizado pela chuva, e mangas da camisa acima do cotovelo pelo calor - o incómodo de um Verão cinzento. Ainda tinha o cigarro molhado no canto da boca, partido pelas pesadas gotas, quando parou à minha frente. Com a cabeça cortada pela aba do meu chapéu, vi-lhe a tez branca nos braços e os cabelos resignados em cascatas que caiam pelos ombros.
Levantei o olhar, apenas para descobrir que o seu continuava cortado pela aba do seu próprio chapéu.
"Pareces mais perdido que eu."
"Anda comigo, e encontramos algum bar onde vibrem os metais e as cordas, e as gargantas não se cansem a engolir em seco."
"Ainda é dia, e não te conheço."
Claro que me conhecia. Este jogo caía sempre sobre nós, até os peões nos rebolarem aos pés, gastos pelo chão áspero e as duras quedas. Mas não acontecia havia 15 anos. A ressaca da imaginação. Dores de crescimento da meia idade.
"... Mas já há muito que os dias não oferecem nada, e problemas são os meus conhecidos", completou, após a pausa em que lhe fitei os lábios na sua própria expressão. Elevou também os olhos, e tinha sarilhos escritos neles, como uma Bonnie acabada de sair da prisão e sem um mundo para onde voltar.
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