terça-feira, 2 de junho de 2009

O Fim

Hoje encontro a ingenuidade passada a arder em chamas, no meio das ruínas, reflectindo sua luz vermelha no céu. Criaturas moribundas arrastam-se entre um e outro monte de destroços. As disformidades nas suas cabeças são corcundas mentais, adquiridas muito depois da nascença, fazendo pesar a consciência nesses homens que não são pessoas. Vivem na arrogância de quem não se arrepende dos seus erros conscientes, de joelhos no chão, puxando-se com os braços. Juntos em volta de fogueiras, deixam as suas últimas palavras arder, acabando a transacção bíblica em que vendem a alma uns aos outros, cada um pensando que está a enganar o resto do grupo.

Mas as montanhas levantam-se, os mares sobem aos céus, e a terra revolta-se numa lenta explosão, esmagando todas as fundações, fazendo cair os últimos edifícios que existiam. As florestas cerram-se em volta dos animais, protegendo a fauna na resistência épica da flora.

A terra volta a recuar, abrindo infinitas fendas no chão de onde o magma jorra, cobrindo de vermelho incandescente aquelas montanhas, transformando-as em colossos de pedra e fogo. O mar desce de novo a este paraíso para psicopatas megalómanos. Os gigantes fumegam, sem deixarem nunca de arder, com correntes de lava à sua volta. Acaba de se erguer um exército de natureza consciente, não para combater, mas para matar.

E tudo corre na melhor das formas. Cabeças são esmagadas, desfeitas em merda e sangue, os ossos espalham-se pelo planeta, mas não tão ruidosamente como seria de esperar. O vento passa nos gigantes de pedra, aquecido pela lava, fazendo uma melodia de uma nota só, contínua, grave, solene, e natural como um sopro numa garrafa vazia. É este o som de tudo, o som da natureza. O da nascença, o da vida, o da morte. E o da eternidade. O som continuará nos planetas, haja ou não alguém para o presenciar.

E ao último corcunda ocorre um pensamento, uma memória. Em criança, brincava com uma qualquer garrafa de vidro, soprando e dizendo aos amigos que estava viva - até que um relâmpago lhe fulmina os olhos.

A última memória da Humanidade.

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