quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Prohibited

E dançam, e dançam, e cantam, magos e bruxas à volta do caldeirão, sob a Lua, de vestes negras seguras nos esqueléticos corpos por cordas de ervas enfeitiçadas! Como riem, macabros, enquanto proferem imperceptíveis parábolas! Fumos verdes escapam do negrume do caldeirão, apenas para pairarem até serem capturados pelas narinas de um deles, enrubescendo-lhes os olhos, tornando mais roucos os seus cânticos e mais obscuros os seus risos.

E levantam a voz, e levantam as mãos ossudas e feridas, e com as suas línguas púrpura declaram o seu amor às chamas da natureza feita de árvores que ardem sem se consumir! E debaixo da luz da Vénus do início da noite, rogam à beleza destruidora que lhes mantenha os olhos abertos, enquanto outra Vénus mais terrestre se contorce em gemidos, nua no altar de rocha lisa. Desembrulham os seus amuletos, pequenas figuras feitas de folhas e flores secas da planta encantada, e lançam-nas para o caldeirão. O seu encantamento espalha-se, os cânticos passam a murmúrios, e as gargantas secam-se-lhes.

Pois chega o momento de beber algumas gotas do sangue da santa. Das feiticeiras é a mais bela que retira uma faca das suas vestes, dos feiticeiros o mais velho. A voluntária oferenda de carne, tatuada com as marcas da natureza, ajoelha-se no altar, e deixa cair as costas para trás, como dita o ritual. A Lua brilha sobre si, para que os deuses possam ver a luxúria benigna que transpira. O velho mago aproxima-se do seu pescoço, e executa um pequeno e momentaneamente doloroso corte hábil, que verte sangue de imediato. A bruxa, de cabelos longos brancos e lisos, faz o mesmo, com menos habilidade mais mais sensualidade no interior coxa do sacrifício. E ambos encostam os lábios à Vénus que se lhes dispõe, prazerosa, de olhos vermelhos e gemidos lentos. E as suas mãos agarram nos cabelos de ambos os feiticeiros, querendo mais ainda ser consumida. Mas sofre de desejo, enquanto, dois a dois, os feiticeiros vão sorvendo o seu sangue do pescoço e da perna.

Os fumos verdes dos amuletos continuam a levantar do caldeirão, adensando-se, e tomando forma lentamente, mudando de cor, tornando-se negros e vermelhos. Sobem, até formarem um corpo demoníaco, pairando sobre o caldeirão enquanto a sua transparência gasosa é substituída pelas cores sólidas e a textura de uma pele áspera, queimada pelas chamas da mesma natureza. Pousa levemente no chão, e os cânticos recomeçam, arrastados, com as vozes inebriadas pelo encantamento. O demónio trazido à terra pela magia negra dos anciãos caminha, com os olhos na frágil beldade que se lhe apresenta. A terra debaixo dos seus pés floresce e arde com os seus passos. Os lábios molhados da bela de cabelos negros e pele branca fecham-se ao reconhecer o ser do outro mundo. E enquanto estes se fecham, ela própria se oferece, como se um cordeiro reconhecesse a sua morte, e a aceitasse, e a quisesse. E unem-se os mundos na luxúria da carne e do fumo, do organismo e da droga, do ar e das plantas, sempre em cima do altar. Mas esse belo cordeiro é a contraparte do demónio, e como tal roda sobre ele enquanto crava os dentes na sua pele e o inspira, ficando sozinha de joelhos na rocha. E quando expira o fumo envolve-a, queimando-lhe a pele, e fazendo-a gritar suavemente, agradada pela dor. E o materialismo do seu corpo ressuscita, começando por dentro dela, entre as suas coxas (uma delas cortada), e estendendo-se de costas num manto de si mesmo, até para fora do altar. E grita ele pois a vida dela o queima, com a mão no seu pescoço, e as dele no seu peito.

É essa a melodia sadomasoquista, de amor e batalha, que preenche as veias desses magos. E para todo o mal, e para toda a dor, e para toda a natureza, eles vivem. E que até a morte seja vida, e que até o celibato seja luxúria, e que até o sofrimento seja prazer. Que até as palavras acariciem. Porque há correntes inquebráveis entre eles e as suas almas.

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