sábado, 22 de março de 2014

Orquídea

Vagueias por onde não me podes ver; mas eu vejo-te. Vejo os teus passos, observo-os de longe, sabendo que não são meus - mas quando mais os tento não ouvir mais eles pisam as teclas de um piano, quanto mais os tento não ver mais eles dançam, inocentes e cativantes. Os mesmos passos te conservam na sombra, da qual apenas vejo as pernas e as mãos delicadas, chamando-me. Desconhecida, assombração das noites mais descansadas, conforto dos dias mais escuros. És-me uma folha de papel onde as letras querem aparecer mas se escondem para eu não as ver, como nova, mas que carrega consigo a beleza da idade e da cultura - és-me um livro que gostaria de ler, um vinil com que me deliciaria, um cálice de vinho que me faria esquecer o mundo.

E és-me o terror de uma promessa por cumprir, uma orquídea que aflige à negligência, um segredo quebradiço. Uma história que temo ser perdida por um vulto intermitente, um poema que foi escrito na paixão de um café e cai tragicamente do bolso a meio de um caminho - o poema que passamos a vida a procurar, sem saber que se afogou na neve do passeio.

Mas será que existes? E eu mesmo, existo?

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