sábado, 20 de junho de 2009

Aqui Não Diz Nada

Sem mais planícies místicas, árvores sapientes, corvos nos ombros, nem ninguém que vista as teias de aranha. Quando pousas a pena e olhas em volta, a luz reflecte no asfalto e até este te parece branco. As palavras deixadas fazem o mesmo, reflectem no papel as figuras que um cérebro ofuscado tem dificuldade em decifrar. O branco do papel não deixa ver as figuras rudemente rabiscadas por trás de cada palavra.

É assim que olhas em volta e em dolorosos mas breves momentos acordas, vendo os prédios e as pessoas, vendo um céu completamente normal, nuvens cinzentas ou sol escaldante. Vês que a chuva não é negra, que é na verdade transparente. Ainda estranho um pouco, mas hei-de me conformar de que as megalomanias que descrevo não passam de sonhos conscientes frustrados. Como ao nosso amigo Álvaro, "até os meus exércitos sonhados sofreram derrota".

Acordas, com agulhas luminosas picando-te os olhos, beliscando-te os neurónios desafiando-te à sobriedade do dia, aliciando-te a andar na bebedeira de covardia comum à raça humana. Odiando por não poder mudar, cobiçando por não poder conquistar, roubando por não poder pedir, pedindo por não poder recuar. Vês estes olhares na rua, cada vez menos introspectivos e mais explosivos. Mais deprimidos na pele, destruidos por dentro vestindo a apatia de um sorriso maquilhado por álcool e drogas. Conformando-se com a derradeira solução, a atenção emigra para os outros, e a sua aplicação torna-se um tanto o quanto aleatória, sem interesse na hipocrisia, nem na queixa fundamentada de gestos frustrados. Os trauseuntes agradecem e aproveitam, transcendendo-lhes de vez em quando a simplicidade de um movimento mais próximo do que eles próprios imaginam. Outros fecham-se, retirando por completo todas as vantagens dessas bocas e ouvidos, esmagando-lhes um pouco o ego, arrastando-os para onde eles sabem ser as portas do Inferno por uma noite. E aí o fogo ofusca, a arrogância sobe pela defesa, e somos incapazes de ver quem lá dentro arde apenas para não nos queimarmos.

Parecemos burros de carga, carregamos merda no interior dos nossos crânios, não reconhecemos o valor das atitudes uns dos outros, impingimo-nos ódio a nós mesmos quando estamos um pouco mais cansados, e não resistimos aos comodismos do orgulho. Cada um no seu canto, alguns cantos coincidem, outros existem apenas no vazio de mais um comum olhar de desilusão. Egos esmagados por egos, alter-egos que ridiculamente vêm à tona e se tentam impingir como uma medida de defesa contra aqueles que não nos consideram mais que ninguém. A necessidade de aprovação pelos mais próximos e nunca pelos outros revela-se útil, e afastarmo-nos das pessoas erradas ainda mais. É bem mais confortável viver num mundo que não existe apenas para sonharmos que somos maiores. Uns fazem esse mundo na sua voz, outros na sua pena, e muitos mais. Todos eles acompanhados por uma pequena orquestra de sopros cerebrais. E quando no meio dessa criatividade se encontram, o conforto sobe.

Vou em meia garrafa de rum de neurónios e a pena já treme. Ainda bem que não passa de uma nota mental apontada num espaço abstractamente físico, usando a matemática para o representar e o deixar pousado naquilo que funciona como uma mesa de café.

Um velho senta-se, bebe a sua meia de leite e lê. Resmunga.
"Aqui não diz nada."

2 comentários:

  1. OMG, escreves mesmo bem!

    A minha beira, meu deus, parabens esta mesmo porreiro!

    Sou uma amiga do teu irmao.

    Continua assim, está excelente!

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  2. xD xD emo xD xD
    aha ja n lia isto a mto tempo..
    e.. wtf d'ond veio o velho?

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