quarta-feira, 9 de outubro de 2013

E a tinta, que ficou a meio?


Suspenso dentro do corpo do demónio, nada faço mais que a meio. Só o consigo meio fazer, meio pensar, meio ver, meio ser. Sinto meio bafo flamejante sair das minhas narinas, sinto meio peso carregado pelo demónio, peso meio da minha meia consciência. Meio vivo, meio morto. Meio eu, meio rendido. Meio de olhos para a frente, meio para trás. E na média só vejo meio; à minha frente vejo uma imensidão repleta de vazio, atrás um espaço vazio de nada se não arrependimentos de meias acções. Metade de mim sobe puxado pela cabeça, como balão; metade de mim enterra-se na terra, e parto meio para cada lado.

Não duas metades que se completam, apenas duas colecções incompletas de meios sonhos e meios objectivos. Tanto começa que nunca acaba, tanto meio que é no início, tanto fim que fica a meio. O meio-dia do deserto, a meia-noite da alma. De meio ego, metades se fazem. De meio sopro um saxofone meio triste. Meio poético, meio nada.

Afinal, apenas meio suspenso dentro do corpo do demónio, meio demónio, meio morto, meio vivo. De meia tinta, meio texto, meia ideia. Meio minha, meio vazia.

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