segunda-feira, 1 de julho de 2013

Doce Veneno Lunar

Uma paisagem de gigantes cinzentos cortados pelos tornozelos, sobram apenas ruínas onde a natureza força a sua reentrada, cobrindo a pedra de heras e plantas sobreviventes como guerreiras. O céu é também todo ele cinzento, mas o Sol tão mortífero, forte, que atropela as nuvens e bate violentamente nas paredes destruídas, passando no vão de portas e janelas. Nos raios que se fazem poderosos brilha o pó que nunca assentou e nunca assentará, à espera de ser reaproveitado para reconstruir o lar da tribo que um dia foi aqui abrigada.

Há uma grande avenida principal, pavimentada com o negro de alguma pedra vulcânica, lava fria, outrora magma que transportara as superfícies do mundo, umas contra as outras, originando outros vulcões, terramotos, destruindo outras tribos. Uma prova de que o planeta vive, e vive para matar. No fim da avenida há uma praça, que nem a lava se atreveu a desonrar. Pois no seu centro está a personificação da Natureza, imortalizada em pedra, o único ídolo feito por mãos de homens, em feminino, sob uma túnica o seu pequeno corpo, perfeito, tão forte e frágil, coroada por um aro de flores perpétuas. Aos seus pés uma folha gigante e côncava, de pedra, abraçava no seu colo um líquido, uma água temida mas amada, protegida dos próprios que se protegiam dela. A água negra da memória, o fim de uma vida e o nascimento de um símbolo, ou o fim do sofrimento e a cobardia da escapatória, essa sim esquecida. Transformaria outros em pedra, por uma luta, por uma palavra decisiva, ou pela dor da morte do pródigo filho, ou pela dor do decaimento do sonho. Ou pelo desprezo de uma igualdade vã e desconexa de um sentido, um suicídio póstumo.

À noite vem a Lua, e a sua magia afasta as nuvens para que possa brilhar sobre a alma dos esquecidos. E brilha, brilha sobre a água da memória, e banha a face da sua guardiã. E durante Lua cheia o vento sopra levemente nos limites da praça, onde foram erguidas as Paredes do Universo, com pequenas ranhuras, viradas para a estátua... E toda a praça se torna branca no escuro. Acorda o fantasma da estátua, noutra côr de pérola brilhante e translúcida, do espírito da tribo, a Natureza, leve e deslizante. E enquanto essa alma errante vagueia pela praça com os pés envoltos numa nuvem, o vento assobia a melodia do seu lamento. E a sua face humana revela-se, ao voltar copiosamente as costas ao mundo e olhando de frente para a estátua que a guarda, e o triste momento mais belo repete-se, como nestas noites de sublime magia gemida: as mãos brancas daquele espírito acariciam a face da sua estátua, enquanto regressa por um momento a memória do seu escultor, e aproxima-se da pedra fria. Um beijo enternecido acontece, procurando como sempre entender, a morte da tribo, o peso de se ser o Universo, a solidão nas ruínas, a prisão numa estátua. E de joelhos cai levemente, abraçando a taça aos pés da sua imagem, enquanto a brisa continua a cantar levemente a sua dor, as suas lágrimas. Estas caem negras na taça, e nunca evaporam. Pois são apenas as dela, as Lágrimas da Memória, ou o Doce Veneno Lunar.

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