Dos dedos de onde antes jorrava a verborreia metafórica cuja tradução era guardada por uma chave segurada por duas mãos diferentes, hoje pingam vocábulos, escorrem pela palma, pulso, braço, e são reabsorvidos. Sentes-te de novo, pesado, ao mesmo tempo que deslizante num pairar sereno, arrastado. A capa que trazes varre o chão atrás de ti, guarda a terra das tuas pegadas. E a cada passo se torna mais pesada, como é inevitável no tempo. Mas recuperas o fôlego, puxas de novo a capa a ti, trazes de volta a alma à terra, e vês a paz no caos.
Não fazes ideia do que se aproxima, não sabes quando serás capaz de devolver ao papel a tinta que é dele, com a marca da tua floresta, escrita em doce veneno. Vês a curva contínua à tua frente e perguntas-te se será o teu caminho um círculo ou uma espiral. Se é um círculo, queres chegar onde começaste, e levar o caminho a rebolar para outros mundos. Se é uma espiral, dirigir-te-ás para dentro, em busca de ti próprio, ou para fora, tomando posse do mundo? Mas queres, em qualquer dos casos, abandonar a Terra, colonizar as terras que nunca foram tuas, aprender as línguas do além, pintar os quadros do invisível, esculpir estátuas de ninguém, escrever epopeias sem povos, tocar acompanhado de Terpsícore.
Mas sentes-te conscientemente relutante contra ti mesmo. Tentas-te ignorar mas não consegues. Será o círculo inquebrável? Esperas que sim. Esperas que não. Lanças-te aos remos ouvindo as melodias das sereias, e, fútil tolo, deixas o destino ao destino, abandonas toda a luta que não por ti.
Que apareçam novas fechaduras, novas chaves, e que a dourada permaneça o coração da floresta e do rio e da Lua, guardados pela ninfa.
E talvez um dia te encontres de novo na torre alada.
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