sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Mas há aquelas pessoas que só podem permanecer na mente de outras se escreverem e nunca falarem. Que têm que morrer por fora para poder viver um mínimo por dentro. Que inevitavelmente trocam o real pelo imaginário. Sujando algumas folhas, borratando o que não pode ser borratado, fazendo rabiscos e rascunhos que não chegam a desenhos mas são vistos como pequenas pinturas amadoras. É o máximo a que os escassos meios de alguns podem ambicionar. Emudecer para gritar, congelar para não arrefecer, separar as personas de um só ser.

Mas duas personas num só corpo é ter duas línguas na mesma boca, duas falas na mesma garganta. Dois erros e espaço apenas para um. Não sobra espaço para acertar, sobra? Então vivem errando, erram vivendo, e erram até em tentar mudar de rumo. Cria-se um segundo corpo, plástico, um vasilhame emprestado a uma personalidade de cada vez. E a persona sufoca, mas não há grande opção, há? Quando não se consegue juntar o deprimente cómico e o comicamente depressivo.

Mas é enquanto ambos estão temporariamente mortos que cabem no mesmo corpo, e se revela a piada mais deprimente, que nem o dramático nem o palhaço conseguiram contar: ser-se pessoa nas horas vagas. Com uns tiques de um e as repressões do outro, aparecem diálogos que são apenas balões de oxigénio para se aguentar até recuperar o pé. O mais estranho é que é também aí, com ambos no mesmo corpo, que essas pessoas se sentem maiores, mais largas, mais pesadas. O mundo é expremido pelos olhos e ouvidos até ao cérebro, o ar custa a entrar nos pulmões, e tudo tem um tom sonolento, viscoso, nojento. Convenientemente é quando estão mais conformados, quando as más notícias valem pouco menos que as boas. Penso que é assim também que menos interferem no mundo, e então erram menos.

Mas há coisas que nunca mudam, alguma parte é constante e verdadeira. No caso deste, por exemplo, é escrever para se tentar compreender.

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