terça-feira, 26 de novembro de 2013

Quem és tu, que tento expulsar da minha cabeça? És-me um ódio triste à realidade, uma sensação de que tudo (tudo) acabou. És um vulto estranho que se passeia silenciosa e discretamente, como uma infecção dormente que jura matar antes de morrer. Isto foi o pouco que ainda consegui ver pelas brechas da tua capa, bicho raso. Depois de tantas vezes me teres enganado. Escondes-te à vista de tudo em mim, passaste discreto por entre as minhas multidões, e, travestido, queres ser chamado de "ela". Rodeias-te das minhas memórias, que sem ti são compreendidas (de forma custosa, mas compreendidas). Fazes-te passar por essas mesmas memórias, roças-te nas melhores para que captes o cheiro, e amordaças as piores para que te possas fazer ouvir ventríoloquo, esperando ser confundido pelo perfume que roubaste.

Atrapalhas-me a visão, negro vulto. Atrapalhas-me até a tragédia, retiras-me da dignidade a que posso chamar minha. És-me um ódio triste, e ainda assim nem és Ódio nem és Tristeza. És apenas um ser desprezável, até desprezível, que forçou a entrada em mim enquanto não olhava. Produzes pus e sangue morto, usas as artérias para tentar popular as chagas - é nada longe de um milagre o facto de não triunfares por completo em mim. Não és sequer Degredo, e és no entanto o asqueroso. O coração terá que bater mais lento, os pulmões terão que ser mais calmos, e tanto a pele como espírito terão que sofrer ainda mais, agora que te reconheci, para que te continue a reconhecer. À sua passagem varrer-te-ei das memórias, para que se permaneçam limpas.

Mas ainda me faltam os poderes de observação para saber se poluíste ainda mais de mim. Talvez vivas em mim eternamente descansado e escondido se eu achar que te expulsei. Mas lutarei mais astuto, para que não mais me assedies os sorrisos nem me violes as lágrimas. Bebê-las-ei para mim, sentindo o seu sabor dolorosamente ácido por vezes, pacificamente desolado por outras, e nunca morrerei de sede. Oferecerei os sorrisos para que sejam cuidados por alguém mais habilidoso que eu. Terei ainda assim que descobrir como guardar o meu pequeno tesouro privado, para que não me durmas com os segredos.

Sonhaste ser outras pessoas para me poderes comer por dentro, ainda mastigaste da minha alma e da minha carne. Mas enquanto te conseguir ver, não mais infectarás.

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