sábado, 4 de maio de 2013

A tentação, a culpa, o desejo, o medo, a quase ausência de obstáculos morais... Quando inalo a tua essência a imagem torna-se quase palpável, a mão na tua face, os lábios a subirem sem te tocar, do ombro ao pescoço, do pescoço ao ouvido. O lóbulo da tua orelha chama por mim, o teu cabelo acende-se como um farol para me guiar à entrada da tua outra alma.

Arrancar-te a confissão, a pureza do pecado, virar o mundo do avesso, partilhar a vontade. Partilhar o suor. Entrar em ti. Reconhecer o meu lar proibido, não o largar. Todo o instinto leva-me a querer invadir a fortaleza do teu espírito, do teu corpo, conquistá-lo, possuí-lo... Arrancar-te dos murmúrios, e arrancar-te os gemidos, roubar-te do presente e ver a cor dos teus olhos revirar e deixá-los brancos, num respirar animal.

Absorver as tuas preces, tomá-las para mim, e satisfazê-las. Abre-me as costas e sente o doce em que se torna o sangue na presença de uma ninfa diabolicamente sensual. Deixar-me cegar enquanto te convido a devorar-me, enquanto te devoro, num canibalismo recíproco, inconfessável, imperdoável, imperdível...

Sobreviver é o menos. Mata-me. Permite-me matar-te. Mergulhar e afogar todo o mundo no colo da nossa imaginação, desprezar o tempo, e continuar. Sermos a doença e a cura. O paciente e o curandeiro. Como toda a tua carne, uma cama do paraíso no inferno. E de novo tudo afogar no derrame do nosso desejo.

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