domingo, 26 de maio de 2013

Five Finger Death Grasp

O tempo abranda ao som dos passos dela. Vê-la a chegar, os momentos demoram cada vez mais a passar, eternas eternidades à medida que a distância diminui. Ela olha-te como olha tudo em volta, está apenas a reconhecer o ambiente. E tu finges, praticamente todas as vezes finges que não reparaste na sua chegada, esperando que ela se aproxime de ti em detrimento de tudo o resto. Esperas sentado, não querendo afastar a criatura com o susto ou a impaciência. Tudo demora. Pois sabes que tudo depende dela, e que apenas sem ela o tempo é mestre. Voltas à tua posição, de costas, obviamente mentindo o teu aspecto de despercebido. É preciso um pouco de arte, no teu caso, pois ocupa-te o cérebro por completo, e tens de lutar por um pouco de espaço e dedicação para manteres em cena o acto de irrelevância ignoradora do que te rodeia.

Enquanto o tempo fica mais lento, tens que forçar um pensamento mais rápido para acompanhar aqueles que esperam de ti uma resposta, uma pergunta, uma fala, um olhar - para que ninguém se aperceba do fantasma que te invade. Olhas de novo, tentando parecer desinteressado - mas ela ainda avalia o seu ambiente. Demora tanto, tanto, quando chegará ela ao teu lado? Será que já reparou na tua presença? Será que deu alguma importância? Será que viu um outro interesse prioritário? Não, não penses tanto: ela acabará por se aproximar. E olhas de novo as tuas companhias, como se nada tivesses visto e apenas um barulho te tivesse chamado a atenção - e as companhias continuam inadvertidas da tua mudança repentina de estado.

Não, tira a cabeça desse poço; não te levantarás, vais resistir, nada mais vais fazer para além desse sobrepensamento sobre a entrada de alguém na tua esfera. Os teus instintos dispararam mas tens que controlá-los, enquanto o pelo na tua nuca se arrepia debaixo da farta cabeleira que esconde o teu pensamento. Repetes os movimentos anteriores aos que executaste antes da sua chegada, pois são os únicos que te lembras durante esses intermináveis instantes. E passas despercebido, quieto no teu lugar.

Mas o canto do olho começa a ver a sua luz, e sabes que está praticamente atrás de ti. Não escapas agora, doente servo. Olhas, ainda a tentar transmitir que de nada sabes, e os teus olhos passam por ela. A sua mão está levantada, vem de encontro ao teu pescoço, enquanto continua a caminhar sem te olhar; haver-te-á visto, sem nunca o seu olhar se ter cruzado com o teu. O teu coração aquece-se e o gelo derrete enquanto levantas a tua mão. Pegas no seu pulso suave, leve, e conduze-lo na tua direcção, o antebraço por cima do ombro, e enquanto os teus lábios tocam a sua pele, a tua mão desliza para os dedos, e agarra-os. Enternecido pela seda branca, sentes-te renascido, pronto para enfrentar o universo, para mudá-lo e protegê-lo como necessário, metade como um amante, metade paternalista, sempre guerreiro.

Mas o seu pulso roda um pouco, os seus dedos esticam, enquanto já sentes os seus olhos na tua direcção apesar de fora da tua visão. E de novo os dedos perfeitos se fecham levemente, agarrando por um único momento nos teus. Agarram-te, sugam toda a tua alma e lembras-te de quão pequeno ficas ao saber que te olha mas nada te diz. E quando a última gota de ti é consumida e esse momento não se prolonga mais, a pele dela afasta-se, e com ela, a tua sensação de poder. Tornas-te consciente de que mais uma vez agarraste a morte pelo pulso, pela palma, pelos dedos. Tornas-te consciente do que é ser agarrado pela morte.

E és de volta entregue ao forçoso fingimento: nada disto pode ser observado no teu exterior. Mas com uma supervisora assim a tarefa torna-se fácil. Obrigas os neurónios a dedicarem um pouco de tempo a controlar os músculos da face e da língua, e proferes algo tão estúpido e irrelevante como um "olá", alguma expressão contemporânea como "e quê?", tentando não mostrar todo esse mundo que passa por ti aquando da sua chegada. Afinal, foram apenas uns segundos, os quais resististe heroicamente a ti mesmo. Resististe a algo inexplicável que ela te dá, e resististe por ela que to dá. E ela olha-te, sem importância. As lâminas rodam no teu corpo. Tudo por uns meros segundos. Mas sentiste a morte, resististe-lhe, rendeste-te, e ainda assim estás vivo. E estás em frente a ela por outros momentos, esses sim, demasiadamente rápidos momentos.

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