quinta-feira, 9 de maio de 2013

Na Chuva Negra

Mas a chuva negra não será um dilúvio. Cai para lavar e renovar, cai sempre para lavar e renovar. Pobres daqueles que são levados nas suas enchentes. Nada mais posso fazer enquanto lhes estendo o braço e luto por me segurar também. E mesmo quando a cegueira se apoderou de mim e me senti saindo pelo mar fora, tive a sorte de aguentar à deriva num vasto oceano. E, por correntezas e pelas braçadas, retornei a terra firme, mais desolada, mais desabitada, mas segura. Por isso entendo os pobres que são levados pelas enchentes, cuja esperança é completamente roubada. Mas espero que, ao olharem aos céus, vejam as aves, sinal de que a margem não anda longe. Raramente retornamos depressa a casa, mas sobrevivemos e conhecemos novos mundos.

Não te esqueças de retirar a cabeça da água e respirar. Sente o sol na face e descansa, tanto quanto possível, nas jangadas de destroços criados pela tempestade de chuva negra.

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