sexta-feira, 24 de maio de 2013

És, de tudo o que existe, e do que não existe, uma arca do desconhecido. Fosse eu capaz de falar como tu, e mostrar a quem quer que fosse o resto de mim. A família, o desassossego, o cinismo do qual me visto. Mas acabo sempre nisto, a falar: de mim. Tento-te compreender, e ser algo mais como tu. Pois vivem outras dedicatórias em mim a pessoas às quais não consigo mostrar. E os últimos anos fizeram-se pesar, com a partida dos afastados mais próximos, sem nunca lhes ter conseguido dar uma palavra das que mereciam, das que me correm no pensamento, mas que - tal como no subtexto do título deste mísero arcaboiço de pensamentos - a língua não consegue soltar.

Mantens também um diário de segredos. Não deixes que todos eles sejam assim. Quanto a mim, virar-me-ei à última pessoa que receio estar prestes a partir para outra eternidade num futuro próximo, na cidade natal, assombrado por alucinações, tentando ter a força para sorrir quando vê a sua prole e a prole da sua prole a segurarem na sua mão, agradecendo com algo murmurado pela sua voz rouca.

Mas dizê-lo, mostrar o apreço que tenho por essas figuras que tanto me prepararam... É-me difícil. Por isso olho assim para ti, com inveja. Que nada te escape.

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