Não vi as gotas de veneno de rosas negras mutarem-se lentamente em lágrimas transparentes, não vi o sangue avermelhar-se de novo. Não vi as trevas desaparecerem por trás do céu nublado, as luzes da cidade iluminaram a noite como as chamas haviam antes feito. Não senti o erguer dos músculos, vagarosos, do rastejar ao andar, do andar ao voar, o ácido que corria nas veias suar, desaparecer. Vi, sim, dragões erguerem-se das profundezas, a invadirem os céus. Vi as suas asas majestosas a estenderem-se cobertas de aranhas, e não as vi fugir agarradas à seda mais forte. E não vi a chuva de alcatrão se transformar em água de novo. Não vi tudo o que era inflamável tornar-se no assassino das chamas. Não senti a minha mente dissolver-se na futilidade dos momentos. Não senti o meu corpo escorregar, pois estava euforicamente inconsciente. Todas as peças se alteraram de uma forma óbvia mas tão lenta que a percepção não foi capaz de perceber.
O primeiro sentido recuperado foi a própria gravidade, o não haver escama nem terra debaixo de mim, queda livre estratosférica, de costas para o chão uma viagem infindável. De seguida o cheiro. O nauseabundo tinha ido embora. A putrefacção onde se banqueteia a vida havia desaparecido, tudo estava limpo, estéril. O paladar não sentia mais o sangue das presas, a hemoglobina não reagia mais com os pequenos pontos de prazer espalhados na língua. Os ouvidos transmitiam-me apenas ruído, um ruído tremendo, ensurdecedor não estivesse eu a acordar. Era o vento, que finalmente acabava por também sentir, no breu que me rodeava. E a queda não acaba. Até que retorna a visão, e o que vejo? Céus azuis, nuvens brancas, uma realidade, um pesadelo gelado para quem tinha os olhos aquecidos pelo fogo.
E vejo os últimos pisos de cinzentas torres de Babel, colossais arranha-céus, os troncos nus da velha selva cimentada. Porque parece este acordar o mais rude, porque parece mais um pesadelo que um despertar da mente? Não há dragões, colossais juggernautas, behemoths, leviatãs! Quem fragmentou e dispersou a vida em pequenas máquinas de pequenos sonhos, quem fragmentou tudo o que corre na alma em pequenas emoções e falsas sensações? Será que caíram todos como eu caio hoje? Quem roubou a cor aos olhos, quem impingiu o vazio à mente, quem matou a morte? Não saberiam que nos rimos por sabermos o nosso destino?
O estivador da pequenez está aqui. O rebaixador da mente, o realizador da irrelevância, o desfocador. O mata idéias, o extreminador das boas pragas, o guardião da mesquinhez.
E com um surdo mas duro impacto o meu corpo chega ao fim da queda, ao rés-do-chão da mediocridade, fazendo estremecer as torres e os alicerces. E ouço o cobarde, o esqueleto oco, o mentalmente mórbido obeso, o que se regozija nos esgotos cheios. O Zelador do Não. E acordo finalmente de um sonho, o de me afundar pacificamente nos lagos ardentes. Mas não estou nas fontes de magma. Estou sim nas fontes do cinzento.
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