segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Uma Nova Génese V (Erguer, Perecer)

A antecipação de um prazer egoísta e malvado, provido por uma tarefa que nos foi imposta. Tarefa que, se não fossemos obrigados a satisfazer, ainda assim completaríamos. Tarefa essa a de nos sentirmos humanos entre estátuas, de anjos entre santos, de demónios entre escravos. A antecipação de um orgulho altruísta e bondoso, de um casamento entre o imprescindível e o aprazível, provido por uma tarefa que desejamos. Os músculos e os nervos nos foram devolvidos aquando do eclipse, aquando do vislumbre do apodrecido. E enquanto o coração recupera doloroso, e os pulmões recuperam ofegantes, ondas de fraqueza começam nos pés - pelo que tropeçamos -, estendem-se pelas pernas - pelo que caímos -, forçam-se no estômago - pelo que vomitamos -, retiram-nos o pescoço - pelo que deixamos as cabeças caírem na lama. Chegam ao cérebro, e o que é negro e forte em nós contorce-se de prazer, pois nos é relembrado o desafio de ultrapassar uma dor, de sermos golems por nós próprios. O tabu do masoquismo como motor da vida, como alimento da alma. O tabu causado pelo medo e incompreensão não tem voz em nós. E de cérebro violado pelos nervos que ardem enquanto acordam, sorrimos fracos, mas vivos.

Todos os sentidos nos incomodam, e voltamos ao pensamento do "apenas mais um passo, apenas outro passo, apenas mais um bater do coração, apenas outro respirar", pensamento infinito e intemporal. Condenados a sofrer pelas nossas escolhas, orgulhosos de termos sido nós mesmos a fazê-las, sanados por ver que nem sempre as podemos fazer. E somos cada um de novo apenas indivíduos, depois do que está prestes a acontecer não mais saberei o que ocupa as mentes obscuras desses meus mais próximos desconhecidos. Mas agora sinto o erguer dos músculos, vagarosos, do rastejar ao andar, o ácido retorna às veias, negro e vivo, olho a chuva negra como o sangue. Observam os dragões que povoam os céus, observam as aranhas que se afastam de cada passo que alguém dá, e cobrem o pé mal este toca no chão.

E sem avisar, ela paira de novo, talvez só na minha mente. De um único manto branco, nua e coberta, transparente e protegida, destemida pois nada tem a temer. Desta vez orgulhosamente perfeita, de olhos verdes, muda, julgando-me. Numa mão uma semente, numa mão uma foice. E oferece-me a foice, desafiando-me silenciosa a retirar-lhe a semente. No rosto tem a expressão da vida, enquanto carrega a morte. Pois é esta musa que sirvo. Na sua ausência me castrou a vontade e a capacidade de matar. Na restituição da sua presença posso de novo sentir o sabor do sangue, sendo por me dar presas a caçar ou por me pedir que morda a língua.

E caminho, com uma foice na mente, com uma semente na vontade, fazer a minha parte no libertar do mundo. O Zelador olha, aterrorizado, cercado por todos com quem partilho olhos de fogo. O Zelador olha e chora, sua de arrependimento, não do que fez ao mundo mas do que fez a si mesmo. Morrerá egoísta e cobarde. Enquanto nos aproximamos, sinto o coração bater mais forte, a respiração é mais húmida e quente, ambos mais lentos e serenos. E tenho a honra e a sorte de  ser o primeiro dos animais a ignorar essa voz esquiza e fria, encharcada do reconhecer da própria morte, encharcada de pânico. Nem no fim se dignifica, continuando de joelhos no chão e como que caído para o lado a implorar pela vida, esperando por uma última oportunidade de traição e fuga. Raiva é raiva, por mais benigna que seja, e tenho uma imagem na cabeça, a ser cumprida após tanto tempo. Os dedos atravessam as órbitas, o polegar atravessa a boca, e nem um brilho do fogo que roubou se manifesta agora. A carne sintética que lhe compõe a garganta é perfurada, e tão depressa como sentiu a dor de uma mão lhe agarrar a cara, cospe pela última vez umas gotas desse sangue doente. Nisto, já os que rodeavam este par de possuído e despossuído estão em cima dele, cada um despe-o de um pedaço da sua carne e cospe-a podre.

Acabou.

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