Subitamente o céu escurece ainda mais. Subitamente os seus olhos já só reflectem metade, metade vermelhos, metade cinzentos. Subitamente as esfinges caem de seus peitos enquanto as suas bocas se abrem, enquanto todos olham para cima. Por momentos apenas se repercutem entre os vulcões e o betão as palavras que nos foram oferecidas para anunciar. Mas em segundos voltam as vozes dos espíritos sem espírito. Os cajados já não batem, pois alguns incumbidos de se autoproclamarem profetas os levantam ceptros ao firmamento, rasgando a roupa enquanto apontam ao céu. Apontam, pois o astro de todas as cores em si viaja suspenso, penetra desautorizadamente no fogo, coloca-se lentamente mas imparável à frente do Sol. Uns dizem ser o fim do mundo pela mão de deus. Outros dizem ser a mão de deus salvando-os do fim do mundo. Outros apenas pasmam, paralisados, enquanto o espanto lhes queima as pestanas. São estes últimos que dizem o mais perto da verdade, ficando silenciosos enquanto se tentam a perguntar-se sobre o que se estava a decorrer, mas impedidos pelo Zelador. Nunca viram a Lua, estes seres, então nunca imaginaram um eclipse. E o mundo treme aterrado, e nós, peças da mudança, meros observadores a quem foi roubado o corpo, trememos também por dentro. Enquanto isso olhamos em volta sem virar a cabeça, à procura do parasita da mente. A Lua demora o seu percurso, quase parada, com um crescente anel de fogo que se aparenta propagar intensamente agora que o Sol parece ameaçado.
Dois eventos concorrem. O ignóbil rastejante é encontrado, escondido entre aqueles que trai, ironicamente denunciado pelos olhos com mil verdadeiros Sóis que roubou às vidas que o rodeiam. Todos sabemos do mesmo, nenhum sabe quem o encontrou. E de pés pesados nos viramos na sua direcção. No mesmo momento a Lua pára de se mover, no centro do anel que arde selvagem. Essa terrestre suspensa perde todas as cores que lhe davam o branco - a Lua é negra aos olhos tanto dos possuídos como dos esvaziados. Tais cores aproximam-se do mundo que guardam incessantemente, invadem toda essa camada que nos separa do gelo, do vácuo. Separam-se enquanto misturadas, chovem tal tempestade lendária, enquanto dançam estimuladas pela luz que roubaram do céu. Expulsam impiedosamente as cinzas de vulcões que já não vomitam, chovem gotas negras que incendeiam alto e se consomem sem tocar os filhos da Terra. A lava não mais se movimenta, mas nem por isso brilha menos.
E chovem lendas e mitos, chovem sonhos calmos e violentos, chovem visões e alucinações, quebram-se as barras mentais que por tanto tempo contiveram e corromperam as vozes da discordância e da evolução, da alegria e do desespero. Chove coragem. E os nocturnos acordam, os lobos uivam, as aranhas saem da terra, cobrindo cadáveres e pés, vivas e fortes. E os olhos, ainda que vazios, brilham cheios de cor, não por reflexão do céu mas por invasão da própria alma, um sentimento de leveza inconsequente já há muito esquecido nas suas vidas. Os clamares do controlo param de novo - reflectem sobre si mesmos, uma introspecção que resulta ao mesmo tempo numa extrospecção empática com todos os seus irmãos. Não mais defendem o vil rastejante, não mais defendem a falsa moral que lhes foi imposta. Não mais que a pele sentem barrar-lhes as almas de se misturarem. Mas ainda não controlam a mente, pois falta-lhes o fogo que lhes foi negado. Estão num novo estado de inconsciência, de deslumbrar o infinito, de contemplar mais de perto a liberdade, durante esse coma. A fraternidade aperta-lhes os corações, mas ainda se sentem incapazes de agir. Sem luz interior, cegavam-se à luz diurna. Sem luz interior, extinguiam-se os sonhos nocturnos. Mas ainda sem estarem neles próprios, com o imperador do nada dentro deles, resta-lhes voar um pouco antes de poderem voltar. E é no eclipse que voam, deslembrados antes de deslumbrados.
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