sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Uma Nova Génese III (Os Passos)

Nisto, sobem outros dragões, vermelhos, verdes, cinzentos. Todos eles em chamas enquanto vulcões brotam, uma primavera infernal. E chovem outros corpos, enquanto um frio gélido me parece congelar os órgãos. Há dor, mas não sofrimento. É um obstáculo ao movimento, mas nem por isso o andar parece mais difícil. E tão certo como o tempo, enquanto sinto cristais de gelo saírem dos joelhos mais me transformo nesse golem imaginário, mais passos dou, mais longos, mais possantes, mais pesados. Quanto mais sinto o sangue a morrer, o coração a parar, mais vida me invade, e uma serenidade extrema, com uma voz a ecoar-me em todos os sentidos. Vejo o som puxar-me pela garganta, em direcção ao vulcão. Possuído pelas garras, encontro-me com tantos outros, atónitos quanto eu. Uma nova meta guia-me, tanto que dispensa o bater e o respirar. Encontrar o Zelador. Encontrar o Zelador e rasgar-lhe o pescoço, devorar-lhe as entranhas, pendurar as ossadas na árvore mais jovem. Expô-lo ao mundo para que possa crescer num monumento ao sentido e à vida. Para que não mais haja escravos, para que cada um se deixe desinfestar do possuir do vácuo, vilmente esperançoso não de esperança, mas de esperar.

Inconsequentemente caminhamos. Sem obstáculos caminhamos. Como que deslizamos entre os que ignoram pálidos o magma que sobe, a lava que desce, o visco que tudo derrete. Atrás de nós, esses pós-humanos caminham. Incendeiam, começam por ser mutilados pelos pés. Mas com a anestesia do Zelador, nada sentem e nada vêm, e caminham sobre a lava, caem sobre os próprios cotos, como numa inundação de chamas no mar ardente que lentamente se aproxima. Nós começamos por murmurar. Um murmúrio que sobe, e apesar de não conseguir escutar as minhas próprias palavras, sei que sou arrastado pelas mesmas garras que movem os outros. Um amor à vida e à morte, um amor ao prazer e à dor. Um respeito ao medo, um peito à consequência. Como sempre o que nos move. Como sempre, o que nos move. E ouço. E ouço de novo, sentenciando à própria vida.

"Tudo senão o vazio é natureza. O sofrimento e a euforia prevalecerão sobre a apatia."

E as palavras ecoam, os semimortos começam a reconhecer-nos peregrinos no meio deles, na busca do esposo da angústia. Tentam-nos barrar, inutilmente nos tentam impedir. É motivo de orgulho - um pouco de raiva inconsciente sobe-lhes, tanto que os olhos reflectem momentaneamente a lava e o Sol, num céu atenuado pelos contrastes e pelas cinzas que voam. Protegem sem o saber o seu líder mascarado, mas nada se sobrepõe a passos incompreensivelmente pesados. E levantam-se cajados e ferros, bastões e lâminas, mas embatem contra glaciares. E levantam-se vozes da retórica, e nos dizem mortos retornados, zombies, exaltando ainda mais essa massa orgânica que se recusa a ser libertada. E gritam vozes da retórica, como se fossem livres. E nos acusam de não termos salvo os seus irmãos na lava, propositadamente ignorando que eram também nossos irmãos, e mais inconscientemente, continuando a ignorar a lava. Convencem-se de que têm pena de nós, olham-nos hipócritas de cima, superiores. Quase nos acham os filhos do perdido, sem saber que o perdido caminha entre eles. Sem saber que o perdido não tem filhos, mas serventes.

E apontam-nos o dedo à moral, dizendo que tentamos transformar o mundo nas cidades de Sodoma e Gomorra, conferem-nos a crueldade que se desvive no mundo. E o medo acompanha a raiva, temendo que o seu amado ditador deixe cair sobre eles a raiva e a vingança. É tão grande a alegria e o orgulho de ver alguns a fugir, quase libertos! É tão grande quanto a tristeza de sentir o seu temor de olharem para trás, pensando que somos os mensageiros de deus, e que se duvidarem de tal se repetirão tempos bíblicos, sendo transformados na mais fria pedra. O Zelador vive deveras em todos eles. São estes que continuarão a dar razão ao ciclo, procriarão e ensinarão o medo e o culto cego ao ídolo mudo, até que um dos que se libertam o faça da forma mais desprezível apercebendo-se do poder que o fantasma tem sobre os seus congéneres. Será este a tornar-se no próximo Zelador. E serão alguns dos seus irmãos a caírem inconscientes de dragões, e a caminharem para lhe roubar a vida.

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