quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Uma Nova Génese II (O Observar)

O malévolo Zelador combate o fogo com o seu próprio, que ainda retém nos olhos. Combate-o e rouba-o, combate-o e escraviza-o, combate-o e mata-o. Quebra espíritos para lhes roubar a vontade e tudo o que neles arde. Que poderia outro ser destroçado fazer contra esse porteiro do vazio? Vejo as ruas limpas, despidas de pessoas, cobertas de humanos. Ecoam as árvores que do outro lado do mundo ainda caem, ainda se sentem as raízes a erguerem-se forçosamente do seu berço, para serem consumidas por lâminas.

Exércitos desmoralizados ajudam de olhos revirados, inconscientes, verdadeiros mortos vivos. E ao primeiro confronto os neurónios acendem, os que ligam o pouco ego que lá no fundo, escondido, lhes sobra. Masturbam o centro do cérebro, a convenção orgânica dos verdadeiros despoletadores da sensação, uma massa de prazer corrupta, desesperada por um pouco mais da droga da inércia. E para isso defendem a sua não-causa, juntam-se numa maioria que não podem vencer porque não imaginam ser formada deles próprios. Não dormem, não acordam. Não sonham, não vêem. Não há realidade nem alucinação nas suas cabeças, mas apenas um pesadelo de insónia. Uma mentalidade implantada, alienígena, conservada em formol, sem cor nem cheiro, sem gosto nem tacto.

O Zelador do Não vive em todos eles, inflingindo uma dor abafada por medo de a receber ele próprio. E recusa-lhes o prazer fingindo sentir dor, e recusa-lhes a dor fingindo ser vazia, e recusa-lhes o vazio fazendo-os acreditar que são alguém. Oferece-lhes uma amálgama de nada, retira-lhes o pensamento e a magia. Reduzem-se à insignificância que são no universo sem sequer lhe reconhecer o mecanismo, rejeitam os rinocerontes demoníacos e os leões cospe-fogo. Recusam o Gabriel e o Mephisto, o Buda e o Desejo, abdicam do pão e do circo, do pensamento e da alma. Não, um mundo destes cheio de falsa significância e vazio de emoção não merece ser vivido. Um mundo sem ambição mas cheio de ganância, sem curiosidade pelas estrelas, cheio dos que se escondem do uivo dos lobos debaixo de um tecto e quatro paredes despidas. Quem acabar com o respirar do Zelador devolverá ao mundo o motivo da gargalhada - a consciência da nossa própria fatalidade.

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