segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Uma Nova Génese VI (Génese)

Enquanto me ergo vislumbro um oceano de gente desmaiada. A sua pele tem mais cor agora, está mais quente, não mais parecem estar encurralados entre a existência e a morte, num sonambulismo abstido de sentido e sensação. Têm agora uma porta para a vida, e não mais estão proibidos da coragem para atravessá-la. Abertos a um mundo de evolução, crescendo a cada derrota, triunfando a cada vitória. Mas dormem, fatigados por insónias de outra era adormecida, ninguém imagina durante quanto tempo. E não mexem nem sonham, o recomeçar é duro, mais do que sempre foi a vida. Mas descansam, finalmente descansam.

No entanto, o céu mantém-se brilhante e colorido, num amanhecer e anoitecer que dura dias, num dia que dura noites. A Lua deixou de novo o Sol para oferecer luares atentos, numa viagem que dura meia Lua, meio mês. E volta mais forte, volta cheia, volta luminosa. E pela primeira vez esses dormentes, ainda ao relento, sonham, sob a luz de uma guardiã orbitante. E uns falam no sono, outros mexem-se, um verdadeiro teatro com o mundo como elenco, e em que todos são indivíduos. Mas uns sonham em conjunto, outros tantos separados, todos eles na sua maior vontade, e - na simetria do que antes aconteceu - conscientes durante a inconsciência. Sonhos mais belos, que durante o tempo que lhes for permitido, não serão mais levados como garantidos. Entre eles vivem ideias e gostos, noutros voares e conheceres de novos mundos, noutros vive a morte na defesa dos seus, preparando-se para enfrentar um momento que nem o mais insano espera que chegue. Vivem no seu interior os tempos mágicos, de novo entre dragões e behemoths, leviatãs! Mas cada segundo é aproveitado nessa morte aparente tomada de novo pela vida interior.

Até que a Terra passa à frente da luz e se dá um novo eclipse, permitindo ao astro lunar esconder-se na sombra daqueles que salvou. Senhores e senhoras de si mesmos, abrem-se os olhos em pares, confusos mas cheios, de cores belas e diferentes entre si. As expressões não mais se agrupam divididas sob um mesmo ditador, e variam libertadas. A cor finalmente começa-se a dissipar, dando lugar a um céu repleto de estrelas, têm uma primeira impressão do quão pequenos são numa galáxia de um enxame, num enxame do Universo. E lágrimas cobrem sorrisos, não mais deslembrados, e até ao fim das suas vidas deslumbrados, irmãos e irmãs que se unem numa Terra demoníaca e angelical. A lava havia consumido casas, mas por hoje a casa de um é a casa de todos os outros. O solo não mais é plano, pois os vulcões lhe deram novas montanhas a serem escaladas. O solo não mais é cinzento, pois fora coberto de brotos de árvores e flores.

Os nocturnos haviam limpo o que restava preso às ossadas do disfarçado, o Zelador não mais era. E não tinham medo de um próximo, pois o que é inevitável assim o é, tal natureza é a humana. E solenemente se recolhe os restos de um fim infernal, que esperou por aqueles que não fossem tão grandes, e se pudessem colocar aos ombros de gigantes que aos ombros de gigantes já se haviam colocado. E solenes marcham, uns com raiva do que perderam, como a nova noite lhes permite. Uns ainda no êxtase dos sonhos. Uns ainda com o vôo vazio no eclipse. Mas todos comunicando e entendendo-se, pela primeira vez verdadeiramente comunicando e entendendo-se. E solenes marcham, até ficarem silenciosos perante a árvore mais jovem que seria capaz de suportar o peso de relembrar ao mundo a apatia agressiva, oferecida pela falta de dor e prazer, pensamento e imaginação, liberdade e decisão. Pendurado pelo peito, de caveira descaída para a frente, subirá com a árvore numa criação do natural, imparável se não por aqueles que um dia oprimiu. E a Lua descobre-se, de novo com todas as cores em si, redonda e brilhante. Não mais tem a foice, pois me foi oferecida. E não mais tem a semente, pois foi conquistada com toda a ajuda dela.

E um mundo recomeça salvo pela Lua, no meio de tantos mundos, tantos deles mortos, tantos deles vivos. Recomeça num restituir das origens, com o ganho e o fardo da experiência de mais um ciclo, uma génese de regeneração.

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