Vejo dois espelhos com o teu reflexo, e que se reflectem mutuamente. Um deles reflecte para mim, outro apenas está perante mim. Mas tal casa de espelhos não abriga apenas duas imagens, mas mil, e mil imagens se separam umas das outras em mais do que existe e menos do que imagino. Saber onde está a mãe dessas reflexões não é de todo difícil, não há desafio, apenas um pouco de bom senso, utilitarismo, gelado como um cadáver. A apatia da impotência já se fez carregar demasiado em demasiada gente, e daí uns se viram para as vibrações, a tinta, o papel - porque é nos espelhos, nas luzes, é na confusão que está o interessante. Está o que escondes e o que mostras, o real e o imaginário, tudo menos o conformismo com uma realidade perigosamente saudável, convenientemente adequada, perpetuadora do não. Vive uma possibilidade imortal, vivem as musas, a poesia! Vive a viagem mesmo quando fora do papel estamos confinados. Vivem deuses e fadas quando a realidade é "apenas" isso: real. Nos espelhos, nas luzes e na confusão o sonho torna-se palpável, respirável, sejam talvez os vapores da tinta alucinogénicos e nos façam entrar no País das Maravilhas e nos Reinos da Decomposição. Quem pode culpar quem quer que seja por viver a fantasia na sua cabeça?
E a manhã chega, a rotina tende a ter o seu peso, o sonho adia-se para a noite seguinte. E a realidade é o que é: uma fascinante roda-viva de evolução e violência, o sentir o frio cortante e o quente abafado, olhar ao céu e tentar perceber o mecanismo do universo. Ver a ciência, observar a delicadeza robusta. Ver a Lua a por-se de manhã, e com sorte voltar à noite. E o sonho dorme, com tudo o que não é real.
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