Foste em tempos um velho poeta embriagado. Pintaste as tuas histórias em guardanapos de papel, aos quais limpavas o sebo hedonisticamente doente, e deixavas pelo caminho a poluir o palco em que declamaste. O teu sangue fervia, poeta. O teu sangue fervia com as bactérias que a cada dia mais prosperavam no teu coração. Chegaste a casa incontáveis vezes sem avisar, depois de noites e noites desaparecido, passadas ao relento sob o calor de consortes físicas temporárias, com uma cascata de rum a escorregar-te pela garganta abaixo. O que conseguiste, hedonista doloroso, se não magoar quem tentava carinhosamente intervir?
Estavas anestesiado, e assim conseguiste caminhar sobre as brasas, e conhecer novos mundos. Ouviste (mal, mas ouviste) a voz que te chamava de volta a casa, da enfermeira que te podia curar, do pescoço que te podia aconchegar, mente pronta a esquecer os teus erros. Mas quando chegaste ao fim dessa passadeira ardente tropeçaste em ti mesmo, numa rasteira que já pedias há muito. E a anestesia impediu-te de sentir a queda. Por culpa dessa anestesia (culpa tua por não a ter sabido controlar) não sentiste a garrafa escorregar-te dos dedos, partir-se contigo, perfurar-te esses glóbulos então inutilizados a que arrogantemente já ousavas chamar de olhos. E não soubeste de tais feridas porque essa mesma substância te dava visões.
Oh, energúmeno poeta, deste tanto das tuas palavras, todas elas verdades momentâneas e paradoxais, as tuas encenações acabavam aí, enquanto rebolavas no lixo que próprio criaras. Os teus ferimentos supuravam, e enquanto o pus te cobria, os vapores das tuas curas e visões fugiam de ti. Oh, mal agradecido poeta! Mas cego levantaste-te, e ainda embriagado correste sobre as brasas que te levaram até aí - sentiste pela primeira vez a dor nos pés, e novas feridas se formavam, para fazer companhia às chagas que já tinhas. E chegaste a casa, mas a porta estava fechada. Olhaste pela janela, e um novo início se formava, já longínquo de ti. E bateste à porta, ameaçaste arrombá-la. E um tornado a levou, deixou-te de joelhos no chão, com as infecções a conquistarem cada vez mais o teu corpo.
E, uma vez mais, voltaste às brasas. E nelas te deitaste, gritando a todo o mundo, berrando por aquele nome, assediando a suave armadura mais externa daquela esfera, tentando reaproximá-la da minha a qualquer custo.
Mas não, poeta, o que podias ser tu foste, o que devias e o que não. E o que ganhaste, se não o causar da dor a cada momento dessa embriaguez? Ganhaste um mito, uma lenda, perdeste uma realidade. Ganhaste um tempo vazio de verdades, cheio de ruído branco, ganhaste calos nesse ataque suicida ao mundo. E ganhaste a humildade de banir a tua metade mais podre para um mundo onde a podridão não interessa. Mas vives esticado por ambos os mundos, e tentas-te segurar a ambos. Tudo o que te posso desejar, poeta, é que chegue uma espada que te corte o tumor e te deixe viver num mundo mais apetecível. A adaga já lá está, mas não te trespassa. E vês, na outra mão, a espada... Aquela espada.
Estavas anestesiado, e assim conseguiste caminhar sobre as brasas, e conhecer novos mundos. Ouviste (mal, mas ouviste) a voz que te chamava de volta a casa, da enfermeira que te podia curar, do pescoço que te podia aconchegar, mente pronta a esquecer os teus erros. Mas quando chegaste ao fim dessa passadeira ardente tropeçaste em ti mesmo, numa rasteira que já pedias há muito. E a anestesia impediu-te de sentir a queda. Por culpa dessa anestesia (culpa tua por não a ter sabido controlar) não sentiste a garrafa escorregar-te dos dedos, partir-se contigo, perfurar-te esses glóbulos então inutilizados a que arrogantemente já ousavas chamar de olhos. E não soubeste de tais feridas porque essa mesma substância te dava visões.
Oh, energúmeno poeta, deste tanto das tuas palavras, todas elas verdades momentâneas e paradoxais, as tuas encenações acabavam aí, enquanto rebolavas no lixo que próprio criaras. Os teus ferimentos supuravam, e enquanto o pus te cobria, os vapores das tuas curas e visões fugiam de ti. Oh, mal agradecido poeta! Mas cego levantaste-te, e ainda embriagado correste sobre as brasas que te levaram até aí - sentiste pela primeira vez a dor nos pés, e novas feridas se formavam, para fazer companhia às chagas que já tinhas. E chegaste a casa, mas a porta estava fechada. Olhaste pela janela, e um novo início se formava, já longínquo de ti. E bateste à porta, ameaçaste arrombá-la. E um tornado a levou, deixou-te de joelhos no chão, com as infecções a conquistarem cada vez mais o teu corpo.
E, uma vez mais, voltaste às brasas. E nelas te deitaste, gritando a todo o mundo, berrando por aquele nome, assediando a suave armadura mais externa daquela esfera, tentando reaproximá-la da minha a qualquer custo.
Mas não, poeta, o que podias ser tu foste, o que devias e o que não. E o que ganhaste, se não o causar da dor a cada momento dessa embriaguez? Ganhaste um mito, uma lenda, perdeste uma realidade. Ganhaste um tempo vazio de verdades, cheio de ruído branco, ganhaste calos nesse ataque suicida ao mundo. E ganhaste a humildade de banir a tua metade mais podre para um mundo onde a podridão não interessa. Mas vives esticado por ambos os mundos, e tentas-te segurar a ambos. Tudo o que te posso desejar, poeta, é que chegue uma espada que te corte o tumor e te deixe viver num mundo mais apetecível. A adaga já lá está, mas não te trespassa. E vês, na outra mão, a espada... Aquela espada.
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