terça-feira, 12 de março de 2013

Excertos


"...

Mas as dúvidas padecem de um grande mal: a ignorância. Esta é imposta ou pelo próprio duvidante, ou pela incorrespondência dos sentidos a transmitir tudo o que seria preciso para decidir com que pé dar o próximo passo. Uns rastejam para que não cheguem a cair, e os seus joelhos esfolam-se, tornando difícil uma tentativa de os usar como deveriam ser usados. As suas mãos sujam-se e estão continuamente ocupadas a palmilhar o terreno, não podendo então pintar, escrever, tocar - transmitir. E a coluna que os mantinha de pé perde o seu encanto e a sua força. Não aprenderam eles que gatinhar serve para aprender a andar? Outros, um pouco mais firmes, evitam as quedas de dar dois passos com o mesmo pé dando-os pequenos, podendo corrigir sem dificuldades o primeiro sinal de erro, e assim caminham sem tropeçar. Mas caminham coxos e lentos passos, mal-fadados de nunca os levar para fora de si mesmos. E raramente nos trazem algo para dentro, e consequentemente é raro conseguirem crescer verdadeiramente. As suas mãos, usam-nas para tocar mas não para sentir. Os seus olhos para ver, mas não para observar. E a fala, usam-na para se mentir seguros. Na verdade apenas o rastejante está seguro.

Não repudio estas atitudes por completo, pois são-nos úteis ao ajudar-nos sarar as feridas de pernas partidas com o apoio de muletas, e até o que gatinha tem a hipótese de descansar enquanto pode um dia encontrar uma cova cheia de água, um minúsculo lago de calma onde se possa reflectir o céu, e fazê-lo olhar para cima redescobrindo a imensidão do sonho. Mas assim, são-nos úteis para nos fazer andar depois de cair. Para nos fazer correr, para nos fazer saltar, para nos fazer dançar. São-nos úteis apenas quando lhes conseguimos dar o valor de ferramentas que nos permitam deixá-las. Mas e nesta busca, como devo eu andar?

O Sol acabava finalmente por nascer, e nesse momento o espírito retornava a ser inalado, trazendo de volta o que a dúvida não conseguia decidir.

..."

Mas o meu desejo é caminhar decidido, e correr inconsciente, e tropeçar, e sujar o corpo - e levantar-me, e correr de novo. Contudo não só corre perigo a integridade do corpo de quem corre, mas também a daqueles contra quem o corpo se esbarra. Como se pode correr se não sozinho? Sobra o gosto pelo chão acidentado no pé descalço, um caminhar seguramente periogo, e basta um descuido sobre uma das garrafas partidas para se tropeçar e os vidros voltarem aos olhos, na ironia de acontecer no caminho contrário ao de outrora.

Seja.

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