Chuva negra. Encharcas tanto rascunho, levas tantas palavras pela sarjeta. Um dia davas o peso à tinta para que pudesse assentar no papel, hoje dás o peso à consciência e não a deixas assentar no ser.
Estão de volta aqueles olhos que me fizeste ver, observam-me mudos, e avaliam-me. Fazem convenções em que julgam a moral e desdenham o sentir, e parecem pensar que olho para eles quando na realidade estou a olhar para dentro. Seres tão altos, inatingíveis, fatais. Seres que me policiam tanto que não posso se não soltar pequenos murmúrios. Mas não é disso que me queixo - e a loucura, volta a mim, que me queixo à chuva?
Queixo-me, sim, da inconsistência que deixaste cair sobre mim, em relâmpagos abafados, grandes e fracos. Sinto a garganta obstruída por uma esponja, e, chuva, não tiras a sede. Cegaste tanto a pena que não consigo ferir a língua e com o sangue escrever, cais tão pesada que mal me consigo levantar, e és tanto alcatrão que só consigo pensar em atear-te fogo e levar o mundo comigo. As cinzas serão lama, a lama será terra, e na terra algo florescerá.
E caíste também sobre outras alturas. Que são daqueles olhos? Um daqueles seres fugiu, encontra-se também debaixo da chuva negra, silenciosa, escondida, decerto ocupada e feliz com assuntos mundanos. Os olhos dos outros seres tornaram-se castanhos, as suas mantas estão sujas, e agora cobrem-se por completo, silenciosos mas fracos, envergonhados. Quando a divindade daquela musa mergulhou na terra, as alturas tornaram-se fracas e desrespeitosas, perderam a virtude que se revelava intimadora. E com a ajuda do teu peso, chuva, mergulhou levando com ela o meu alter-ego, preso inadvertidamente na sua perna. Sinto-me efemeramente eterno, preciso do meu eu que odeio e tornar-me nele, o destino roubou-me a alma! Resta-me esperar observando os rios negros de ti, chuva, que o meu alter-ego venha a flutuar por eles abaixo.
"Mas na inocência e frescura desta mente, o que me falta é consciência da realidade, e por isso como sempre deambulo pela noite, arrastando comigo o peso de um fantasma pendurado em mim, os lábios da consciência presos ao meu pescoço tentado-me seduzir apenas para me enganar." Disse-te isto da primeira vez que arrancaste palavras de mim, chuva negra. Mas foi-se a inocência e a frescura. O peso é da consciência, os lábios da imaginação.
Purificarei então, pegarei fogo a tudo, vejamos o que sobra.
Purificarei então, pegarei fogo a tudo, vejamos o que sobra.
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