sábado, 9 de março de 2013


Sentes o mundo dentro de ti, um turbilhão de demónios vermelhos, negros, e dourados, alados. Tudo faz mais sentido quando viras o mundo do avesso, cada momento é em valor uma pequena eternidade, eternamente insuficiente. As lâminas que se arrastastaram levemente pelas tuas costas deixaram as marcas de um passado, e um passado não volta - e as cicatrizes (belas cicatrizes) não sararão. Não retorna o passado mas sabes que retornaram as lâminas, e uma desejosa impotência de lutar contra elas fez-te render de imediato ao seu metal vermelho de calor. Arrastam-se, e ao mesmo tempo que cortam o seu caminho pela carne, cauterizam a ferida e anestesiam a dor do espírito. Sim, é uma droga que deixa marcas e não consegues largar, tu sabes disso e não te arrependes, uma droga à qual não há overdose.

Ouviste os demónios acordarem e gritarem de prazer quando as agulhas se intrometeram nas veias e perturbaram uma calmaria inerte, os olhos abriram-se e encheram-se de sangue, e a simbiose acordou! Os cavalos de fogo voltaram a galopar nas planícies de um mundo invisível, iluminando o gelo que lhes queima os cascos descalços, e cavaleiros de corpos eternamente carbonizantes cantam em gritos a vinda do derradeiro final (façamo-lo durar para sempre)! Com os seus trompetes divinos anunciam a vinda do apocalipse da alma, a união dos lugares fantásticos, a orgia do que nós mortais separámos e tentámos perpetuar, as delicadezas do bem e do mal! Pois não é uma metade que ganha, mas todos, dentro de ti! E verás a chuva a cair e a continuar a congelar na pele, enquanto o fogo continuará a tentar derreter esse glaciar que te envolve - mas não por hoje, em momentos a tua pele é fogo em impetuosas erupções que evaporam a chuva à tua volta, noutros o gelo que insiste em entrar por onde saía o fogo apenas para impedir que ele queime. E predominam as chamas pois as adagas se arrastaram quentes, tão quentes que à distância varreram o gelo! Tudo o fizeram na distância que as mãos que as seguram quiseram manter.

E observas, acordado, as feições de uma fada diabólica, de um demónio angelical. E observas atrás dela as correntes do mundo que arrasta. E observas que também tu à distância fazes peso (por pouco que seja) nesse mundo, de onde outrora havias sido banido. E que é esse peso que tens que fez com que uma tentativa de assassinato se tornasse na carícia de um sofrimento, e te escravizasse num oceano de desejo e prazer. Estás disposto a qualquer momento saltar do convés em que viajas para as ondas perigosas seguindo o canto dessa sereia. E nos teus olhos brilha a coragem já há muito esquecida: afogar-te-ás se for esse o final que o destino te preparou, mas enquanto o fogo ou o gelo te continuarem a invadir nada tens a temer - e mesmo na morte estarás acordado. Louco marinheiro, não há um porto seguro para ti, nunca mais seguro que a loucura de...

E escondes-te no nevoeiro, entre as ondas e as marés, e esperas fazê-la sorrir por um momento com as palavras espalhadas no vento.
E prevês de longe o sorriso a desvanecer-se, e viras de novo o mundo ao contrário - as facas afastam-se, mas as cicatrizes não.


(Imagem de John Dyer Baizley)

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