Por mais que um espírito não queira voltar a adormecer, o impossível é abafado pela sobrevivência. E enquanto nas trevas os corvos continuam a voar despercebidos, o rum continua a cair para que se mantenham outros mundos, outras ilusões pelas quais vale a pena existir. Por mais forte que seja o gosto pela dor, há uma necessidade ainda mais extrema de sanidade, por mais que falsa e fingida. Uma dessas metades não consegue matar a outra, e a outra não pode a nenhum custo abater a primeira.
O abandonar da apatia é aparente, usando-a na verdade para dominar as peripécias do tempo, domar a alma insana enquanto está trancada num infinito para que não o rebente, tornando-o finito e vão. A mutação da alma é imparável, o imperativo da adaptação sobrepõe-se, e uma aceitação é simulada indefinitivamente.
Piromaníacos frustrados não iam se não provocar a perda não só do passado, mas também do presente e do futuro. Não com a frustração a alimentar-lhes as chamas. Não com a irreverência da alma a tentar fugir para mundos de fantasia. Não com a possibilidade de uma eternidade nunca julgada, mantida em silêncio.
Mas o desejo é eterno: fazer o criador confrontar a criatura, e domá-la, assassiná-la, em nome de uma antiga espada. Mas ao contrário do espírito, o destino não é domável por uma só pessoa. E essa pessoa, sozinha, ainda que com a coragem a brilhar, rende-se a uma extensão da vida em detrimento da busca pela espada, enquanto ela causar o sofrimento a quem a segura.
E o espírito deixa de existir, transformado em algo vago mantido no anterior de um crânio, destruindo uma vida em vantagem da existência, censurando-se a si próprio em prole de outra promessa. Mas os seus impulsos, esses, não são silenciáveis no mesmo crânio - apenas se pode deixá-los gritar, ignorando a sua vontade de sangue; um celibato da alma, não do corpo; uma morte voluntária, para que não obrigada.
Afinal sempre é possível matar sem provocar uma morte. Afinal, há um caso em que matar é necessário para não provocar a morte. (E a hipocrisia é tão grande... Uma palavra de adeus é impossível de um dos lados. Adivinhas a qual me refiro?)
Afinal sempre é possível matar sem provocar uma morte. Afinal, há um caso em que matar é necessário para não provocar a morte. (E a hipocrisia é tão grande... Uma palavra de adeus é impossível de um dos lados. Adivinhas a qual me refiro?)
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