Cartas e cartas, nunca escritas, quase sempre lidas, outras escondidas. Outras pairam em molduras num recanto da mente, uma vez escondido, de vez em quando reencontrado. Cartas sobre a corrupção do corrupto, em direcção ao completo. O reconhecimento da força perante a tentação, e a fortificação da tentação a defender-se da força. A vontade é tudo. Na vontade reside a consciência, o medo, a coragem, o desejo, o repúdio - mas nem sempre a vontade é clara. Somos escravos da vontade mais forte, porque sobrevive sempre a mais forte.
Se me observo mau a cumprir promessas de mentira e silêncio, se corrumpo ocasionalmente essas mesmas promessas, talvez seja porque as que verdadeiramente tenho vontade de cumprir são promessas do bem estar, de continuar a ver um certo sorriso sem fim. O diabo que reside em mim tem duas faces - uma associada ao desejo, outra associada à resignação. O demónio do desejo quer-te igual num mundo diferente. O demónio da resignação engloba a fuga, o repúdio à dor, a vida rápida e prazerosa. E sem eles não haveria o shaman que com cânticos e plantas em chamas me faria ver a vida pelo que ela é. Por conhecerem o mal, até os demónios querem o bem.
Mas o shaman que invoca a ajuda da natureza e os demónios que invocam os prazeres da mesma vivem todos dentro de um deus, não maior que ninguém à excepção de si próprio. E esse deus olha com agrado e dor ao demónio do desejo, o qual está convicto num mundo maior, mais belo, mais perfeito. De contrário olha pesaroso para o demónio da resignação, o qual quer apenas a inconsciência, cura que o shaman não pode dar.
Apenas vontades, contraditórias, cuja vencedora é uma mistura - a forma com que lidamos com tudo, a ferramenta com que fazemos a realidade, com que tentamos atingir a paz consciente.
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