A maçã do conhecimento. A dentada que subjugou à humanidade à sua própria condição. A dentada que permitiu que nos conhecêssemos, que fossemos nós mesmos, em vez de umas pestilentas conchas vazias aos olhos uns dos outros e dos nossos próprios, uma pintura morta num quadro. Sem medo do medo, correndo o risco de correr riscos, lutar pela luta, viver pela vida, morrer pela morte. Sofrer pela alegria, ter a alegria na liberdade de sofrer.
Sem um Zelador do Não.
Somos deuses de nós próprios, convivemos com outros deuses. Ditamos o nosso destino, mas não o que nos é destinado. Criamos inadvertidos invisíveis influências no que nos rodeia, em quem nos rodeia. Cometemos erros, procuramos redenção. Cometemos proezas, procuramos humildade. Somos egos e egos que tentam viver em conjunto, indivíduos que somados valem mais que cada um sozinho. Somos sonhadores dos abismos e desesperados das nuvens. Criamos, destruimos, queremos, odiamos, tentamos, conseguimos, falhamos. Ganhamos derrotas, sofremos vitórias.
Aprendemos. Tentamos voltar atrás, contorcemo-nos perante a impossibilidade. E apercebemo-nos que tudo o que nos é permitido pelo Universo é caminhar em frente, partir para outras terras, ou reconquistar as terras perdidas. Conhecer os nativos, confrontarmo-nos com a existência de outros que não nós. Reconhecermos novos deuses. Respeitá-los ao invés de venerá-los. Amá-los, odiá-los, ou ignorá-los. Adoptar em vez de repudiar. Comunicar em vez de comungar.
E sob as velas do tempo, e sobre a cera quente por elas largadas, criarmos o nosso caminho por mais voltas que ele dê.
Sem a maçã do conhecimento, tudo isto seria uma palavra: "existirmos".
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