Foi-te dada a maldição de cuidadora e caçadora, e por uma longa era escondeste-te desse peso duplicado, do paradoxo de quem dá vida na presença e a tira na ausência. Dás asas, incendeias. Dás membros, decepas. Dás um corpo, perfuras. Dás uma cabeça, decapitas. Mas, nos momentos em que o receptáculo se encontra completo, enche-lo de sangue, ofereces uma alma, enquanto o coração continua acorrentado a ti. E a luz, momentânea luz, a luz que permites ver à criatura é deveras a mais bela e atraente, completa com todas as cores. E com tal luz brilha a estrela da manhã e o astro da noite.
E hoje, caçadora, permites-te abrir um pouco os olhos e ver o fogo que emana de ti, o fogo com que imolas os objectos da tua criação, cujo fumo mistifica ainda mais o espaço e o tempo. Permites-te ver o teu próprio brilho.
Desconheço truques, tudo o que vejo é uma parte pura da realidade. Desconheço metáforas, cada palavra que cai da língua é a peça mais sincera da alma. Desconheço outras vidas, passadas, mas sei que houve uma pelo menos - não é a minha. Desconheço a minha própria morte, o resto da vida, o amanhã, o próximo momento. Tudo o que conheço é a rebeldia de um cadáver que não se quer manter morto, de se tornar o caçador, de se tornar o cuidador. Mas é um cadáver que não anda à caça, toda a maldição é oferecida, mais que conquistada.
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