domingo, 2 de junho de 2013


E todas as almas inconsoláveis parecem despejar sobre mim o peso douradamente macabro: "o teu nome foi a última palavra que ele proferiu". Não consigo, por nada, por tudo, se não apenas por ele, aguentar essa sentença.

Nada fiz para que esse lobo me tivesse como último nome. Mas deverei aguentar para todos os peões deste intrigado tabuleiro de xadrez poderem descansar.

Lobo do mar, conseguiste ir embora e deixar-me algo. As saudades da tua presença, tão desvalorizada por mim mesmo, serão gigantemente esclarecedoras.

Digo adeus, mas não o consigo sentir.

E nada poderei fazer para que voltes. Nenhuma daquelas lágrimas, nenhum daqueles lamentos te pode fazer voltar. Aquelas rezas revelam que te querem num mundo melhor, e o meu objectivismo fere-me como nunca antes. Rezas nas quais não consegui participar, rezas nas quais não acreditei. Escrevo na segunda pessoa para ti, que nunca irás poder ler. Quáo inconsequentes podem ser as palavras? Coitados dos vivos. Não de mim, que mal possuo sentimentos. Mas as lágrimas que escorrem dos outros ferem-me tanto quanto as minhas próprias, nunca largadas mas presentes.


Não faço ideia do que quero dizer.

Reconheceste-me, velho lobo. A cada passo olharei para ti, para a tua filha, e para aquele que para sempre amou a tua filha. E é esse o meu legado, o amor pela família que possibilitaste.

Avô, lobo do mar, que presenciaste Auroras Borealis, que presenciaste a guerra, que presenciaste a ditadura. Para sempre, estarás aqui. No local menos óbvio e menos declarado, mas também aqui estarás.

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