terça-feira, 25 de junho de 2013

Entropia

O mundo gira sobre o vazio, feito peão rodopiante à volta de uma luz, gigante, distante. Contamos abertamente cada volta que dá sobre si mesmo, contamos abertamente cada volta que dá a esse pirilampo espacial. O que não tendemos a pensar é quão intimimamente desprezamos essas contagens homologadas, pois uma volta não é igual a outra. É o que se passa à superfície do planeta que dita a passagem do nosso tempo. É a idiossincrasia dos símbolos que nos rodeiam, das pessoas, dos hábitos, da Lua.

Só há uma direcção para a entropia, e é essa a direcção ao caos, à irreversibilidade. Mas vemos os sóis, os planetas, a vida tão delicadamente organizada a contrariar as leis do universo, a tentar manter coeso o ecossistema de relações pessoais. Por vezes, a tendência é tão forte que o difícil se torna voltar ao caos, obter a desorganização, liquefazer a realidade para a tornar mutável. Como se certos pontos da realidade tivessem cristalizado no tempo, e tudo o resto nadasse em sua volta, e por mais que queiramos fugir acabamos por reconhecer a mentira. Ou acabo, eu, na minha experiência pessoal. Solto os cristais, e eles não quebram. Tentara formar outros, mas não foram senão líquidos viscosos. Tentar abandoná-los matar-me-ia com eles. O que sobra é aceitá-los, se nem a negligência parece enfraquecê-los. E ver quantas voltas sobre si mesmos dão, e ver quantas vezes girarei em seu torno. E à noite brilham, translúcidos, perfeitos como diamantes, cortantes, mortíferos, dadores de vida, ácidos, belos. E à noite brilham, à luz da Lua.

Viraste a minha entropia ao contrário.

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