É um espelho revoltante, carinhoso, ébrio, bastardo, saudasoso, escuro, iluminador. As memórias que traz, a maioria desfocadas. Tinha em si fechado o peso do tempo estático, impassível à mudança que não a sua própria. Há uma vontade gigante de o atravessar, e a meio do salto, é o melhor que pode acontecer. Por isso a cascata parecia tão reluzente; encorpava nela um espelho que reflectia a luz que escapa dos picos da montanha, se dispersa nas nuvens, e atravessava a água passada. Mas, vendo a mesma cascata de dentro, apercebo-me do que provavelmente era óbvio aos olhos externos. Estava preparado para imenso, mas não para ver o mundo a cair comigo. Para sempre, sem um embate, sem uma morte, mas uma queda permanente de retirar o fôlego, roubá-lo para sempre. Mas é uma suposição. Pressinto a queda, e pressinto antes dela a anestesia que me vai proteger.
Ainda mal entrei nesta cascata de Pandora, mas reconheço-lhe tão bem os cantos... E ainda assim, é como se visse fantasmas à minha frente, comigo não existente, rever a palavra e a acção, rever a certeza e o erro, a raiva e o arrependimento. Mas, acima de tudo, vejo parte da referida anestesia: o êxtase, a loucura desmedida, o voar contra paredes e continuar, qual ave desorientada, cega. Inebriado pela tua presença distante.
Palmo a palmo, o meu corpo penetra no espelho. A água invade os pulmões, e respiro-te como um dia te respirei sem o saber tão bem, como um dia me respiraste. Todos os meus frascos de memórias me escapam das vestes, e são levados para o fundo, enquanto eu, surpreendentemente, me mantenho à mesma altura. Talvez seja já a anestesia, talvez esteja eu a caminhar para a morte sem me aperceber, talvez a tortura tenha despoletado em mim a droga interna que nos protege da dor quando nos amputam uma parte de nós mesmos. Talvez não. Talvez compreenda mesmo o futuro que o futuro me guardou. Mil mãos no meu corpo, mil mãos no meu pescoço, mil olhos me observam, mil ouvidos escutam o meu silêncio. Mil de ti me rodeiam.
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